Durante Encontro Internacional de Pesquisa, Ensino e Ciência na Amazônia, os professores Tassos Lycurgo e Kelson Mota divulgaram falas contra as políticas afirmativas e fizeram discursos racista, lgbtfóbico e misógino contra a comunidade acadêmica, segundo alunos e docentes (Imagem: Reprodução redes sociais)
Manaus (AM) – Um protesto inédito, realizado no dia 14 de outubro, revelou a indignação da comunidade acadêmica da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) no município de Tabatinga, no oeste do Amazonas, na região do Alto Solimões, contra as falas negacionistas, anticiência e preconceituosas contra pessoas indígenas, negras, LGBTQIA+ e mulheres proferidas pelos professores Tassos Lycurgo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e Kelson Mota, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), durante o 10° Encontro Internacional de Pesquisa, Ensino e Ciência na Amazônia (EIPECAM).
Em uma carta que também foi assinada e divulgada por representantes da UEA/CESTB/CESP/PPGSP, UFAM, do Instituto Federal do Amazonas (IFAM), UFPA, UFPB, UFRJ, UNEB, UFMG, UNIRIO, entre outras instituições, a comunidade acadêmica e os técnicos em administração afirmam que os palestrantes manifestaram “opiniões incitando atos preconceituosos e criminosos que não compactuam com a liberdade democrática e com o pensamento plural da universidade”. Segundo o documento, a programação do evento não passou por consulta ou debate entre os professores da instituição, ação que surpreendeu grande parte do corpo docente, pois trouxe discussões “retrógradas que não refletem o trabalho da UEA”, diz o documento.
O 10° EIPECAM foi realizado na sede do Centro de Ensino Superior de Tabatinga (Cestb), entre os dias 10 e 15 de outubro, sob coordenação geral do professor Bruno Gomes de Araújo, recém-concursado na UEA. Ele enviou uma nota à Amazônia Real classificando o protesto de “tentativa de criminalização da opinião científica”, atacando alunos, professores e a imprensa (Leia mais no final deste texto).

Os professores Tassos Lycurgo e Kelson Mota participaram de diversos momentos do EIPECAM, entre eles a mesa redonda intitulada “Teoria do design inteligente e darwinismo”, na qual foram os palestrantes, no dia 11 de outubro. Segundo o professor da UEA Arthur Ribeiro, que estava presente no auditório onde ocorreu a mesa redonda, a atividade foi integralmente dedicada à propaganda da teoria do design inteligente “que, por meio de um falseamento do pensamento científico e sem nenhuma evidência consistente, afirma que os estudos das ciências naturais apontam para a existência de uma inteligência superior criadora da vida”.
Tassos Lycurgo declarou “acreditar no darwinismo é questão de fé” e que “a teoria de Darwin não explica questões fundamentais como a origem da vida e processos bioquímicos dos seres vivos”.
Na mesma palestra, o professor Kelson Mota afirmou que “se a vida no planeta é um mecanismo altamente organizado, como um relógio, é evidente que deve existir um criador e organizador dessa vida, assim como um relógio deve ter um relojoeiro”.
Já no dia 13 de outubro aconteceu a mesa redonda “Conservadorismo, progressismo e modernidade: O desenvolvimento tecnológico e sociocultural do Brasil no século XX”, na qual Tassos Lycurgo, que também é pastor evangélico e ex-diretor do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) na gestão de Jair Bolsonaro (PL), participou como palestrante.
Lycurgo afirmou diante do público que alguns “grupos sociais” estariam tentando controlar a linguagem para, por meio dela, controlar o pensamento e a ação: “Por que, por exemplo, os índios têm que se submeter a uma maneira como um grupo de antropólogos querem que eles se comportem, que eles falem, que eles pensem, que eles ajam? Por que eu tenho, por exemplo, que identificar se eu devo me referir à raça negra como negro, ou como preto, ou como pele preta, cada mês muda? Por que eu tenho que me submeter a um grupo de pessoas que querem determinar como eu falo? É porque a forma como eu falo vai interferir na forma como eu penso, e a forma como eu penso interfere na forma como eu ajo”, disse Tassos em uma das falas gravadas em áudio por estudantes que estavam presentes na mesa.
