Seis meses após o assassinato do jornalista colombiano Rafael Moreno, 30 jornalistas, coordenados por Forbidden Stories, uniram-se para continuar com suas investigações sobre suspeita de corrupção em larga escala na província de Córdoba, norte da Colômbia, revelando um sistema de favoritismo e compadrio em contratos de obras públicas. Tal prática pode ter resultado no desvio de vários milhões de dólares. Na imagem acima Maira Moreno, irmã de Rafael, durante o velório em Puerto Libertador, Córdoba (Colômbia), 26 de outubro de 2022. (Crédito: Diego Cuevas para El País)

Por Paloma Dupont de Dinechin 

Andrea Rincón (Cuestión Pública), Edier Buitrago (Cuestión Pública), Ivonne Rodriguez (CLIP), Claudia Duque (freelancer), Juan Diego Quesada (El País), Ivonne Rodriguez (CLIP) e Felipe Morales (El Espectador) contribuíram com esse texto, entre outros.

Tradução do inglês ao português de Barbara Arisi, da Amazônia Real


Paris (França) – “Se vão me matar, me matem. Mas eu respondo na sua cara: não vão me silenciar”. 

Com estas palavras, proferidas em um vídeo de 37 minutos veiculado no dia 21 de julho de 2022 ao vivo no Facebook, o jornalista colombiano Rafael Moreno desafiou seus detratores e previu sua própria morte.

No vídeo, Moreno veste um chapéu e uma camisa pólo branca com o nome de sua mídia online: Voces de Córdoba. Durante mais de meia hora, o jornalista investigativo, que além de dirigir duas páginas do Facebook, havia recentemente aberto um bar e uma churrasqueira para conseguir pagar as contas, denuncia vigorosamente a corrupção na região de Córdoba. Esta região, localizada ao norte de Medellín, é uma das mais pobres e violentas do país – e um corredor estratégico para o tráfico  de drogas. É também uma das áreas onde há mais corrupção.  

Lendo de sua tela, Moreno cita contratos cujos valores teriam sido artificialmente aumentados, projetos de obras públicas inacabados e empresas que lucram com a corrupção desenfreada e o desvio de fundos. “Eles roubam do município”, diz ele em um ponto do vídeo. “Alguém deveria colocar o dedo na corrupção nesta região”.

Desde os Acordos de Paz firmados em 2016 entre o governo colombiano e o grupo rebelde Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), Moreno tinha feito da corrupção e do narcotráfico sua especialidade. Uma obsessão, até. “Vocês de Córdoba”, lançado em 2018, não poupou ninguém – desde políticos locais a empresas mineradoras e grupos paramilitares. Beirando ao excesso, o tom empregado por Moreno e o número crescente de seguidores em sua página – cerca de 56.000 – não passou desapercebido. 

Três semanas antes de postar o vídeo, Moreno encontrou uma nota anônima deixada em sua moto, acompanhada de uma bala de revólver, que agora ele mostra na frente da câmera. “Agora você sabe que conhecemos todos os seus movimentos, para onde você vai, quando acorda, quando vai dormir”, ele lê a mensagem. “Sabemos onde você sai para tomar uma bebida em Montelíbano [a cidade onde ele morava], sabemos tudo a seu respeito e não vamos perdoá-lo pelo que está fazendo”. Então agora você sabe, meu amigo, que o tambor carregador desta [arma de] 9 mm está pronto para você”. 

Vários meses depois, em 16 de outubro de 2022, pouco depois das 19 horas, Moreno estava fechando seu bar e churrasquinho logo após o pôr-do-sol, quando um homem usando um boné de beisebol entrou no restaurante. O homem pegou um revólver e disparou três vezes contra Moreno, matando-o instantaneamente. Até o momento desta publicação, o assassino ainda está solto. 

Como previsto por ele próprio, Moreno foi assassinado. Porém, graças a documentos e instruções deixadas pelo jornalista, ele não foi silenciado. 

Durante os últimos seis meses, 30 jornalistas se reuniram para continuar o trabalho de Moreno, de acordo com os pedidos que ele fez antes de sua morte. Vários dias antes de seu assassinato, Moreno havia entrado em contato com a Forbidden Stories com o objetivo de aderir à Rede SafeBox, que permite que jornalistas ameaçados carreguem e protejam suas informações delicadas. Se algo acontecer com eles, Forbidden Stories e nossa rede de parceiros podem continuar seu trabalho e garantir que suas histórias sejam acessadas por um máximo de pessoas no mundo todo. 

Centenas de documentos e e-mails acessados pelo consórcio Forbidden Stories nos permitiram dar continuidade ao trabalho de Moreno sobre corrupção e desvio de dinheiro. Hoje, estamos publicando estas investigações junto com 32 parceiros de mídia em vários países do mundo. Através de nossa análise dos documentos deixados por Moreno, bem como outros contratos públicos obtidos com base na liberdade de acesso à informação nos municípios, sobre os quais Moreno relatou,  reportagens e entrevistas com dezenas de fontes, nosso consórcio jornalístico pôde revelar um enorme sistema de compadrio e favoritismo na província de Córdoba e o provável desvio que chega  a vários milhões de dólares em cinco municípios, um vasto esquema que Moreno passou sua carreira tentando derrubar e pode ter pago com sua própria vida.  

