A Universidade Federal do Amazonas (Ufam) manifestou repúdio, nesta quarta-feira (06/05), aos atos de violência e às tentativas de silenciamento registrados nesta terça-feira (5), nas dependências do Instituto de Filosofia, Ciências Humanas e Sociais (IFCHS), em Manaus.

Em nota publicada nas redes sociais da universidade, a Reitoria afirmou que o ambiente universitário deve ser pautado pela pluralidade e pelo livre debate, e que não aceitará práticas que substituam o diálogo por intimidação ou censura.

“A Ufam reitera que o ambiente universitário é, por definição, um espaço de pluralidade e livre debate. Não toleraremos que a força ou o cerceamento substituam o diálogo ético e o confronto democrático de ideias”, diz trecho do posicionamento.

Confusão envolveu vereador e estudantes

O posicionamento ocorre após uma confusão envolvendo um grupo de jovens, identificados por estudantes como ligados à direita, que esteve no local acompanhado do vereador Coronel Rosses (PL). A visita terminou em discussão com professores e alunos dentro da universidade.

Vídeos que circulam nas redes sociais mostram o momento em que o parlamentar discute com um professor, e afirma ter o direito de circular livremente pelo campus.

“Eu tenho direito de entrar onde eu quiser como funcionário público e como fiscalizador. Sou funcionário público, sou vereador aqui em Manaus. Quem vai me tirar daqui, é o senhor?”, disse.

Ufam repudia atos de violência em campus de Manaus
Vídeo divulgado nas redes sociais mostra o vereador e professor discutindo | Foto: reprodução

Quem aparece no vídeo tentando intermediar a situação é o professor e sociólogo Luiz Antônio. Ele afirma que não teve a intenção de retirar o vereador da universidade, mas pediu respeito durante a abordagem. A discussão, no entanto, escalou, com o vereador apontando o dedo para o professor e pedindo que ele não se dirigisse a ele.

“Não aponta o dedo para mim. Me respeita. Você está pensando que vai fazer o quê? Você está intimidando os alunos”, reagiu o professor.

Em seguida, a discussão evoluiu para troca de ofensas, com ambos se chamando de “canalha”. Diante do confronto, estudantes reagiram com gritos de palavras de ordem, como “recua, recua”.

Reitoria promete apuração
Diante da repercussão, a universidade informou que já iniciou procedimentos para apurar o caso e identificar os responsáveis por eventuais irregularidades.

Segundo a nota, a apuração vai avaliar condutas que possam ter ferido a dignidade humana, a integridade institucional ou o patrimônio da universidade.

A instituição também destacou que poderá acionar autoridades competentes caso sejam identificadas violações mais graves.

Histórico
Esta é a segunda ocorrência envolvendo o grupo em menos de duas semanas. No dia 25 de abril, jovens estiveram no mesmo instituto e destruíram cartazes com mensagens políticas, alegando combate a “ideologias” dentro da universidade.

Repercussão política e estudantil
O caso gerou reações de diferentes setores. Na Câmara Municipal de Manaus (CMM), o vereador José Ricardo (PT) manifestou solidariedade aos estudantes na sessão desta quarta-feira.

“O que vimos foi lamentável. Pessoas que estavam exercendo seu direito legítimo de se manifestar em defesa das cotas raciais, pelo direito das pessoas trans e contra a escala 6×1, sendo atacados em um espaço que deveria ser acima de tudo, livre e democrático. Professores e alunos reagiram com coragem”, disse.

O vereador envolvido Coronel Rosses, por sua vez, defendeu a ação e afirmou que esteve no local acompanhando uma professora que, segundo ele, “teve coragem de pensar diferente” e teria sido ameaçada. Além disso, alegou que os cartazes continham incitação à morte e palavras de baixo calão.

“Cartazes com frases agressivas e palavras que não cabem em um ambiente que deveria ser de formação. Eles estavam colocados como se fossem uma arte. Incitar morte é crime. Tudo isso não tem só ideologia envolvida, é dinheiro público”, argumentou.

Rosses disse ainda que a universidade é uma “máquina de fazer esquerdista” e que é repleta de cheiro de drogas.

Já representantes de movimentos estudantis e políticos criticaram a postura de Rosses. Ane Moura, integrante da executiva nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) e pré-candidata a deputada federal, se manifestou em suas redes sociais.

“Apontar o dedo para professor e discutir com estudantes dentro da Universidade Federal do Amazonas não é fiscalização, é intimidação.Universidade é espaço de debate, liberdade e respeito. Autoridade pública se exerce com responsabilidade, não no grito”, disse.

Organizações estudantis também se manifestaram. Associação de Pós-Graduandos e Pós-Graduandas (APG-UFAM) e a União Estadual dos Estudantes (UEE) publicaram uma postagem que diz:

“Não existe democracia sem liberdade de expressão e não existe liberdade quando há tentativa de apagar vozes, destruir ideias e intimidar estudantes. A universidade é território de pensamento crítico, de diversidade e de construção coletiva. E é justamente por isso que ela incomoda. Seguiremos firmes na defesa de uma universidade pública, democrática e comprometida com a justiça social”, apontaram.

A Reitoria reforçou que seguirá “vigilante e firme na defesa do Estado Democrático de Direito dentro do campi”.

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