Por Paulo Eduardo Barni, Anelícia Cleide Martins Rego, Francisco das Chagas Ferreira Silva, Richard Anderson Silva Lopes, Haron Abrahim Magalhães Xaud, Maristela Ramalho Xaud, Reinaldo Imbrozio Barbosa e Philip Martin Fearnside

Os incêndios florestais são uma ameaça à integridade e biodiversidade das florestas [1] e ao armazenamento de carbono da floresta amazônica e às funções do ciclo hidrológico [2-6]. As fontes de ignição de incêndios florestais na Amazônia são o resultado de ações antrópicas, como queimadas em florestas recém-desmatadas próximas ou para manutenção de pastagens ou para corte e queima da agricultura familiar, enquanto a extração seletiva (ESM) desempenha um papel importante na tomada de a floresta vulnerável à entrada e propagação de fogo [7-13]. SL tem sido apontado como um dos fatores para a propagação de incêndios florestais mesmo em locais distantes dos principais focos de desmatamento [14-17].

Eventos de seca prolongada causados pela frequência crescente de eventos severos de El Niño têm um efeito direto na propagação de incêndios florestais na Amazônia [18-22], assim como os efeitos das mudanças no uso e cobertura da terra e exploração madeireira predatória [10-11]. A frequência de incêndios florestais tem aumentado em áreas que (até recentemente) eram consideradas imunes ao fogo devido à umidade natural da floresta; no entanto, os fatores que atenuam ou amplificam a ocorrência de incêndios ainda são pouco estudados [2, 23-25].

A Amazônia fornece serviços ambientais essenciais (por exemplo, [3]), e conservá-los requer a compreensão das interações entre fenômenos climáticos e atividades humanas e seus efeitos na degradação da biomassa florestal. O mapeamento sistemático é uma das ferramentas de sensoriamento remoto de grande importância para o entendimento da distribuição espacial e do comportamento de propagação dos incêndios florestais e é uma forma inteligente de fornecer subsídios para o aprimoramento de políticas públicas de combate ao uso indiscriminado do fogo.

O mapeamento sistemático pode fornecer estimativas de emissões de gases de efeito estufa (GEE) em grande escala e contribuir para melhorar os cálculos que representam a biomassa e o carbono afetados por fogo e desmatamento [18, 26]. O atual Inventário Nacional de Emissões de GEE do Brasil [27] não considera as emissões de incêndios florestais no sub-bosque ao calcular as emissões de mudanças no uso da terra e silvicultura. Este fato persiste, em parte, devido ao pequeno volume de trabalhos realizados nesta área do conhecimento e às grandes incertezas envolvidas no cálculo dos fatores de emissão.[28]


A foto deste artigo mostra queimadas na floresta na região de Porto Velho, capital de Rondônia, em julho de 2022. (Foto: Christian Braga/Greenpeace)


Notas

[1] McLauchlan, K.K., Higuera, P.E., Miesel, J., Rogers, B.M., Schweitzer, J., Shuman, J.K., Tepley, A.J., Varner, J.M., Veblen, T.T., Adalsteinsson, S.A. et al., 2020. Fire as a fundamental ecological process: Research advances and frontiers. Journal of Ecology, 108(5), 2047-2069.

[2] da Silva, S.S., Fearnside, P.M., Graça, P.M.L.A., Brown, I.F., Alencar, A., de Melo, A.W.F., 2018. Dynamics of forest fires in the southwestern Amazon. Forest Ecology and Management, 424, 312-322.

[3] Fearnside, P.M., 2008. Amazon forest maintenance as a source of environmental services. Anais da Academia Brasileira de Ciências, 80, 101-114.

[4] Fearnside, P.M., Barbosa, R.I., Pereira, V.B., 2013. Emissões de gases do efeito estufa por desmatamento e incêndios florestais em Roraima: Fontes e sumidouros. Revista Agroambiente On-line, 7, 95-111.

[5] Rappaport, D.I., Keller, M., Morton, D.C., Longo, M., Dubayah, R., dos-Santos, M.N., 2018. Quantifying long-term changes in carbon stocks and forest structure from Amazon forest

[6] Ziccardi, L.G., Graça, P.M.L.A., Figueiredo, E.O., Fearnside, P.M., 2019. Decline of large-diameter trees in a bamboo-dominated forest following anthropogenic disturbances in southwestern Amazonia. Annals of Forest Science, 76, art. 110.

[7] Alencar, A., Nepstad, D., Diaz, M.D.V., 2006. Forest understory fire in the Brazilian Amazon in ENSO and non-ENSO years: Area burned and committed carbon emissions. Earth Interactions, 10, art. 6.

[8] Aragão, L.E.O.C, Shimabukuro, Y.E. 2010. The incidence of fire in Amazonian forests with implications for REDD. Science, 328, 1275-1278.

