Concedi esta entrevista ao portal do Instituto Humanitas Unisinos, da Universidade Unisinos, do Rio Grande do Sul, que republico neste espaço. A íntegra do conteúdo pode ser acessado aqui.
_______________
Em artigo publicado recentemente, o senhor aponta que vivemos o frustrante desfecho de “meio século de luta para montar um polo de alumínio na Amazônia”. Qual a importância desse polo e por que a luta pela instalação dele parece ter fracassado?
O mundo se voltou definitivamente para a Amazônia a partir do primeiro choque do petróleo, em 1973, em busca de produtos intensivos em alumínio. O país mais atingido pela súbita elevação do preço do petróleo foi o Japão. Inviabilizada a produção de alumínio em seu próprio território, o Japão planejou o maior processo de transferência industrial de todos os tempos. E implantou um polo de alumina e alumínio a 50quilômetros de Belém. A princípio, esperava extrair daí 30% das suas necessidades do metal. Depois reduziu para a metade, 15%. Anda assim, era a maior e melhor fábrica japonesa, embora a 20 mil quilômetros do Japão. Mais barata do que conseguiria no próprio Japão. Foi um projeto extremamente vantajoso para os japoneses. Mas os brasileiros não conseguiram implantar um polo metalúrgico para impedir a exportação de lingotes, o primeiro artefato da cadeia produtiva. São quase três décadas de alumínio primário, de baixo valor agregado, indo para o Japão. O golpe foi aprofundado quando a Vale, que era a maior acionista das fábricas de alumina e alumínio, vendeu sua participação para a multinacional norueguesa Norsk Hydro. A privatização do foi arrematada pelo ingresso, agora, da multinacional suíça Glencore. Depois da privatização, a desnacionalização. Esquema completamente colonial.
Como podemos compreender esse processo de desnacionalização do beneficiamento de bauxita?
Como uma iniciativa das maiores empresas do setor de completar a sua integralização, da bauxita aos produtos finais, protegendo-se assim da flutuação que sempre têm as commodities, principalmente o minério, com uma bolsa especializada em Londres, e de eventuais atropelos políticos. Além de criar um caixa único de todas as operações para melhor controle do processo produtivo e do fluxo de receita, despesa e investimento.
Que relações podemos estabelecer entre essa desnacionalização do beneficiamento de bauxita com os acordos comerciais com países da Ásia, especialmente China e Japão?
A visão política que se tem, principalmente a esquerda, da China, impede que ela apareça com a sua face econômica. A China age como uma grande empresa no comércio internacional, só que empresa estatal e de escala enorme. A China está em posição cada vez mais forte na infraestrutura e logística brasileira. Sua mais recente investida, de uma semana atrás, foi avançar no setor de energia elétrica. Indo além da posse de extensas linhas de transmissão de energia e de usinas hidrelétricas, ela conseguiu colocar um executivo da sua principal empresa no Brasil, a Sate Grade, na direção do Operador Nacional do Sistema, que é a agência de controle administrativo e técnico do setor. O objetivo é o mesmo do Japão de 50 anos atrás: garantir que as matérias primas cheguem mais rapidamente e mais barato aos portos de exportação – e à China, naturalmente.
Se hoje falamos em perdas da indústria nacional do alumínio, no passado já sofremos com a privatização de toda essa cadeia. O senhor poderia recuperar como foi todo esse processo e suas consequências para a região amazônica?
A Amazônia é a região mais internacionalizada do Brasil. E continua a ser, em escala cada vez maior. Por isso, a internacionalização deveria ser um tema vital para o debate. Sem xenofobia, estreiteza nacionalista, preconceito e – o principal – com conhecimento de causa. É preciso ir buscar a origem dos grandes empreendimentos implantados na região, reconstituindo a sua engenharia e a sua abordagem, Só assim conseguiremos nos tornar interlocutores competentes, em condições de traçar um rumo melhor do que o que até aqui tivemos. O momento-chave foi justamente a nova divisão internacional do petróleo, que se seguiu ao choque de preços de 1973. De lá para cá, só nocaute; perdemos os embates. Parecia que as circunstâncias da época nos iam favorecer. O cartel das sete irmãs ameaçado, inclusive, nos países nos quais têm suas sedes, E o maior comprador de alumínio do mundo tendo que fechar todas as suas fábricas de alumínio, inviabilizadas pelo custo da energia. Mas todos esses atores se reorganizaram e nós ficamos vendo a banda passar. Porque, sem conhecimento e informação, não vimos a banda (ou o trem, no caso dos minérios) passar.