A voz de Córdoba 

Kiara Moreno, viúva de Rafael Moreno, à esquerda, e Maira Moreno, irmã mais nova do jornalista, no apartamento de Rafael Moreno cinco dias após seu assassinato (fonte: Forbidden Stories)

Quatro dias após o assassinato de seu marido, Kiara Moreno voltou pela primeira vez ao apartamento que havia servido como escritório do jornalista. Ela estava acompanhada por outros membros da família e por jornalistas do consórcio Forbidden Stories.

A primeira coisa que chamou atenção era um monte de documentos administrativos em cima da mesa, resultado de centenas de pedidos de liberdade de acesso à informação que Moreno havia protocolado solicitando detalhes sobre contratos públicos. Na Colômbia [assim como no Brasil], essas solicitações são uma ferramenta poderosa para a obtenção de informações de interesse público. Mas embora sejam relativamente fáceis de preencher, podem ser arriscados para o autor – especialmente em regiões perigosas como Córdoba. Moreno foi um dos poucos jornalistas corajosos o suficiente para apresentar esses pedidos. E ele o fez com gosto. Nos dez dias anteriores ao seu assassinato, ele havia apresentado quatro.

Para Moreno, o jornalismo por si só não era suficiente para pagar as contas. Em 2022, ele havia aberto uma empresa de lavagem de carros, um bar e “churrasquinho” – o mesmo local no qual ele mais tarde seria baleado – que ele chamou de “Rafo Parilla”. Toda semana, ele pedia emprestado o carro de um amigo e dirigia cinco horas para comprar peixe para vender aos seus vizinhos.

Apesar destas atividades, ele também encontrou tempo para compartilhar vídeos e conteúdos em duas páginas do Facebook que ele administrava: “Rafael Moreno investigador” e “Vocês de Córdoba”. Nessas páginas, ninguém era intocável. Conselheiros, prefeitos, governadores, até mesmo colegas jornalistas, se encontravam na linha de fogo de Moreno. “Você está indo longe demais”, a irmã Maira lembra de ter dito a Moreno. “Você até estaria disposta a denunciar sua própria irmã?”, perguntou. A resposta de Moreno foi: “Sim, se você fez coisas erradas.” 

Moreno não tinha limites quando se tratava de denunciar a corrupção, recordam seus amigos e familiares. “Ele estava constantemente jogando cascas de banana”, disse Rafael Martinez, o secretário de gabinete em Puerto Libertador, da região de onde Moreno veio, e amigo de longa data do jornalista, em uma entrevista com um membro do consórcio de jornalistas. “Qualquer um poderia tê-lo matado”.

Uma família poderosa

Família Calle começando pela direita: Carmen Aguas e seu marido Gabriel Calle Demoya e os dois filhos do casal: Gabriel Calle Aguas e Andrés Calle (fonte: Facebook de Gabriel Calle Demoya)

Em 7 de outubro de 2022, Moreno, que sabia que estava sob ameaça real, começou a compartilhar elementos da investigação final em que estava trabalhando com os administradores da equipe da Rede Safebox da Forbidden Stories. “Estamos atualmente trabalhando em uma investigação muito rigorosa e nos deparamos com muitos problemas”, disse ele em uma chamada nove dias antes de seu assassinato. “Está relacionado a uma estratégia na qual administradores públicos, empresários e consórcios [de empresas locais] utilizam materiais da bacia do rio Uré para projetos de obras públicas sem qualquer tipo de permissão, licença ou título”.

Através de reportagens feitas no local, Moreno havia descoberto que dezenas de caminhões estavam sendo levados para um rio próximo a um parque nacional, onde, disse ele, areia era furtada para uso em projetos de construção pública. Tudo isso era ilegal, disse Moreno. Segundo os trabalhadores entrevistados por Moreno, a areia retirada das margens do rio Uré – para ser usada em obras públicas – era coletada sem licença ambiental, apesar de ser uma área protegida. Mais adiante, o jornalista determinou que o esquema estava ligado a uma das famílias políticas mais poderosas da região – a família Calle, proprietária da terra. 

No final de setembro de 2022, Moreno – usando óculos escuros e um chapéu Nike preto de malha – novamente se filmou, desta vez do que ele acreditava ser a cena do crime: um terreno pertencente a Carmen Aguas, a esposa de Gabriel Calle, o patriarca da família Calle – uma das seis famílias da região que disputam por influência política. 

Moreno postou o vídeo em sua página no Twitter, etiquetando o filho de Gabriel Calle Andrés, o ministro do Interior, o Ministério Público, uma agência de proteção ambiental e o presidente da Colômbia, Gustavo Petro. No vídeo, ele denunciou o esquema de roubo de recursos, gesticulando em direção a uma retroescavadeira distante. O vídeo reuniu cerca de 1.600 visualizações – não um milhão, mas era o suficiente para manchar potencialmente a imagem da poderosa família. 

Calle, o patriarca, é um ex-deputado regional e prefeito de Montelibano (2012 a 2015), uma das principais cidades da região. Ele está atualmente sob investigação por várias acusações de corrupção, incluindo conflitos de interesses ilegais e enriquecimento ilícito. Sua família também esteve ligada ao tráfico de drogas no passado: o primo de Calle, César Cura Demoya, foi condenado por tráfico de drogas e lavagem de dinheiro nos Estados Unidos.