[9] Berenguer, E., Ferreira, J., Gardner, T.A., Aragão, L.E.O.C., de Camargo, P.B., Cerri, C.E., Durigan, M., de Oliveira Jr., R.C., Vieira, I.C.G., Barlow, J., 2014. A large-scale field assessment of carbon stocks in human-modified tropical forests. Global Change Biology, 20(12), 3713–3726.

[10] Brando, P.M., Balch, J.K., Nepstad, D.C., Morton, D.C., Putz, F.E., Coe, M.T., Silvério, D., Macedo, M.N., Davidson, E.A., Nóbrega, C.C., Alencar, A., Soares-Filho, B.S., 2014. Abrupt increases in Amazonian tree mortality due to drought–fire interactions. Proceedings of the National Academy of Sciences of the USA, 111(17), 6347-6352.

[11] Brando, P.M., Paolucci, L., Ummenhofer, C.C., Ordway, E.M., Hartmann, H., Cattau, M.E., et al., 2019. Droughts, wildfires, and forest carbon cycling: A pantropical synthesis. Annual Review of Earth and Planetary Sciences, 47, 555-581.

[12] Uhl, C., Buschbacher, R., 1985. A disturbing synergism between cattle-ranch burning practices and selective tree harvesting in the eastern Amazon. Biotropica, 17(4), 265-268.

[13] Xaud, H.A.M., Martins, F.S.R.V., Santos, J.R., 2013. Tropical forest degradation by mega-fires in the northern Brazilian Amazon. Forest Ecology and Management, 294, 97-106.

[14] Alencar, A.A., Brando, P.M., Asner, G.P., Putz, F.E., 2015. Landscape fragmentation, severe drought and the new Amazon forest fire regime. Ecological Applications, 25(6), 1493–1505.

[15] Broadbent, E.N., Asner, G.P., Keller, M., Knapp, D.E., Oliveira, P.J.C., Silva, J.N., 2008. Forest fragmentation and edge effects from deforestation and selective logging in the Brazilian Amazon. Biological Conservation, 141, 1745-1757.

[16] Hethcoat, M.G., Carreiras, J.M.B., Edwards, D.P., Bryant, R.G., Peres, C.A., Quegan, S., 2020. Mapping pervasive selective logging in the south-west Brazilian Amazon 2000–2019. Environmental Research Letters, 15, art. 094057.

[17] Silva Júnior, C.V., Aragão, L.E.O.C., Barlow, J., Espirito-Santo, F., Young, P.J, Anderson, L.O., Berenguer, E., Brasil, I., Brown, I.F., Castro, B., Farias, R. et al., 2018. Drought-induced Amazonian wildfires instigate a decadal scale disruption of forest carbon dynamics. Philosophical Transactions of the Royal Society B, 373, art. 20180043.

[18] Aragão, L.E.O.C, Anderson, L.O., Fonseca, M.G.. Rosan, T.M., Vedovato, L.B., Wagner, F.H., Silva, C.V.J., Silva Junior, C.H.L., Arai, E., Aguiar, A.P. et al., 2018. 21st Century drought-related fires counteract the decline of Amazon deforestation carbon emissions. Nature Communications, 9, art. 536.

[19] Jiménez-Muñoz, J.C., Mattar, C., Barichivich, J., Santamaría-Artigas, A., Takahashi, K., Malhi, Y. et al., 2016. Record-breaking warming and extreme drought in the Amazon rainforest during the course of El Niño 2015-2016. Scientific Reports, 6, 1–7.

[20] Meira-Junior, M.S., Pinto, J.R.R., Ramos, N.O., Miguel, E.P., Gaspar, R.O., Phillips, O.L., 2020. The impact of long dry periods on the aboveground biomass in a tropical forest: 20 years of monitoring. Carbon Balance and Management, 15, art. 12.

[21] Nepstad, D., Lefebvre, P., Lopes da Silva, U., Tomasella, J., Schlesinger, P., Solorzano, L., Moutinho, P., Ray, D., Guerreira Benito, J., 2004. Amazon drought and its implications for forest flammability and tree growth: A basin-wide analysis. Global Change Biology, 10(5), 704-717.

[22] Nepstad, D.C., Tohver, I.M., Ray, D., Moutinho, P., Cardinot, G., 2007. Mortality of large trees and lianas following experimental drought in an Amazon forest. Ecology, 88(9), 2259-2269.

[23] Barni, P.E., Pereira, V.B., Manzi, A.O., Barbosa, R.I., 2015. Deforestation and forest fires in Roraima and their relationship with phytoclimatic regions in the northern Brazilian Amazon. Environmental Management, 55, 1124–1138.