A afirmação faz referência aos movimentos negro e LGBTQIA+ e suas demandas pelo uso de linguagem neutra e desuso de termos considerados racistas e preconceituosos. O professor chegou a afirmar também que “a intelectualidade contrária ao conservadorismo, a intelectualidade progressista de viés comunista, quer fazer com que nós não entendamos a realidade brasileira. A realidade brasileira é que nós somos absurdamente misturados. A mestiçagem no Brasil já existia antes do negro chegar aqui”, disse Lycurgo.
Em outro momento da mesa, o professor Kelson Mota citou os editais de fomento à pesquisa que, segundo ele, se restringem à afirmação de mulheres, grupos étnicos minoritários e de pessoas LGBTQIA+. “Olha a que ponto chegou (…) a ciência, ela não visa o crescimento do conhecimento, não visa a especialização em termos tecnológicos, ela visa a uma ideologia, e ela se submete a uma ideologia”.
Mais adiante, Kelson elogiou o governo federal por não seguir os editais de fomento à pesquisa que tenham políticas afirmativas para grupos minoritários. “Nós estamos vivendo isso em termos mundiais. O Brasil tem tentado manter, mas ele está arruinando, porque se o governo federal não faz isso, os governos estaduais estão fazendo isso. As agências de fomento estaduais têm comprado essas histórias e nós, em termos de alavancar a ciência, nós não estamos conseguindo. Nós estamos vendo aí os projetos mais doidos surgindo no Brasil, sem nenhuma relevância científica”.
Ouça os áudios das palestras:

A professora da Universidade Federal do Pará (UFPA) Maria Ivonete Coutinho da Silva, que estava presente na mesa redonda, contestou as falas feitas pelos professores. “A fala dele foi de certa forma preconceituosa, com viés ideológico de conservadorismo. Ele disse que não se produz mais ciência nas universidades, inclusive falou que os editais do CNPQ são voltados para minorias como negros, mulheres e indígenas e que essas produções são feitas para responder a esse grupo de minorias. Foi uma fala de negação, de que não se produz ciência nas universidades públicas, sobretudo”, disse Maria Ivonete.
A professora afirma ainda que, ao contestar as falas dos palestrantes, não obteve direito de resposta e saiu do auditório onde acontecia a mesa redonda em forma de protesto, assim como vários outros professores e alunos que estavam presentes e se indignaram contra os discursos preconceituosos. ”Estava todo mundo irritado e nervoso. Foi muito triste o que aconteceu no âmbito de um evento dentro da academia, em um evento de pesquisa internacional com falas preconceituosas, destruindo a universidade pública que é o que esse governo vem fazendo ao longo desses quatro anos”, conclui a professora.
Procurado pela reportagem da Amazônia Real, Tassos Lycurgo respondeu por e-mail que “a acusação é absolutamente falsa” e que se houver alguma acusação por parte da comunidade acadêmica terão que provar judicialmente. O professor Kelson Mota também foi procurado com perguntas enviadas por e-mail, mas não respondeu os questionamentos.
Em nota encaminhada para a agência, a UEA afirma que o evento não foi financiado e nem organizado pela gestão superior da universidade e que não compactua nem incentiva qualquer prática que leve à violência, à intolerância ou ação que fere o direito à liberdade individual ou coletiva, além de repudiar quaisquer formas de discriminação e preconceito. Apesar da nota divulgada pela UEA afirmar que a gestão superior não financiou e nem participou da organização do evento, consta na lista da comissão organizadora o nome de André Zogahib, reitor da universidade.
Indignação da comunidade acadêmica

Esse ano o EIPECAM teve coordenação geral do professor Bruno Gomes de Araújo. Bruno participou do corpo de jurados da 34ª Edição do Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade 2021, convidado pelo então diretor do Departamento de Cooperação e Fomento do Iphan, professor Tassos Lycurgo. Nesta edição do Prêmio Rodrigo de Melo Franco houve uma polêmica substituição de acadêmicos com experiência por militares, religiosos, e amigos de faculdade de Tassos, acusado de aparelhar a comissão julgadora.