Em Córdoba, o alcance político da família Calle é significativo. Um de seus filhos, Gabriel Calle Aguas, trabalhou como gerente de campanha local do atual presidente colombiano Gustavo Petro e como chefe de gabinete do Ministro do Interior e atualmente concorre ao cargo de governador de Córdoba nas eleições regionais previstas para outubro de 2023. 

Yamir Pico, primo de Moreno, que também é jornalista, considerou a última investigação de Moreno como “extremamente sensível”, especialmente no contexto da temporada de campanha eleitoral ainda em curso. “Rafael tinha ido para a propriedade privada dos Calles, uma família com a qual a maioria pisa de leve porque sabemos do que eles são capazes”, disse Pico em uma entrevista com Forbidden Stories. Três jornalistas próximos a Moreno, incluindo Pico, que compartilharam nas redes a reportagem de Moreno sobre esta família, alegadamente teriam recebido ameaças após a morte de Moreno.

(Em declaração ao consórcio, Gabriel Calle Demoya negou toda a responsabilidade pela extração de areia. “O maior problema não é Gabriel Calle, o suposto proprietário do local da extração ilegal”, disse ele. “Ao contrário, são as empresas que realizam trabalhos com materiais provenientes de jazidas ilegais”. O ex-prefeito de Montelíbano acrescentou que aqueles caminhões haviam sido filmados em uma estrada pública e não na propriedade de sua esposa, embora o registro predial não mencione a existência de uma estrada pública neste local).

A partir dos vídeos que Moreno filmou, nos quais são visíveis as placas dos caminhões, Forbidden Stories foi capaz de rastrear a propriedade do caminhão, veículo que Moreno acreditava estar sendo usado para roubar recursos. Nossa investigação apurou que esse caminhão pertence à construtora JV Ingenieria, cujo representante legal é Juan Carlos Amador Carrascal. (Carrascal não respondeu a pedidos de comentários). Este mesmo empresário estava anteriormente ligado a um escândalo envolvendo a renovação de uma escola usando materiais de construção de má qualidade que resultaram em  infiltração de água suja nas salas de aula.

Yamir Jhan Pico, primo de Rafael Moreno e jornalista que parou de investigar após o assassinato de Rafael Moreno (crédito: Diego Cuevas para El País)

Em 12 de outubro, quatro dias antes de seu assassinato, Moreno enviou um pedido de acesso à informação à prefeitura solicitando documentos sobre o rio Uré e a propriedade Calle. A resposta só veio dois dias depois de sua morte. (Contatado por Forbidden Stories, Custodio Liborio Acosta Urzola, o prefeito de San Jose de Uré onde se encontra a propriedade da Calle disse que o município “não tinha conhecimento da extração de areia no rio Uré” e que vinha monitorando “possíveis pontos de extração de material, sem resultados”).

Espedito Duque, de mentor a inimigo 

Retrato de Espedito Duque, prefeito de Puerto Libertador, 2016-2018 (fonte: Facebook de Espedito Duque).

A família Calle não foi a única que atraiu a atenção do jornalística na região. Há anos, ele também investigava outro “clã”, “família” igualmente poderosa e perigosa. Este “clã”, no centro de muitas das investigações de Moreno e outros jornalistas locais durante anos, estava intimamente ligado ao jornalista. Ironicamente, graças a esta família, Moreno entrou no jornalismo. 

Nascido e criado em Puerto Libertador, um pequeno e remoto vilarejo no sul de Córdoba, região disputada por guerrilheiros e paramilitares, Moreno não estava destinado a se tornar jornalista. Quando adolescente, começou a trabalhar em um garimpo de ouro em um vilarejo vizinho. Depois, partiu para colher folhas de coca e entrou no Exército para cumprir seu serviço militar. Quando voltou para casa, com apenas 20 anos de idade, ele foi reapresentado ao homem que mudou a trajetória de sua vida: Espedito Duque.

Duque era um político bonachão, hábil em agradar multidões e inspirar a confiança dos outros. Na época, o objetivo de Duque era claro: livrar Puerto Libertador da família Carrascal, que havia controlado a região sozinha por quase uma década. Quando Moreno encontrou-se pela primeira vez com Duque, o político contava uma história fiada de colhedor de limão fim de tornar-se candidato político. Apresentava-se como um homem do povo, falava de justiça social e em tratar de forma decente os pobres e despossuídos e impressionou a Rafael Moreno. Com o tempo, ele se tornou um pouco um segundo filho para Duque, e trouxe sua família para trabalhar na campanha de Duque, também. Em uma entrevista com Forbidden Stories, Duque reiterou isto, dizendo: “Ele era como um filho para mim”. “Nós fizemos tudo por ele”, lembrou Maira, a irmã mais nova de Moreno. “Rafael era seu braço direito, era praticamente seu chefe de comunicação”. 

Após duas campanhas fracassadas e 12 anos de luta, Duque foi eleito em 2015, e Moreno foi  trabalhar para o novo prefeito. A primeira tarefa de Moreno era importante: instalar geradores em áreas que não tinham eletricidade. As pessoas que o conheciam dizem que ele cumpriu esta tarefa com coragem. Como recompensa, a administração da prefeitura ajudou a financiar um semestre de estudo na área de Direito. Pessoas próximas a Moreno dizem, porém, que naquela época ele já estava ficando desiludido com Duque. O relacionamento estava se desgastando pelas bordas. 

