Ruas do Centro revelam a história e o crescimento de Manaus

Em cada esquina do Centro ainda há uma lembrança da antiga Manaus — cidade que nasceu às margens do Rio Negro, cresceu em torno do centro histórico e se espalhou até formar os 63 bairros e 13.172 logradouros que compõem a capital hoje. Em entrevista ao Toda Hora, o historiador Fábio Augusto, mestre pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), revela como a cidade nasceu desordenadamente e perdeu parte de sua identidade arquitetônica em nome do progresso.

As primeiras ruas de Manaus surgiram ainda no período colonial, quando a cidade era conhecida como Lugar da Barra. Entre as mais antigas estão as ruas Governador Vitório, Monteiro de Souza, Taqueirinha e Tamandaré, que também foram chamadas de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, refletindo a forte influência da Igreja Católica.

“Essas eram as únicas artérias do povoado registradas em 1787 pelo naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, que passou por aqui e descreveu Manaus como um pequeno povoado de ruas tortuosas, cercadas de mato e de casas simples de madeira e palha”, explica o historiador.

Com o passar dos anos, o traçado urbano começou a se expandir. A antiga rua de São Vicente, hoje Bernardo Ramos, tornou-se símbolo do casario preservado e da transição entre o período colonial e o ciclo da borracha. “A Tamandaré era comercial, cheia de casas importadoras e exportadoras, enquanto a Bernardo Ramos mantinha o perfil residencial. São registros vivos do nascimento e desenvolvimento da cidade”, observa Fábio.

O povoado era formado por indígenas, alguns soldados portugueses e, mais tarde, escravizados africanos. Todos sobreviviam da extração e comércio de produtos como castanha, cacau e guaraná, que eram altamente valorizados e exportados para a Europa.

História em prédios e praças

Mesmo com o crescimento e as transformações, há lugares que ainda contam a história da cidade. Fábio cita como exemplos a Catedral de Nossa Senhora da Conceição, cuja construção durou duas décadas, entre 1858 e 1878; o Mercado Adolpho Lisboa, ícone da arquitetura do século XIX; e a Igreja dos Remédios, cuja praça será reinaugurada na programação de aniversário da cidade este ano.

Mas o historiador lamenta o esquecimento de outros espaços de grande valor simbólico, como a antiga Praça IX de Novembro, hoje reduzida a um estacionamento. “Ali estava a antiga Igreja da Conceição, o cemitério e a Fortaleza de São José da Barra do Rio Negro. Foi ali também que, em 1823, o povo aderiu à Independência do Brasil. É um lugar de memória e de identidade manauara que precisa ser lembrado”, afirma.

‘Progresso’ x descaracterização

A partir da instalação da Zona Franca de Manaus nos anos 60, a cidade experimentou uma nova fase de desenvolvimento. “O Amazonas e, especialmente Manaus, saíram de uma crise que se arrastava há mais de 40 anos, voltando a se destacar no cenário econômico nacional e internacional. No entanto, esse desenvolvimento teve um alto custo para o patrimônio edificado. Casarões, palacetes, antigos prédios comerciais e praças foram mutilados, descaracterizados e, na maioria dos casos, demolidos para dar lugar a novos empreendimentos comerciais, condomínios e estacionamentos”, lamenta Fábio.

Entre as perdas mais marcantes, ele cita o Palacete Miranda Corrêa, a agência 002 do Banco do Brasil e o Cine Guarany, ícones de outros tempos.

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