A mineradora Vale deu um rico presente de Páscoa aos jornais de Belém: um caderno de 32 páginas, com muita imagem e pouco texto. O retorno efetivo dessa mensagem publicitária é, no mínimo, duvidoso. O principal alvo visado pelo anunciante, porém, não é o leitor, mas o veículo de comunicação. Tratado a pão-de-ló, ele se torna mais receptivo e mais influenciável. O pagador ganha um parceiro editorial.
Os dois jornais deviam ter retribuído, colocando o leitor na transação com uma introdução ao vistoso caderno. Apontando as principais informações e mostrando o seu significado. É o que tentei fazer, em nome do jornalismo, seguindo a ordem das matérias, ao longo da semana que se encerra.
Nenhum retorno da Vale. O silêncio absoluto da maior mineradora do Brasil, das maiores do mundo, confirma o que disse: ela quer apenas fazer amigos e influenciar pessoas. Nada de transparência para valer (com perdão pelo trocadilho). Por isso, volto ao assunto, expandindo-o para a agência Amazônia Real, da qual sou colaborador.
O gusa verde
A Vale informa sobre o andamento do seu projeto para produzir o chamado gusa verde. O concentrado de minério de ferro é verde porque vai substituir o carvão metalúrgico por biomassa (e gás de síntese e hidrogênio), “passo importante” para descarbonizar a atividade siderúrgica, reduzindo assim a abundante emissão de CO2 da siderurgia convencional.
A fábrica, sob a responsabilidade da Tecnored, localizada em Marabá, produzirá inicialmente 250 mil toneladas por ano. Será “a primeira ´planta comercial da tecnologia, inovadora no mercado”. Os testes para definir a tecnologia e a viabilidade econômica do empreendimento foram realizados em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo (terra do ex-governador e atual vice-presidente Geraldo Alckmin. Apesar de experimental, é uma planta de tamanho expressivo, de 75 mil toneladas.
As questões que encaminho à Vale são:
*De onde virá a biomassa para a produção do ferro-gusa? Quem a fornecerá?
*Qual a composição dessa biomassa? É toda ela de carvão vegetal?
*Qual o consumo de biomassa pela fábrica?
*De quanto deverá ser a economia em emissão de CO2?
Ferrovia
Desde 2019 a Estrada de Ferro Carajás está em primeiro lugar entre as ferrovias brasileiras com as melhores avaliações ambientais. Em um total de pontos que pode chegar no máximo a 1, ela obteve 0,86. Foi a mesma nota da Estrada de Ferro Vitória a Minas, que leva a produção de minério de Minas Gerais ao porto de Tubarão, em Vitória, no Espírito Santo.
Pergunto: quais são os itens da avaliação e qual a nota da EFC em cada item? Quais as notas anteriores? Quais os principais índices de desempenho da ferrovia em 2022?
Protetora das florestas?
No suplemento, a Vale informa ter assumido, em 2019, o “compromisso voluntário” de proteger e recuperar 500 mil hectares de floresta no Brasil até 2030. Desde então, recuperou 7 mil hectares.
Considerando-se três anos completos, dá a média de 2,6 mil hectares por ano. No prazo de 18 anos que falta para atingir a meta, vai precisar recuperar e proteger 30 mil hectares a cada ano.
Pergunta-se: Onde se localizam esses 500 mil hectares? Qual o tamanho da área recuperada e da protegida?
A empresa diz que, além desses 500 mil hectares, já ajuda a proteger um milhão de hectares em todo mundo, “por meio de ações de compensação ou voluntárias, sendo 800 mil hectares na Amazônia, onde atua há 40 anos.
Deduz-se que esses 800 mil hectares se localizam no “mosaico de Carajás”, formado por seis unidades de conservação, criadas pelo governo federal e administradas, em tese, pelo ICMBio, mas sob a atuação direta da Vale. E daí que ela extrai 60% da sua produção de minério de ferro, “mostrando que é possível fazer uma mineração sustentável”.
Ou seja: a lavra do minério ocupa apenas 16 mil hectares nesse conjunto de vegetação, o maior e mais rico, em área contínua, de toda região, assolada por garimpos, fazendas e agricultura nômade.
Pergunta-se: qual a distribuição das áreas mineradas nessas seis unidades de conservação e a proporção de vegetação em cada uma delas?
Pergunta-se ainda: onde estão os 200 mil hectares que a Vale ajuda a proteger no mundo?
Além disso, a Vale se juntou a outras cinco empresas para criar a Biomas. Dela participam três bancos (Itaú Unibanco, Santander e o sugestivamente fonético Robobank), um produtor de carne (Marfrig) e uma indústria de reflorestamento e celulose (Suzano).