Moreno sentiu que as mudanças que Duque havia prometido eram lentas para chegar, se é que chegavam. Para piorar ainda mais a situação, o novo prefeito nomeava os mesmos funcionários corruptos que haviam servido em administrações passadas, disse ele. Em 2017, Moreno decidiu deixar definitivamente o gabinete do prefeito.

Vários anos depois, refletindo sobre esta experiência em uma postagem no Facebook, Moreno escreveu: “No momento da vitória, lembro-me de beijar a mãe de Espedito Duque e agradecer-lhe por ter trazido ao mundo nossa fonte de esperança. Mas eu estava errado, e me dói até pensar sobre isso. Ele nos fez acreditar que iria mudar as coisas, mas se cercou das mesmas pessoas que há tanto tempo criticávamos e que diminuíram nossa esperança de sermos eleitos”. 

Em dezembro de 2018, Moreno – o carvoeiro que havia se tornado ativista político – fez outra mudança de carreira. Ele se tornou jornalista. Naquele ano, lançou Vocês de Córdoba para investigar os excessos da administração para a qual ele havia trabalhado. Ele começou analisando os contratos públicos assinados por seu antigo mentor. 

Para Duque, que aceitou responder ao consórcio de jornalismo, isto pareceu ser um ato de vingança pessoal. “Depois que deixei de apoiá-lo, ele declarou que iria fazer todo o possível para destruir o projeto político”, disse Duque, acrescentando: “Ele estava cheio de ódio, raiva e ressentimento”.

Mais tarde, Moreno se voltou para aqueles acordos feitos pelo sucessor de Duque, Eder John Soto – amplamente considerado um homem de palha representando os interesses do “clã” Duque. Soto, eleito em 2019, beneficiou-se de um considerável investimento maciço da família Duque, incluindo cerca de 15 mil dólares (ou R$ 74 milhões de reais) sem contribuições de campanha da irmã da Duque. Duque havia derrubado uma dinastia, mas havia criado outra. (“Somente o Sr. Eder Jon sabe sobre o financiamento de sua campanha”, disse Duque em resposta às perguntas do consórcio).

Nos bastidores, dizem os funcionários locais, o ex-prefeito estava, no entanto, mexendo seus pauzinhos. “Duque é quem decide o que é importante no município”, disse um funcionário local, solicitando o anonimato por medo de represálias. “Ele recebe os visitantes em sua casa a partir das 23 horas e muitas vezes até as 3 da manhã. Todos vão lá para pedir favores: contratos, nomeações, recomendações”.

Mesmo após a morte de Moreno, o sistema permanece em vigor.

O homem que fez tremer os mercados públicos

Prêmio recebido por Espedito Duque como “Prefeito Solidário e Inclusivo da Colômbia 2019 – Categoria: Melhor Programa de Apoio ao Idoso, com ênfase na inclusão sociocultural”, 16 de junho de 2019 (Fonte: Espedito Duque Facebook)

Desde o dia em que deixou a administração chefiada por Duque, Moreno tinha um objetivo em mente: descobrir evidências de corrupção sistêmica e em larga escala realizada por seu antigo mentor, sua “família”e seu “clã”. 

O método do jornalista era simples: navegar até o site oficial do governo que compila os contratos públicos, baixar os contratos, checar minuciosamente os orçamentos e as propostas de execução e depois visitar o local para ver se o trabalho estava sendo feito corretamente. 

O trabalho de Moreno foi facilitado pelo frouxo clima regulatório que se seguiu aos Acordos de Paz de 2016 – assinados entre o governo colombiano e os membros das FARC – que tornaram o dinheiro público facilmente acessível em áreas, como Puerto Libertador, particularmente afetadas pelo conflito armado de mais de 50 anos. 

Desde a assinatura dos acordos de paz entre o governo colombiano e as FARC em 2016, o dinheiro foi investido em cinco municípios da região: mais de 100 milhões de dólares foram investidos na região. Em teoria, estes recursos deveriam financiar 130 projetos de construção de estradas, programas educacionais, esquemas habitacionais e infraestrutura energética. No entanto, ativistas dizem que muitos projetos nunca foram concluídos. “Percebemos que muitas destas obras estavam inacabadas ou sequer começaram, então começamos a fazer uma lista e fomos verificar estes lugares”, disse Enyer Nieves Pinto, presidente da rede Veedurías do sul de Córdoba, um grupo de controle civil.

Por esta razão, Rafael Moreno começou investigando as administrações desses cinco municípios. Graças às leis de transparência e acesso à informação, o repórter conseguiu obter os contratos e desvendá-los graças ao conhecimento adquirido durante seus estudos de Direito.

Moreno publicou estas investigações em sua página do Facebook, que rapidamente se tornou uma espécie de referência na área. Uma de suas investigações mais conhecidas dizia respeito à renovação do estádio municipal em Puerto Libertador. Apesar de um contrato de mais de 1 milhão de dólares e várias prorrogações, o projeto acabou sendo abandonado. Moreno ironicamente batizou-o de “Estádio da Eternidade”.  

Nesta região pobre e particularmente violenta, assombrada por décadas de guerrilha, o volume de dinheiro desperdiçado no estádio gerou revolta em muita gente. A investigação de Moreno só provou o que os membros da comunidade já sabiam: os recursos eram desperdiçados. Também elevou o jornalista na opinião de outros, que viam a Moreno como um defensor da transparência. 

