AM desponta como polo estratégico para exploração de terras raras

O Amazonas concentra parte de um tesouro mineral cada vez mais disputado no mundo: as chamadas terras raras – grupo de 17 elementos químicos fundamentais para a indústria tecnológica, militar e energética. Essenciais para a produção de motores de veículos elétricos, baterias, turbinas eólicas e painéis solares, esses minerais são considerados estratégicos no cenário da transição energética e do avanço das tecnologias verdes.

Conforme o Serviço de Pesquisa Geológica dos Estados Unidos (USGS), o mundo possui cerca de 90 milhões de toneladas de reservas de terras raras. A China concentra quase a metade, com 44 milhões (48,8%), seguida pelo Brasil com 21 milhões (23,3%), a Índia com 6,9 milhões (7,6%) e a Austrália com 5,7 milhões (6,3%). Embora usados em pequenas quantidades, os minerais são insubstituíveis.

No Amazonas, os principais pontos de ocorrência mineral estão em Presidente Figueiredo, onde a mina de Pitinga concentra uma rara combinação de minerais — além do estanho, abriga depósitos expressivos de columbita (fonte de nióbio e tântalo) e reservas com potencial para terras raras, como disprósio, térbio, neodímio e praseodímio —, e em São Gabriel da Cachoeira, na região conhecida como “Cabeça do Cachorro”. Apesar da abundância, a exploração ainda é limitada, especialmente em São Gabriel da Cachoeira, por estar localizada em território indígena e em áreas de proteção ambiental.

Potencial no Amazonas

Os estudos das terras raras ainda estão em fases iniciais. O Serviço Geológico do Brasil (SGB) aponta que existem projetos em áreas no município de Apuí, nos alvos denominados “Três Estados” e “Ema”, além da própria região de Pitinga, em Presidente Figueiredo. Embora haja potencial reconhecido, ainda não existem reservas oficiais publicadas pela mineradora que atua na área da Taboca, vendida à estatal chinesa China Nonferrous Metal Mining (CNMC).

Já em São Gabriel da Cachoeira, além da presença de terras raras, a região abriga um dos maiores depósitos de nióbio do mundo, estimado em 2,9 bilhões de toneladas, segundo o Instituto Socioambiental (ISA). Contudo, a exploração é inviável por se tratar de área protegida e de território indígena.

O SGB informou ainda que tem ampliado a cooperação com universidades e empresas para aprofundar o conhecimento sobre os depósitos amazônicos. Uma das iniciativas envolve parceria com a Universidade Federal do Amazonas (Ufam), em Apuí, e com a Universidade Federal do Pará (UFPA) para estudos em corpos alcalinos.

“Atualmente, no sudeste do Amazonas, desenvolvemos projeto de mapeamento geológico, e temos conversado com a Brazilian Critical Minerals, que detém os projetos de Ema e Apuí e usa nossos mapas e dados geofísicos para a expansão do conhecimento. Recentemente, o SGB realizou campanha na região para coleta de dados de prospecção geoquímica”, disse o serviço em nota enviada à reportagem.

Estudos para exploração

Embora os estudos ainda sejam iniciais, o Governo do Amazonas já traça planos para iniciar a extração dos minérios insubstituíveis. Ronei Campos Peixoto, titular da Secretaria de Estado de Energia, Mineração e Gás (Semig) revelou, em entrevista no mês de agosto, que a extração das terras raras pode ter início até 2027.

“Esse é um ganho importante, a potencialidade do Amazonas é enorme. Temos reserva estudada inicialmente em São Gabriel da Cachoeira, já estudos aprofundados dão conta da região de Apuí e ainda temos ocorrências das terras raras em Presidente Figueiredo. Com essas sinalizações, o estado detém uma reserva significativa dos minerais”, afirmou.

No início da semana, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, anunciou que o governo federal deve instalar, em até 15 dias, um novo Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM). Segundo Silveira, o primeiro ato desta nova reestruturação do colegiado será a criação de um Conselho de Minerais Críticos e Estratégicos.

Entre os objetivos, estão o fortalecimento da cadeia de minerais críticos, a industrialização desses recursos e o estímulo ao desenvolvimento da indústria nacional, com atração de investimentos e geração de emprego e renda.

Disputa internacional

O ministro Alexandre Silveira também mencionou a experiência da China no uso estratégico das chamadas terras raras. Em abril, o país incluiu ímãs e outros itens do setor na lista de restrições de exportação, em resposta às tarifas impostas pelos Estados Unidos, demonstrando maior controle sobre a oferta global desses minerais.

Agora, com Donald Trump no centro de uma disputa tarifária com o Brasil, a atenção se volta para o potencial brasileiro, em uma espécie de “moeda de troca”, embora o presidente Lula já tenha reagido às investidas dos Estados Unidos com críticas diretas.

“Temos todo o nosso petróleo para proteger. Temos todo o nosso ouro para proteger. Temos todos os minerais ricos que vocês querem proteger. E aqui ninguém põe a mão. Este país é do povo brasileiro”, afirmou Lula em julho deste ano.

Janela de oportunidade

Para o Serviço Geológico Brasileiro (SGB), há uma “janela de oportunidades” para o Brasil se tornar um dos polos produtores mundiais dos bens oriundos das terras raras e, se investir em tecnologia de beneficiamento, terá a cadeia completa, o que traz vantagem competitiva, principalmente diante da necessidade da diversificação geográfica da produção e beneficiamento. O órgão destaca ainda que “a mineração, realizada com responsabilidade socioambiental, é aliada para o desenvolvimento sustentável do Brasil, promovendo geração de empregos, inovação e arrecadação, especialmente no contexto da transição energética”.

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