Elas planejam restaurar, em 20 anos, 2 milhões de hectares de “árvores nativas” (quais e onde?). Outros 2 milhões de hectares serão conservados e reservados (onde ficam e quais unidades de conservação integram?). A atuação será em diferentes biomas brasileiros, como Amazônia, Mata Atlântica e Cerrado (como será a distribuição entre eles?).
O investimento previsto é de 120 milhões de reais, R$ 20 milhões por cada sócio, em 20 anos (um milhão/ano individualmente, 6 milhões no conjunto).
Não é pouco?
Mais cobre em Carajás
A Vale comunica que já iniciou a operação da terceira usina de cobre em Carajás. Salobo III acrescentará 12 milhões de toneladas aos 24 milhões já em produção, elevando a capacidade total para 36 milhões de toneladas do minério. Essa capacidade deverá ser atingida no terceiro trimestre do próximo ano, quando Salobo III estará funcionando a plena carga. O investimento é de 4,9 bilhões de reais.
Mas a companhia não informa a produção de concentrado e se prevê o beneficiamento como catodo ou manufaturas de cobre.
A mineradora informa ter encerrado 2022 com uma força de trabalho de 47 mil pessoas (é uma população maior do que a de Baião). Mas só 17 mil são funcionários da Vale. Trinta mil são contratados pelas terceirizadas, que não adotam o mesmo padrão de trabalho da contratante.
O Estado da Vale
Dos 366 milhões de reais de ICMS arrecadados no mês passado pelo Estado e distribuídos entre os 144 municípios paraenses, um terço (ou R$ 120 milhões) foram parar nos dois municípios do sul do Pará totalmente dependentes da mineradora Vale: R$ 67 milhões para Parauapebas e R$ 53 milhões para Canaã dos Carajás, sem incluir outros municípios onde a Vale também é o principal agente econômico, como em Marabá (com a quarta maior receita, de R$ 20 milhões) e Barcarena (no 5º lugar, com R$ 11,5 milhões). A parte que cabe a Belém é de apenas R$ 31 milhões, menos da metade da cota de Parauapebas e abaixo da verba de Canaã.
Santarém, que já foi o segundo mais importante município do Pará, é agora o 10º com cota-parte de ICMS (R$ 6,4 milhões), quase empatado com Castanhal, que já foi o mais importante da antiga “zona da estrada” (com R$ 6,2 milhões). Ananindeua, o 2º município em população, na área metropolitana da capital, é o 7º do ranking (R$ 5,4 milhões).
Vitória do Xingu é o 8º, graças à hidrelétrica de Belo Monte, passando à frente do vizinho município de Altamira (R$ 4,9 milhões), que já foi a sede do vale do Xingu. Itaituba (com R$ 7 milhões), que era secundária no Tapajós, deixou Santarém para trás.
A modificação do perfil econômico do imenso e cada vez mais desigual Estado do Pará vem, como uma pororoca colonial, de fora para dentro e de cima para baixo.
A imagem que abre este artigo mostra funcionários da Vale fazendo a semeadura com exemplares nativos na beira da rodovia em Canaã dos Carajás, no Pará (Foto: Paulo Moreira/MMAS/ Agência Vale/2013).
Além de colaborar com a agência Amazônia Real, Lúcio Flávio Pinto mantém quatro blogs, que podem ser consultados gratuitamente nos seguintes endereços:
* lucioflaviopinto.wordpress.com – acompanhamento sintonizado no dia a dia.
* valeqvale.wordpress.com – inteiramente dedicado à maior mineradora do país, dona de Carajás, a maior província mineral do mundo.
* amazoniahj.wordpress.com – uma enciclopédia da Amazônia contemporânea, já com centenas de verbetes, num banco de dados único, sem igual.
* cabanagem180.wordpress.com – documentos e análises sobre a maior rebelião popular da história do Brasil.
O post A grande mineradora não informa: manipula apareceu primeiro em Amazônia Real.
👁 0 visualizacoes
- Musical infantil e recreação estão entre atrações gratuitas de outubro (149 visualizacoes)
- Candidato ao governo do RJ recorre após ter candidatura indeferida (40 visualizacoes)
- Fogo consome prédio de pesquisa da UFPE sem deixar feridos (31 visualizacoes)
- Professores e estudantes da UEA tomam ruas de Manaus em ato contra extrema direita e pela reeleição de Lula (28 visualizacoes)
- Em vídeo que viralizou, ex-superintendente da Suframa alerta para riscos de governo Flávio Bolsonaro à indústria de Manaus (26 visualizacoes)