[24] Fonseca, M.G., Anderson, L.O., Arai, E., Shimabukuro, Y.E., Xaud, H.A.M., Xaud, M.R., Madani, N., Wagner, F.H., Aragão, L.E.O.C., 2017. Climatic and anthropogenic drivers of northern Amazon fires during the 2015-2016 El Niño event. Ecological Applications, 27(8), 2514-2527.

[25] Turubanova, S., Potapov, P.V., Tyukavina, A., Hansen, M.C., 2018. Ongoing primary forest loss in Brazil, Democratic Republic of the Congo, and Indonesia. Environmental Research Letters, 13, art. 074028. 

[26] Baccini, A., Goetz, S.J., Walker, W.S., Laporte, N.T., Sun, M., Sulla-Menashe, D., Hackler, J., Beck, P.S.A., Dubayah, R., Friedl, M.A., Samanta S., Houghton, R.A., 2012. Estimated carbon dioxide emissions from tropical deforestation improved by carbon-density maps. Nature Climate Change, 2, 182–185.

[27] Brasil, MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação), 2020. Estimativas Anuais de Emissões de Gases de Efeito Estufa no Brasil. Quinta edição. MCTI, Brasília, DF. 108 pp.,

[28] Esta série é uma tradução parcial de Barni, P.E., A.C.M. Rego, F.C.F. Silva, R.A.S. Lopes. H.A.M. Xaud, M.R. Xaud, R.I. Barbosa & P.M. Fearnside. 2021. Logging Amazon forest increased the severity and spread of fires during the 2015-2016 El Niño. Forest Ecology and Management 500: art. 119652.


Leia o primeiro texto:

Exploração madeireira e incêndios florestais: 1 – Resumo da série


Sobre os autores

Paulo Eduardo Barni é Engenheiro Florestal graduado pela Universidade Federal do Amazonas (2007), mestre em Ciências de Florestas Tropicais – CFT, pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA/Manaus (2009) e doutor em Clima e Ambiente, pelo INPA e Universidade Estadual do Amazonas – UEA (2014). Seu interesse em pesquisa inclui modelagem ambiental e climática, com ênfase no comportamento do fogo florestal de sub-bosque, queimadas, simulações de desmatamento, recuperação de áreas degradadas, biomassa de capoeiras e estocagem e emissões de carbono florestal para a atmosfera. É professor da Universidade Estadual de Roraima – UERR, Campus Rorainópolis, Região Sul do Estado de Roraima.

Anelícia Cleide Martins Rego é aluna de graduação na Universidade Estadual de Roraima – UERR, Campus Rorainópolis.

Francisco das Chagas Ferreira Silva é aluno de graduação na Universidade Estadual de Roraima – UERR, Campus Rorainópolis.

Richard Anderson Silva Lopes concluiu a Especialização em Geoprocessamento pela Universidade de Brasília em 2005. Atualmente é Técnico especializado no Corpo de Bombeiros Militar de Roraima, Boa Vista, Roraima. Atua na área de Geografia, com ênfase em Sensoriamento Remoto.

Haron Abrahim Magalhães Xaud é Eng. Agrônomo formado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) com Mestrado e Doutorado em Sensoriamento Remoto pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais-INPE. É pesquisador da Embrapa-Roraima e professor permanente do PRONAT-UFRR (Mestrado e Doutorado). Se dedica a pesquisas nas áreas de Recursos Florestais, Sensoriamento Remoto, Agricultura Sem Queima, Gestão Territorial e Incêndios Florestais.

Maristela Ramalho Xaud possui graduação em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (1993) e mestrado (1998) e doutorado (2013) em Sensoriamento Remoto pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais-INPE. É pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa-Roraima). Tem experiência em sensoriamento remoto e geoprocessamento em estudos sobre desmatamento, queimadas, incêndios florestais e mudanças de uso e cobertura da terra. Atua como professora colaboradora do Programa de Pós-graduação em Recursos Naturais da Universidade Federal de Roraima-UFRR.

Reinaldo Imbrozio Barbosa é Engenheiro Florestal pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e Doutor em Biologia Tropical (Ecologia) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). Possui especial interesse em estudos relacionados às mudanças climáticas, uso e ocupação da terra, dinâmica de ecossistemas e emissões de gases do efeito estufa decorrentes das atividades antrópicas na Amazônia. É pesquisador titular do INPA, Professor do Programa de Pós-graduação em Recursos Naturais da UFRR (Doutorado/Mestrado) e professor colaborador nos cursos de Pós-graduação em Ecologia e Ciências Florestais do INPA (Doutorado/Mestrado). Suas publicações podem ser encontradas aqui.

Philip Martin Fearnside é doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 750 publicações científicas e mais de 650 textos de divulgação a que estão disponíveis aqui.

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