Mas este tipo de reportagem também levou o jornalista a sofrer ameaças de grupos armados locais. Estes grupos regularmente tomam uma parte do dinheiro investido em obras públicas, uma espécie de “imposto de manutenção da paz”, que Moreno chamava “la vacuna“, em espanhol, ou “a vacina”,  em português, e repetido por ele em conversas com os jornalistas da Forbidden Stories. Moreno denunciou “a vacuna” pelo que era – corrupção – o que, por sua vez, levou a um aumento desse tipo de ameaças a partir de 2019.

Naquele ano, Moreno foi designado como alvo por uma facção do crime organizado chamada Caparrapos. Dois anos depois, ele foi brevemente sequestrado e interrogado por membros do “Clã do Golfo”, um grupo armado que compartilha território com os Caparrapos.

Moreno compartilhou regularmente estas ameaças com a Unidade Nacional de Proteção (UNP) da Colômbia, uma agência encarregada de implementar medidas de proteção para jornalistas no país. Mas a proteção que ele recebeu era irregular, e no dia de seu assassinato, inexistente.

Apesar do perigo, Moreno continuou a publicar suas reportagens críticas, não apenas através de solicitações públicas, mas também através de leis de acesso à informação e reclamações legais. No sistema jurídico colombiano, estes tipos de solicitações podem levar a investigações legais e, que por sua vez, podem resultar em condenações penais se as autoridades determinarem que ocorreu uma fraude. Para Walter Alvarez, um jornalista próximo a Moreno, tais solicitações de acesso à informação expuseram mais a seu amigo e colega. “Uma investigação jornalística pode desaparecer com o tempo”, disse ele. “Mas quando eles podem colocá-lo na prisão, é uma história totalmente diferente”. Eu nunca me atrevi a entrar. Nem todos estamos prontos para correr esse tipo de risco”. 

Nos bolsos do “clã” 

  • Ameaça recebida por Rafael Moreno em 21 de julho de 2022 no porta-malas de sua motocicleta, nota anônima com bala (fonte: denúncia de Rafael Moreno)
  • Julieth Arroyo Montiel esposa de Espedito Duque e seu primo Martín Montiel Mendoza por ocasião do aniversário deste último. (Fonte: Facebook de Martin Montiel Mendoza)
  • Eder John Soto à esquerda com Espedito Duque, imagem publicada por Eder John Soto para o aniversário de Espedito Duque (Fonte: Facebook de Eder John Soto)
  • Cartaz da campanha de Espedito Duque para prefeito de Puerto Libertador para as eleições regionais de 2015. (Fonte: Espedito Duque Facebook)
  • Reprodução de fotografia do perfil de Miguel Rivera no Facebook com o prefeito Espedito Duque à direita (Fonte: Facebook de Miguel Rivera)
  • Espedito Duque com Martín Montiel Mendoza por ocasião do aniversário deste último em junho de 2020. (Facebook de Martín Montiel Mendoza)

Forbidden Stories e nossos parceiros puderam consultar a caixa de entrada de e-mail de Moreno. Entre os milhares de e-mails e anexos, descobrimos um documento chave cuja existência não foi revelada anteriormente: uma queixa administrativa formal que Moreno apresentou contra Espedito Duque e seus companheiros por “atos de corrupção, desvio de fundos públicos, tráfico de influência e clientelismo” em 5 de janeiro de 2021 – cerca de um ano e meio antes da morte do jornalista.  

De acordo com a Constituição colombiana, qualquer cidadão pode apresentar este tipo de reclamação. Mas a de Moreno era particularmente minuciosa. O documento de 21 páginas descreve os métodos do prefeito em grande detalhe e alega “vários tipos de crimes contra a administração pública”. Moreno especifica o mecanismo operacional que Duque criou: criar “um certo número de estruturas” para seus familiares e amigos próximos e depois contratar com eles a fim de “facilitar a apropriação de recursos públicos”.

“Nunca antes foram constituídas tantas organizações sem fins lucrativos em Puerto Libertador com o único objetivo de ganhar contratos municipais”, escreveu Moreno. 

Entre as dezenas de ONGs mencionadas por Moreno na reclamação, constavam duas ligadas à Duque. Uma delas, Serviexpress ATP SAS, foi fundada por uma pessoa próxima à esposa da Duque, Julieth Arroyo Montiel. Outra, Renacer IPS SAS, representada pelo filho de um funcionário do governo que trabalhava para Duque, obteve dois contratos no valor de mais de U$ 75.000 dólares (R$ 370 mil reais). 

Moreno também foi atrás dos bens pessoais de Duque, alegando que “seu salário como prefeito não lhe permitiria adquirir todos esses bens”, o que incluiu vários locais comerciais, uma casa no valor de cerca de US$ 70 mil dólares (R$ 345.800 reais) e uma fazenda. Ele também listou projetos de obras públicas que ele disse nunca terem sido sequer iniciados. 

No final do documento, Moreno assinou seu nome, cuja autenticidade foi verificada por Forbidden Stories, ao comparar com outros pedidos de acesso à informação compartilhados publicamente pelo jornalista. Até hoje, tal documento ainda não recebeu resposta. 