O senhor vive há bastante tempo na região amazônica e escreve sobre essa realidade. Como analisa as transformações nessa região nos últimos anos?
Costumo imitar o coelho da piada, que diz para a parceira depois de um momento de amor: vai ser bom, não foi? É esta a sensação que tenho, aos 73 anos, 57 deles dedicados a tentar acompanhar, entender e projetar um futuro para a Amazônia. Fica parecendo que o próximo ano será pior do que o que passou, mesmo quando o ano vivido tenha sido ruim. Ou que a melhora de curto prazo não se manterá. Considerando como marco da história do nosso tempo na Amazônia 1973, quando ela foi engatada no comércio mundial como vendedora de commodities e fornecedora de moeda forte ao tesouro nacional, a linha constante nesses 50 anos, num sobe-e-desce de crescimento exponencial e depressão, é descendente. A Amazônia gera cada vez mais dólares para o país, mas o seu povo vive mal e ela perde sua grande riqueza, a rara combinação de água, floresta e sol. Perde a sua razão de ser Amazônia.
Em que medida o senhor percebe uma mudança de postura do Estado brasileiro, a partir do atual governo, com relação a Amazônia? O senhor está esperançoso? Por quê?
Os governos do PT, com Lula e Dilma, foram tão “desenvolvimentistas” e danosos para a Amazônia (que, na verdade, desconhecem, como quase todos os brasileiros) quanto os seus antecessores. Uns piores, outros nem tanto, raros com melhorias, excetuado Bolsonaro, que aperfeiçoou o caos e o dilúvio. Depois de Tucuruí, obra da ditadura militar, as demais grandes hidrelétricas (Belo Monte, Jirau, Santo Antônio) foram construídas por eles. A esquerda primitiva (ou peripatética) continua a acreditar que regiões e gentes primitivas só podem evoluir sob a modernização das relações de produção. Não joguem esse bagre no meu colo, reagiu Lula quando se agitava o debate sobre os efeitos danosos das hidrelétricas do rio Madeira. Modernização, para essa esquerda de catecismo ou de aprendizado oral, é estrada, hidrelétrica, fábrica, campos de plantio, produto de aceitação no mercado. Só se está conseguindo esse objetivo transformando, deformando e destruindo a Amazônia, apesar de toda a boa e emocionante retórica em contrário.
Como o senhor descreve a realidade do povo da região amazônica, tanto de quem vive junto da floresta como nas cidades?
O componente comum nas duas realidades é a violência. No interior, resultante da disputa pelo domínio da terra, pelas causas da migração compulsória, a ausência de um poder capaz de arbitrar com competência e justiça os conflitos e uma ação pública monopolizada pelos mais poderosos. As cidades, que se multiplicam e se adensam, têm as marcas de todos os centros urbanos no Brasil, de uma violência organizada para fazer prevalecer a criminalidade, agravada pelo privilégio concedido aos grandes empreendimentos econômicos, intensivos em capital e tecnologia e poupadores de mão de obra. Por isso, os serviços e a administração pú blica são os setores mais fortes, o que estimula a economia invisível.
Segundo dado recente do Banco Mundial, manter a floresta amazônica de pé rende US$ 317 bilhões por ano – o equivalente a R$ 1,5 trilhão –, sete vezes mais com o lucro da exploração econômica da região. Por que, apesar disso, preservar a floresta é algo ainda difícil para o Brasil? A incapacidade de compreender esses números pode ter que consequências para o Brasil em termos internacionais?
