Leia a coluna Taquiprati deste domingo, 09 de janeiro, do jornal DIÁRIO DO AMAZONAS
Y el tiempo corre (…). El que va se lleva su memoria, su modo de ser rio, de ser aire, de ser adiós y nunca.
”
Rosário Castellanos (1925-1974), México.
– Lembra do Agenor? Pois é, Antônia, a mulher dele, levou com ela seu jeito de ser adeus, mas deixou memória escrita. A missa de um mês foi nesta quarta (5) na igreja Nossa Senhora da Conceição, em Salvador (BA).
Quem me deu a triste notícia triste foi o médico Emilio Mira y Lopez. Recordarmos então que, há 55 anos, numa passeata contra a ditadura, os três fugíamos da polícia em desabalada correria pela rua Santa Luzia, que leva o nome – quanta coincidência! – da santa protetora dos olhos. Foi ali que meus óculos caíram e teriam sido estilhaçados, se Emilio e Agenor não tivessem retornado no meio de bombas de gás lacrimogêneo, salvando-os a tempo das patas dos meganhas. Pude, assim, ver o mundo outra vez com esses olhos míopes que a terra há de comer.
Eternamente grato, essa história acabou me ligando indiretamente à Antônia, com quem nunca convivi. No entanto, quando a gente conhece a trajetória de vida de uma pessoa e descobre tantas afinidades, ela se torna amiga de infância. Foi o que aconteceu. Depois de ler fragmentos de suas “Memórias”, ousei usar o apelido carinhoso de Tonha com o qual os amigos chamavam Antônia, nascida na Vila de Belém de Cachoeira (BA), em 1948, quando começou a viajar pelo rio da vida.
Sendo rio
– Minha ancestralidade negra deve-se provavelmente a grupos de escravizados e à descendência indígena de grupos étnicos que viveram no Recôncavo – ela diz. Filha de Julieta, dona de casa e do carpinteiro Paulo, foi com ele que aprendeu que “somos trabalhadores, somos negros, mas somos iguais a qualquer um”.
Paulo morreu num incêndio em Santo Amaro, em 1958, do qual dona Julieta, escapou milagrosamente. Cozinheira de mão cheia, perguntava a quem provava os seus quitutes baianos:
– Tá bom, meu filho?
Diante de qualquer resposta, dizia com dose de humor:
– Se quiser melhor, vá comer na casa de seu pai.
Na memória de Tonha ficou a imagem da mãe, viúva aos 41 anos, que lavava roupa de veranistas e fabricava charutos para sustentar a família. Dona Julieta deu seu apoio quando, apenas com o curso primário, sua filha alfabetizava adultos orientada pelo programa radiofônico do Movimento de Educação de Base (MEB). O golpe militar de 1964 calou a rádio e destroçou o MEB.
Sua consciência política despertou com a chegada à Cachoeira de uma equipe da Juventude Agrária Católica (JAC), que a selecionou para fazer um curso de enfermagem e de parteira. Rio caudaloso, Tonha atravessou vales da nascente até a foz.
– “Participei de muitos eventos locais, regionais e nacionais, buscando formas eficientes de atingir o povo. Tornei-me coordenadora nacional da JAC e fui aprendendo mais sobre as causas das desigualdades sociais (as raciais e de gênero não eram tratadas)”.
Sendo ar
Numa casinha alugada pela JAC, ela montou “consultório” para orientar mulheres grávidas, realizando partos naturais em casas humildes, com luz de candeeiro, fogão à lenha no terreiro. Longe dali um estudante da PUC/RJ que recolhia um óculos numa passeata, não imaginava que logo encontraria aquela parteira e alfabetizadora.
Tonha respirou novos ares ao mudar de mala e cuia para Salvador, onde trabalhou como atendente de enfermagem. Lá, em agosto de 1974, foi apresentada a alguns estudantes universitários cariocas que, por motivos políticos, haviam migrado para Salvador. Entre eles, Agenor e Jaques Wagner, eleito muitos anos depois governador da Bahia.
Quando ela tomava o ônibus no Largo do Tanque, sempre encontrava Agenor. Ônibus vai, ônibus vem, começaram a namorar em abril de 1975 e casaram nove meses depois. Tonha dava aulas sobre direitos trabalhistas na Escola Profissional Suburbana (Essub) na casa paroquial, Agenor ministrava cursos de eletricidade, junto com Jaques Wagner.
Sendo adeus
Antônia militou em inúmeros movimentos sociais e passou por diferentes organizações. Nos estertores da ditadura, aos 36 anos e com três filhos, entrou na universidade. Sua monografia no curso de Ciências Sociais da UFBA sobre O movimento de mulheres na periferia de Salvador – foi publicada em Madri.
Sua dissertação de mestrado em Geografia discutiu “As mulheres da Cidade d’Oxum: Relações de Gênero, Raça e Classe: a Organização Espacial do Movimento de Bairro de Salvador”. Mas não parou aí. Defendeu tese de doutorado no IPPUR/UFRJ, comparando as “Desigualdades Raciais e Segregação Urbana em Salvador, Cidade d’Oxum e Rio de Janeiro, Cidade d’Ogum”, obra de referência (Garamond 2009).
Fez o Pós-Doutorado (UFBA 2008-2010) na época em que teve o diagnóstico do primeiro câncer na mama, com indicação para cirurgia numa luta que durou 14 anos. Radioterapia, hormonioterapia, quimioterapia serviram para mostrar a ela “as limitações de uma medicina subordinada aos interesses do capital com clínicas luxuosas e tratamentos caríssimos que não resolvem”.
Em agosto de 2020, Antônia se mudou para ficar mais perto dos netos, mantendo vida normal até junho de 2021, quando foi internada.
– “Espero viver o suficiente para ver meus netos crescerem mais, ver meu país superar o neofascismo, retomando a esperança de uma sociedade mais justa, mais solidária, mais fraterna” – escreveu ela em seu Diário, antes de nos dar seu último adeus.
Fonte: Governo do Estado do Amazonas em 06/01/2022
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