Como parte do Projeto Rafael, coordenado por Forbidden Stories, o meio de comunicação  colombiano de investigação Cuestión Pública, especializado em corrupção e abuso de poder público, e o CLIP, um consórcio de veículos de notícias da América Latina, pegou a investigação no ponto onde Moreno havia parado. Sua análise, divulgada hoje como parte do Projeto Rafael, mostra que entre 2016 e 2022, as administrações Duque e Soto assinaram 99 contratos com 13 empresários próximos ao “clã” ou à “familia”Duque, contratos no valor que, somados, chegam a US$ 3 milhões de dólares (ou R$ 14,8 milhões de reais). 

Desses contratos, apenas cinco empresas, algumas delas sem qualquer experiência prévia com contratação pública, ganharam 96% do valor total. A maioria dessas empresas pertence a Martin Montiel Mendoza, próximo de Espedito Duque. Entre 2016 e 2022, o gabinete do prefeito assinou 56 contratos, mais da metade deles por acordo mútuo – o que significa que nunca foi aberta uma oferta pública – com três empresas de propriedade de Mendoza, num total de pouco menos de US$ 1 milhão de dólares (ou R$ 4,9 milhões de reais).

A primeira dessas empresas, a Corporación Visión Juvenil, foi formada como empresa sem fins lucrativos em 2014, apenas um ano e meio após a eleição da Duque como prefeito. Até a publicação dessa reportagem, a empresa forneceu soluções logísticas para eventos esportivos e culturais, assinando 36 contratos no valor de cerca de U$ 600.000 dólares (ou R$ 2,9 milhões de reais). Uma segunda empresa, Innova Construcciones e Inmobiliaria, fundada em 2017, assinou quatro contratos consecutivos com o prefeito para a gestão de parques, bibliotecas e a prefeitura municipal. O primeiro destes contratos foi assinado apenas 10 meses após a empresa ter sido registrada na Câmara de Comércio. A terceira empresa, Serviexpress Colômbia, também foi criada em 2017, e fornece serviços que incluem transporte, publicidade, recursos humanos e assistência a idosos e deficientes. Entre 2019 e 2022, a Serviexpress firmou nada menos que 16 contratos no valor total de U$ 200 mil dólares (R$ 988 mil), principalmente para o fornecimento de alimentos e produtos de limpeza para o gabinete do prefeito. 

(Montiel Mendoza não respondeu a vários pedidos de comentários enviados pelo consórcio).

Cuestión Publica e CLIP também investigaram a empresa que trata de águas residuais em Puerto Libertador, Agualcas. Durante uma sessão plenária municipal, Moreno havia identificado uma discrepância entre o número de ruas com rede de esgotos em Puerto Libertador e o número mostrado nos mapas oficiais divulgados pelo gabinete do prefeito. Agualcas, que supostamente deveria fornecer a infra-estrutura, recebeu vários contratos públicos para a instalação de rede de esgotos. 

A investigação do consórcio revelou que esta empresa também estava sob a influência do “clã” Duque. Nos anos após sua eleição como prefeito, esta empresa pertenceu a três pessoas próximas à Duque, todas elas trabalharam em suas campanhas eleitorais. Durante este período, Agualcas beneficiou-se de 13 contratos públicos no valor de cerca de U$ 800 mil dólares (R$ 3,9 milhões). (A Agualcas não respondeu aos vários pedidos de comentários feitos pela Forbidden Stories).

IMAGENS QUE MOSTRAM CONTRATOS – Estos contratos distribuidos por el clan Duque se pueden consultar aquí: [Gráfico Cuestión Pública y CLIP]

Ao pesquisar contratos municipais, Cuestión Pública e CLIP também conseguiram identificar uma  pessoa, entre o séquito de Duque, que supostamente seria associada do infame Clã do Golfo – um dos grupos que se acredita ter estado envolvido no seqüestro de Moreno. Esta pessoa é Julio César Ramos Ruiz, médico do hospital Puerto Libertador e supostamente conhecido pelo apelido de “o médico”, foi preso em outubro de 2019 pela polícia, e acusado de conspiração agravada. Segundo relatos da imprensa, Ramos cuidou dos membros feridos do Clã do Golfo, registrando-os sob nomes falsos para que não pudessem ser identificados pelas autoridades. 

“Essa é a teoria dos acusadores. A teoria da defesa é que somos confrontados com um caso de falso positivo judicial”, disse Julio César Sánchez Moreno, advogado de Ramos. Em 15 de setembro de 2020, Ramos foi libertado sob fiança, em uma decisão altamente controversa. Seu julgamento está agendado para 27 de abril de 2023.

Durante o tempo em que Ramos esteve ativo no hospital de Puerto Libertador, o gerente do centro de saúde não era outro senão Eder John Soto, sucessor de Espedito Duque como prefeito de Puerto Libertador. Várias fotografias feitas entre 2016 e 2018 mostram os dois homens e sugerem que eles se conheciam e se viam regularmente. Ramos, Duque e Soto são todos amigos no Facebook, o que confirma esta associação. Após sua prisão, o médico também esteve em contato com Juan David Duque, filho de Duque. Forbidden Stories também obteve um documento mostrando que Eder John Soto planeja testemunhar a favor de Ramos, seu ex-empregado e amigo, durante o próximo julgamento, por seu advogado. 

Capturas de tela do Facebook mostrando as ligações entre Ramos e o clã Duque (Fonte: Cuestión Pública)

(Eder John Soto não respondeu a vários e-mails solicitando seus comentários. Duque, por sua vez, negou ter “apoiado a criação de entidades para que elas pudessem se beneficiar dos contratos com o município”. “Tudo é falso, é absolutamente falso”, disse ele, acrescentando que “ele alcançou grandes resultados” que lhe valeram “o reconhecimento como o melhor prefeito do departamento”).