Tanto o Zé da Silva, que vem para a Amazônia em busca de uma atividade para a sua subsistência, tendo acesso apenas à terra como fator de produção, quanto a Sociedade Anônima, na escala respetiva de ação e intervenção, de um David (sem a parceria divina) e um Golias (com sua retaguarda armada), não conhecem a Amazônia, não têm tempo nem interesse para conhece-la. Penetram nas áreas com uma ferramenta: derrubar árvores para em seu lugar formar pastos, lavoura, mineração, estradas, hidrelétricas. Ou seja: eliminar o que para eles é entrave e problema: a floresta densa, compacta, multifacetada, hostil, temida. Refazer a pais agem para ser uma reprodução da paisagem de origem e se adequar ao conhecimento que o imigrante tem de si e de sua expectativa. As informações geradas pela ciência não chegam ou chegam pouco ao cenário da ação, à jungle.
Um fato inusitado recente revela como as atenções do mundo estão voltadas para a Amazônia: durante sua coroação, o Rei Charles III, do Reino Unido, teria dito ao presidente Lula para que cuide da Amazônia. Qual a sua leitura desse fato? O que esse mesmo fato revela sobre a emergência de o Brasil assumir o protagonismo global na preservação da Amazônia e no debate internacional acerca as questões ambientais?
Já vi algumas vezes essas irrupções de interesse. É claro que agora a escala é muito maior e as mudanças climáticas, dentre outros fatores ambientais agravados, dá um caráter mais sério e permanente a esse interesse e preocupação pela Amazônia. Mas não acredito que o Brasil assume a liderança desse processo. A Amazônia não recebe mais do que 2% da verba nacional de ciência e tecnologia. Com esse investimento, o Brasil continuará caudatário dos países de ponta na geração de conhecimento e informações. Meio século atrás participei de um seminário com compradores de madeira amazônica, principalmente ingleses. Eles só queriam saber por quanto a madeira chegava aos seus portos. O rei Charles esteve na Amazônia quando ainda era príncipe. Foi um fato interessante. Mas nada mudou na sua essência.
Pelo que tem visto e vivido na região, qual o futuro da Amazônia num médio e curto prazo?
Lord Keynes, o principal artífice da era econômica que está chegando ao fim, com a queda de braço entre os Estados Unidos e a China, disse que a longo prazo todos estaremos mortos. Uso a frase como inspiração para uma adaptação: se escaparmos aos paulistas (paranaenses, gaúchos, etc.), não escaparemos aos americanos (japoneses, chineses, etc.).
Preservar a floresta e assegurar a subsistência dos povos amazônicos passa essencialmente pelo quê?
Por um jeito político e administrativo de preservar a integridade do ciclo luz-água-floresta.
O retrato de Lúcio Flávio Pinto que abre este artigo é de autoria de Paulo Santos/Acervo H.
Além de colaborar com a agência Amazônia Real, Lúcio Flávio Pinto mantém quatro blogs, que podem ser consultados gratuitamente nos seguintes endereços:
* lucioflaviopinto.wordpress.com – acompanhamento sintonizado no dia a dia.
* valeqvale.wordpress.com – inteiramente dedicado à maior mineradora do país, dona de Carajás, a maior província mineral do mundo.
* amazoniahj.wordpress.com – uma enciclopédia da Amazônia contemporânea, já com centenas de verbetes, num banco de dados único, sem igual.
* cabanagem180.wordpress.com – documentos e análises sobre a maior rebelião popular da história do Brasil.
O post A Amazônia vai – e não volta apareceu primeiro em Amazônia Real.
👁 0 visualizacoes
- Musical infantil e recreação estão entre atrações gratuitas de outubro (150 visualizacoes)
- Fogo consome prédio de pesquisa da UFPE sem deixar feridos (31 visualizacoes)
- Professores e estudantes da UEA tomam ruas de Manaus em ato contra extrema direita e pela reeleição de Lula (30 visualizacoes)
- Em vídeo que viralizou, ex-superintendente da Suframa alerta para riscos de governo Flávio Bolsonaro à indústria de Manaus (30 visualizacoes)
- Decisão do Tribunal Eleitoral atinge Carlos Bolsonaro, Pablo Marçal e Rony Gabriel (28 visualizacoes)








