Agentes públicos são presos por integrar 'núcleo político' do CV no Amazonas

A Polícia Civil do Amazonas (PC-AM) deflagrou, na manhã desta sexta-feira (20/02), a Operação “Erga Omnis” para desarticular uma organização criminosa ligada à facção Comando Vermelho (CV) que infiltrou agentes em cargos públicos estratégicos para sustentar o tráfico interestadual de drogas. Mandados de prisão, de busca e apreensão, bloqueio de contas, sequestro de bens e quebra de sigilo bancário foram cumpridos em Manaus e em outras cidades brasileiras.

O delegado do 24º Distrito Integrado de Polícia (DIP), Marcelo Martins, que coordenou a operação, manifestou preocupação com o nível de infiltração do crime na administração pública. Segundo ele, a rede contava com um intercâmbio financeiro entre traficantes e servidores das esferas Executiva, Legislativa e Judiciária.

“Detectamos nessa investigação um traço mais perigoso ainda com o crime organizado dentro de três esferas de poder do Amazonas. Isso é um sintoma muito ruim da nossa sociedade. A partir desse momento, nós estamos sendo administrados pelo tráfico de drogas e não podemos permitir isso”, alertou o delegado.

Sobre o Judiciário, Martins destacou a prisão do motorista de uma desembargadora e duas advogadas que atuavam como pontes para a corrupção.

“Este servidor do Judiciário foi identificado como responsáveis por vazar informações sigilosas de processos judiciais, em segredo de justiça, a advogados ligados à organização criminosa. Em troca, recebia propina. Nas investigações, duas advogadas foram presas. Elas foram identificadas em relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) efetuando pagamentos de propina ao servidor para obter informações processuais”, afirmou Martins

Líder usava igreja como fachada
O delegado também destacou do líder do grupo criminoso identificado como Alan Kleber. Ele é acusado de utilizar instituições religiosas para camuflar o armazenamento de entorpecentes e a origem do dinheiro.

“Esse indivíduo conseguiu escapar do cerco policial no estado de São Paulo, nas primeiras horas da manhã, mas a esposa dele foi presa. Há informações de que o suspeito armazenava substâncias ilícitas em uma igreja. Esse líder utilizava igrejas evangélicas como fachada, ocultando suas atividades criminosas sob a aparência de religioso, enquanto, na realidade, era um grande traficante de drogas”, detalhou Martins.

Estrutura criminosa milionária
As investigações apontam que o grupo mantinha divisão em núcleos operacional, financeiro e logístico, utilizando rotas fluviais e terrestres, veículos alugados em nome de terceiros e empresas de fachada nos ramos de transporte e locação. A polícia estima uma movimentação de R$ 70 milhões desde 2018.

“O grupo utilizava empresas de fachada nos setores de transporte e locação para dar aparência de legalidade ao lucro do skunk vindo da Colômbia, transportando drogas para várias unidades da federação. Essas supostas empresas não compravam e nem negociavam com outras empresas do segmento, apenas negociavam com traficantes e com servidores públicos”, detalhou o delegado Marcelo Martins.

O inquérito iniciou após uma grande apreensão anterior que encontrou mais de 500 tabletes de maconha do tipo skunk, sete fuzis de uso restrito, duas embarcações e um veículo utilitário utilizados na logística.

“Relatórios financeiros mostraram transferências incompatíveis com a renda declarada e transações entre investigados e empresas em vários estados — Amazonas, Ceará, Maranhão, Minas Gerais, Pará, São Paulo e Piauí — evidenciando alcance nacional. Parte dos recursos, cerca de R$ 1,5 milhão, teria sido repassada diretamente à facção”, revel0u o delegado.

Mandados e apreensões
Ao todo, a operação cumpre 23 mandados de prisão preventiva e 24 de busca e apreensão em outros seis estados (CE, MA, MG, PA, PI e SP). A Justiça também determinou o sequestro de bens e bloqueio de contas bancárias. Diversos veículos de luxo e bens de valor foram apreendidos na capital amazonense.

Até a última atualização, 14 pessoas foram presas, sendo oito no Amazonas.  A lista com o nome dos investigados não foi divulgada pelas autoridades. As pessoas que não foram localizadas nesta manhã já são consideradas foragidas.

“As investigações terão continuidade para fortalecer as provas e possivelmente identificar outros crimes e a participação de outros indivíduos”, concluiu o delegado Marcelo Martins.

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