Leia a coluna Taquiprati deste domingo, 29 de janeiro, do jornal DIÁRIO DO AMAZONAS
-Alô meu povo da Mocidade Independente do Chile! Olha a cueca aí, gente!
Esse poderia ser o grito de mais de 15 mil chilenos que migraram para o Brasil entre 1974 e 1982 e aqui formaram conjuntos folclóricos de música e dança, entre elas diferentes modalidades da cueca, a mais popular de todas. As práticas culturais dos chilenos residentes no Rio e em São Paulo – eles somam mais de dez mil pessoas nas duas cidades – foram objeto da dissertação de mestrado defendida na UNIRIO, segunda-feira (24), por Maria de la Merced de Lemos Urtubia, filha do jornalista carioca da Tijuca, Caio Lemos, que viveu no Chile, e de Amarilis Urtubia, natural de Santiago.
– A cueca chilena e o samba brasileiro, quando se encontram, representam a festa e a confluência de culturas irmãs – escreve Merced, que pesquisou o hibridismo cultural resultado dessa convivência.
O exemplo mais acabado de tal diálogo se deu no carnaval de 2004, quando São Paulo completou 450 anos. A Escola de Samba Nenê da Vila Matilde convidou para o desfile no Anhembi o grupo Chile Lindo, que compôs a Ala das Etnias, usando trajes típicos com esporas pesadas, mantas de lã e chapéus de feltro feitos à mão por artesãs chilenas. Dias depois, no desfile das campeãs, uma chuva torrencial destroçou alegorias e adereços, mas mesmo debaixo d´água “a cueca caiu no samba” outra vez. Merced recupera também a participação, desde 1975, do artista plástico chileno Mory Balmaceda, carnavalesco da Escola de Samba Unidos do Peruche.
Dança da vida e da morte
Dança originária da América do Sul, a cueca está presente com outras denominações em vários países andinos: Argentina, Bolívia, Peru e Colômbia. Embora os conjuntos folclóricos do Rio e São Paulo apresentem outros bailes como trotes, cachimbos, carnavales, zamba resfalozas, huachitoritos, o brasileiro só pensa na cueca como a dança tradicional chilena, talvez pela graça que o nome inusitado provoca na língua portuguesa, ou em razão de a cueca ter sido declarada “dança nacional do Chile”, o que lhe conferiu o título de modelo do espírito da chilenidade.
Trata-se de um baile que representa o jogo da conquista protagonizado por uma dama e um cavalheiro, que agitam um lenço com a mão direita, enquanto se deslocam em avanços, recuos e floreios. A regra determina que devem ser dançadas numa sequência de três com canções distintas. Cada uma é marcada por passos diferentes e pela troca de lados entre o casal. A primeira é a aproximação, a paquera; a segunda é a conversa, a “cantada” e a terceira, o consentimento ou não do galanteio.
Em sua dissertação ilustrada com muitas fotos, Merced reproduz entrevistas e conversas com participantes de vários conjuntos, além de fazer uma revisão da bibliografia, como é o caso da obra “La Cueca, Danza de la vida y de la muerte” do casal de folcloristas Margot Loyola e Osvaldo Cádiz (2010), com a trajetória histórica do baile desde seu surgimento, em 1824, em Lima, com o nome de “Zamacueca” e sua chegada, no ano seguinte, aos salões aristocráticos de Santiago.
Um capítulo é dedicado às manifestações dos chilenos no Brasil, desde o surgimento do primeiro grupo em Salvador, Bahia, na década de 1970, com o nome de Conjunto Manantial, até a mudança da família de seus fundadores para o Rio, onde foram abrigados pelo Teatro Cacilda Becker, no Catete. Anos depois, é criado em São Paulo o Conjunto Folclórico Chile Lindo, que teve várias dissidências dando origem a novos grupos.
Cueca sola
Da mesma forma que os denominados “bolsonojentos” tentam privatizar o verde-amarelo em benefício próprio, a ditadura de Pinochet buscou se apropriar das mais de 80 variações da cueca, declarada em 1979 como “Dança Nacional do Chile”. De forma discreta, contida e objetiva, Merced aborda no terceiro capítulo o símbolo da festa que carrega com ela a “cicatriz ditatorial”, responsável por originar um novo tipo da cueca: a cueca sola, dançada também no Rio e em São Paulo por uma mulher sem o seu par.
– A mulher chilena, sempre reconhecida pela timidez, discrição, recato e comunicação através do olhar, inclusive nas danças folclóricas, já experimentou mudanças nos cenários chilenos. Esse papel fortificado se via, nos anos da ditadura, nas representações das mulheres viúvas ou mães de desaparecidos políticos, quando dançavam sozinhas (cueca sola) e, posteriormente, nas dançarinas do porto (cueca chora) – escreve Merced, que dá conta dessas mudanças.
Desde a redemocratização em 1990 – diz Merced – é comum ver as mulheres dançando com maior presença corporal, sapateado mais forte e variado, movimento de saia e lenços antes impensados, marcados pela imposição dos limites do purismo tradicional. No entanto, hoje a dama pode, inclusive, controlar o espaço do varão. A foto de uma cueca portenha, apresentada em setembro de 2012, teve um acompanhamento feito apenas com palmas e percussão sobre a mesma mesa em que se dança.
Merced concluiu a redação de sua dissertação no momento em que o Chile escolhia Gabriel Boric, um ex-líder estudantil, como o novo presidente da República para governar com um ministério formado em sua maioria por mulheres:
– “Respira-se novos ares que prometem, entre outros, respeito à cultura e às suas diversidades, mudanças amparadas por uma nova Carta Magna redigida por representantes de toda a sociedade civil”.
Fonte: Governo do Estado do Amazonas em 27/01/2022
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