As ameaças chegam mais perto de casa  

Rafael Moreno mostra a bala que encontrou no porta-malas de sua motocicleta ao lado de um bilhete ameaçador anônimo, em 21 de julho de 2022. (crédito: Captura de tela do Facebook “Vocês de Córdoba”)

Moreno era conhecido por sua impaciência. Assim que ele descobriu elementos suspeitos, ele os publicou imediatamente em sua página do Facebook. Mas na época em que foi assassinado, estes pedaços e peças desse quebra-cabeça estavam se juntando para contar uma história de corrupção, favoritismo e compadrio em Córdoba. As ameaças contra Moreno, por sua vez, também subiram mais um degrau. 

Em 26 de setembro de 2022, Miguel David Arrieta River, membro do séquito próximo de Duque e apelidado de “coordenador dos trabalhadores da paz” pelo município, atacou Moreno e seu colega Organis Cuadrado no Facebook, um dia depois de Moreno ter publicado um contrato de transporte escolar que ele alegava estar super faturado. O post, que desde então foi apagado, incluía uma fotografia dos dois jornalistas, junto com o título: “Este par de artistas que chantageiam nas mídias sociais não são jornalistas nem advogados. Eles vivem nas mídias sociais. Como meu avô teria dito, eles são ‘vagabundos armados’. Eles são responsáveis pelo fato de que 1.200 estudantes se encontram sem transporte escolar”. 

Três dias depois, Moreno apresentou um caso por calúnia e difamação contra Arrieta Rivera, cujas conexões pessoais o assustaram. “Sua mãe e seu padrasto estavam ambos na prisão, acusados de conspiração para cometer assassinato e tráfico de drogas, o que coloca em risco minha segurança e a de minha família”, diz a denúncia, que Forbidden Stories está publicando pela primeira vez. Foi a última queixa que Moreno apresentou. 

(Contatado por Forbidden Stories, Rivera disse que ele estava muito doente para responder às nossas perguntas).

Caso de estupro de menor e suspeitas de conluio com um promotor 

José Fernando Bula Moreno, à esquerda, sobrinho do jornalista Rafael Moreno, participa do velório em memória ao tio em Puerto Libertador, Córdoba, Colômbia, 26 de outubro de 2022. (Crédito: Diego Cuevas para El País)

Os ataques cada vez mais virulentos não acalmaram Moreno. Na verdade, o jornalista atacou direto na jugular, desenterrando um caso antigo que, segundo seu sobrinho José Fernando Bula Moreno, era “uma bomba que estava prestes a explodir para os Duque”.

Em 27 de setembro de 2022, Moreno postou uma mensagem nas mídias sociais que certamente iria assustar o “clã” Duque. Tratava-se de um caso de estupro contra uma menor de idade que implicava um dos filhos de Espedito Duque. Carlos Escobar Zapa era um dos promotores responsáveis pelo caso. Moreno começou a sondar se teria havido um abafamento do caso. 

Moreno sabia que o caso era altamente sensível, mas não se intimidou em escrever sobre ele. Especificamente, Moreno começou a investigar um contrato de aluguel de um apartamento entre Duque e a esposa de Carlos Escobar Zapa, um dos promotores responsáveis pelo caso. Os advogados colombianos já haviam começado a investigar este contrato, mas Moreno queria provar a todo custo que o contrato era a razão pela qual a investigação teria sido encerrada por “falta de provas” em abril de 2017. Tal contrato teria sido assinado apenas dois meses antes do caso ser arquivado.

Contatado por Forbidden Stories, Carlos Escobar Zapa indicou que ele está separado de sua esposa desde 2015. “Quando nos separamos em maus termos, a única coisa que eu lhe disse foi que você fique com sua casa”, disse ele. “Depois descobri que ela tinha feito um contrato com a prefeitura. Eu nunca soube disso, já havia assinado uma procuração para que ela vendesse a casa. Ela alugou-a sem o meu conhecimento, não sei como ela o fez”. (…) Eu me defendi contra isso. Eles abriram uma investigação disciplinar, eu saí limpo, não tive nada a ver com isso”, disse ele. Uma investigação judicial ainda segue aberta.

De acordo com o sobrinho do jornalista, Duque “tinha um pé na prisão com este caso”. Moreno, ele continuou, “ia fazer todo o possível para garantir que as acusações não fossem retiradas”. O sobrinho explicou que uma semana antes de Moreno ser morto, ele havia avisado os juízes que “se vocês pegarem dinheiro, eu os denunciarei”. 

Em 12 de outubro, cinco dias antes de ser assassinado, Moreno havia confiado a um amigo íntimo enquanto estavam em um carro: “se tudo correr bem, teremos um mandado de prisão contra Espedito Duque”. Seu amigo o advertiu que continuar a publicar sobre o caso era perigoso.

Forbidden Stories obtiveram um documento daquele mesmo dia. Este documento confirma que, nos dias que antecederam seu assassinato, Moreno estava reunindo elementos adicionais relacionados a este caso, reiterando um pedido de acesso à informação ao qual não havia obtido resposta que havia sido enviado 20 dias antes. Este pedido anterior solicitava vários documentos sensíveis, incluindo provas de pagamento de aluguel ao gabinete do prefeito. Espedito Duque disse ao consórcio que não conhecia o proprietário do prédio no momento em que o contrato foi assinado.