Tassos Lycurgo, que é conhecido por ser um pastor evangélico de discurso extremista, foi exonerado do cargo de diretor do Departamento do Patrimônio Imaterial do Iphan por ter gravado uma live da igreja no qual é pastor, o Ministério da Defesa da Fé, de seu gabinete, em Brasília.
Enquanto ainda era diretor do Iphan, Tassos ordenou que fosse interrompida a preparação da exposição de uma coleção de 519 peças de acervo de objetos sagrados das religiões afro brasileiras, doadas ao Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e transferidas para o Museu da República, sendo incorporadas ao patrimônio brasileiro.
Muitos estudantes que ficaram indignados com as falas preconceituosas de Tassos em Tabatinga não querem ter os nomes publicados por medo de represálias. É o caso de C., que é estudante da UEA e disse que estava presente na mesa redonda e durante a manifestação. Ele conta que se sentiu indignado pelas falas dos professores.”Eles foram racistas, transfóbicos e ofenderam a ciência do Brasil. Na minha opinião, tudo o que eles tentaram fazer naquela palestra foi com que os outros acreditassem em suas ideologias preconceituosas e antiquadas. Um deles chegou até a falar que o mundo era melhor antigamente”, disse.
O Sindicato dos Docentes da Universidade do Estado do Amazonas (Sind-UEA) informou que irá acionar o Ministério Público do Amazonas contra as falas proferidas por palestrantes no X EIPECAM.
Para o professor Arthur Ribeiro, o discurso dos professores na universidade representa uma “cegueira científica e filosófica, mas sobretudo uma cegueira social, em que ideias distorcidas são aceitas em nome de um suposto pensamento crítico, se opondo a tudo que seja progressista”. “Torço para que os professores que participaram deste episódio triste possam escutar e compreender isso e abandonem esse projeto equivocado”.
Thaiane Peixoto, que é do curso de Letras da UEA e esteve na manifestação após a repercussão das falas dos professores, disse que precisava se posicionar. “O evento era sobre ciência e tudo o que esses senhores disseram são ideologias racistas, xenofóbicas e homofóbicas, ofendendo várias minorias”, afirma.
Uma carta solitária

A Amazônia Real enviou perguntas aos professores Tassos Lycurgo e Kelson Mota. Em nome dos dois, o professor Bruno Gomes de Araújo, coordenador geral do 10º EIPECAM, encaminhou uma carta aberta dizendo “repudiar a politização, intimidação e criminalização da conferência “Conservadorismo, progressismo e modernidade: O desenvolvimento tecnológico e sociocultural do Brasil no século XX”. Ele também criticou veículos de imprensa como Mídia Ninja e A Crítica, de Manaus.
O texto segue afirmando que os palestrantes “debateram os temas cientificamente sem qualquer vinculação partidária, sem ofensas à minorias, classes ou qualquer segmento social organizado” e que o evento defende amplamente temas sobre diversidade, sustentabilidade e povos tradicionais da Amazônia. “A liberdade pedagógica e científica do evento não foi usada para disseminar qualquer perseguição ou ódio”.
Na carta, a organização geral destaca que o grupo de professores e alunos que denunciaram as falas criminosas durante as palestras estão promovendo calúnias, desinformações e não representam a totalidade da comunidade acadêmica da CESTB/UEA, objetivando “macular a reputação social e acadêmica dos palestrantes antes mesmo que esses divulgassem amplamente seu direito de resposta”.
Procurado novamente para repercutir a carta do professor Bruno Araújo, o professor Arthur Ribeiro disse que “a assinatura solitária do professor Bruno nesta nota fala por si” ao apontar o controle do coordenador geral sob o evento científico. Também ouvida, a professora Maria Ivonete disse que a negação das acusações é uma forma de ameaçar quem testemunhou o evento em Tabatinga. “Eles vão fazer de tudo para nos amedrontar. Nós temos que esperar de tudo, pois eles são representantes diretos desse governo”, diz.
Leia a íntegra da carta de repúdio.
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