Enquanto o acesso ao Ensino Superior ainda representa um desafio para milhares de estudantes da periferia de Manaus, cursinhos populares e solidários têm ganhado espaço na capital amazonense como alternativa para democratizar a preparação para vestibulares, Enem e concursos públicos.
No início do mês, a Câmara Municipal de Manaus (CMM) aprovou o projeto de lei que cria a Política Municipal de Incentivo a Cursinhos Solidários. A proposta segue agora para sanção do prefeito Renato Junior e prevê apoio institucional a entidades sem fins lucrativos que oferecem preparação gratuita ou de baixo custo para estudantes de baixa renda.
O texto define como “cursinho solidário” organizações que oferecem preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), vestibulares, concursos públicos e processos seletivos de escolas públicas concorridas, como colégios militares.
“É uma medida com importantes impactos sociais a médio e longo prazo, visto que, por meio da Educação, tem a capacidade de modificar a realidade de milhares de pessoas, propiciando melhores condições futuras de aprendizado, emprego e renda”,aponta o autor da proposta, vereador Capitão Carpê (PL).
Embora reconheça que não faz parte da competência municipal gerir o ensino médio, o autor argumenta que a medida trará retornos econômicos e sociais para a capital, por isso deve ser implementada.
Ferramenta de transformação
Mesmo antes da proposta, Manaus já registrava o crescimento de iniciativas populares voltadas à educação comunitária. Uma delas é o Favela na Universidade, cursinho popular organizado por movimentos sociais e professores voluntários.
O projeto surgiu por meio de parceria entre entidades como a UNEGRO, o Coletivo Vozes e a Rede Nacional de Cursinhos Populares, ligada ao Governo Federal. A primeira turma iniciou as aulas em maio deste ano na Escola Estadual Deputado Josué Cláudio de Souza, chamada popularmente de GM3, no bairro Coroado, zona Leste.
Segundo os organizadores, o objetivo vai além da aprovação em provas. “Sabemos que a transformação começa com iniciativas como essas, nosso objetivo é combatendo a desigualdade, gerando oportunidades e fincando a bandeira do combate à evasão escolar”, aponta Ruan Wendell, coordenador do cursinho.
O perfil da primeira turma evidencia o público alcançado: 72,5% dos estudantes são mulheres; todos vieram da escola pública, moram na zona Leste e possuem renda familiar de até um salário mínimo.
Ocupação dos espaços
Outra iniciativa que vem ganhando espaço é o Ecos da Margem, cursinho popular voltado a estudantes que pretendem prestar vestibulares e o Enem em 2026. As aulas acontecem em dois polos: na Universidade Federal do Amazonas, aos sábados, e no Museu da Amazônia, durante a semana.
Inspirado na pedagogia de Paulo Freire, o cursinho afirma trabalhar conteúdos acadêmicos conectados à realidade social dos alunos. “Acreditamos na educação pública, gratuita e de qualidade como pilar de uma verdadeira democracia popular, onde todas as pessoas sejam socialmente iguais e humanamente diferentes”, divulgou a organização.
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