Em uma entrevista, Carlos Escobar Zapa, o promotor, contou à Forbidden Stories que ele está separado de sua esposa desde 2015 e que “nunca soube” do contrato com o prefeito. “Ela o alugou sem meu conhecimento”, disse ele. “Eu não sei como ela o fez”. 

“Eles abriram uma investigação disciplinar e eu fui ilibado”, acrescentou ele. “Eu não tive nada a ver com isso”. Uma investigação judicial ainda está em andamento. 

Com relação às alegações de agressão sexual, ele nega ter alguma vez feito um acordo com Duque.

Olhando para o caso, Forbidden Stories conseguiu obter testemunhos adicionais. De acordo com uma fonte bem colocada do governo, pelo menos 10 jovens mulheres acusaram o filho do Duque de estupro ou agressão sexual, mas apenas duas apresentaram queixa formal contra ele. “Pelo que vi aqui, os casos foram suspeitosamente encerrados, não creio que haja uma cidade mais corrupta no mundo do que aquela em que vivemos”, disse a fonte. “Aqui, recebemos ameaças de indivíduos próximos à Duque e ao promotor Zapa”.

Perguntado sobre estas alegações, Zapa disse que não estava ciente das ameaças. “Minha família é formada por pessoas honestas”, disse ele. “Não tenho ligações com nenhuma organização [criminosa] desse tipo, assim como nenhum membro da minha família”..

Só em 2022, a comissão de disciplina judicial de Córdoba abriu três processos disciplinares contra o ex-procurador. Nos meses decorridos desde o assassinato de Moreno, nem um único jornalista atreveu-se a publicar qualquer informação ligando Zapa à família Duque. 

Os jornalistas locais dizem que desde a morte de Moreno, as publicações jornalísticas têm se tornado menos incisivas. Em 2 de novembro, Pico, primo de Moreno e colega jornalista, anunciou que ele estava fechando seu veículo de comunicação por causa das ameaças que recebia. Mais tarde, ele o reabriu, porém “sem prosseguir com qualquer investigação”. Walter Alvarez, outro jornalista, decidiu concentrar-se na cobertura esportiva e cultural. Ele tem quatro filhos e não quer “terminar como Rafael”. 

Um jornalista, no entanto, recusou-se a obedecer a lei do silêncio. Andrés Chica, amigo de Rafael Moreno, escreveu na WhatsApp e no Facebook que a prefeitura de Puerto Libertador supostamente pagou para que a investigação sobre a morte de Moreno não apontasse em sua direção. No dia seguinte, Chica acordou com mensagens de texto de Duque questionando sua denúncia. “Pesei cada palavra de minha publicação”, escreveu Chica ao ex-prefeito. A resposta de Duque: “Você sabe o que está fazendo. E você sabe como são as coisas aqui em Puerto”. 

O tom ameaçador das respostas empurrou o jornalista, cuja publicação viralizou, a abandonar a província de Córdoba. Chica não pensou duas vezes. Ele deixou a região e está atualmente refugiado em outro lugar.

Mais de seis meses após a morte de Moreno, ninguém foi condenado ou preso responsável por seu assassinato. A fim de evitar ingerências e pressões locais, o caso foi transferido para os investigadores em Medellín. 

Por sua vez, Duque está supostamente pensando em concorrer às eleições em Puerto Libertador em outubro. Ele não respondeu a perguntas sobre sua potencial candidatura. Gabriel Calle Aguas, filho do patriarca da família ou clã “Calle Moreno” continua sendo candidato ao cargo de governador regional nessas mesmas eleições. Porém, desta vez, os dois estão concorrendo sem o olhar crítico de Rafael Moreno para supervisionar suas campanhas.

  • Amigos e familiares durante o velório em memória de Rafael Moreno em Puerto Libertador, Córdoba (Colômbia), 26 de outubro de 2022. (Crédito: Diego Cuevas para El País)
  • Enaida Garavito, mãe de Rafael, assiste ao culto tradicional de despedida de Rafael em Puerto Libertador, Córdoba (Colômbia), 26 de outubro de 2022. (Crédito: Diego Cuevas para El País)
  • Amigos e familiares durante o velório em memória de Rafael Moreno em Puerto Libertador, Córdoba (Colômbia), 26 de outubro de 2022. (Crédito: Diego Cuevas para El País)
  • Amigos e familiares durante o velório em memória de Rafael Moreno em Puerto Libertador, Córdoba (Colômbia), 26 de outubro de 2022. (Crédito: Diego Cuevas para El País)
  • Amigos e familiares durante o velório em memória de Rafael Moreno em Puerto Libertador, Córdoba (Colômbia), 26 de outubro de 2022. (Crédito: Diego Cuevas para El País)
  • Habitantes de “Bijao” na velação em memória de Rafael Moreno em Puerto Libertador, Córdoba (Colômbia), 26 de outubro de 2022. (Crédito: Diego Cuevas para El País)

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“O Projeto Rafael” é uma investigação colaborativa coordenada por Forbidden Stories que envolve 30 jornalistas e publicado por 32 organizações de mídia, entre elas a agência Amazônia Real.

Forbidden Stories é um consórcio internacional de jornalistas de investigação que desenvolvem o trabalho de jornalistas assassinados/as ou sob ameaça de assassinato.


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