Pessoas que vivem com HIV/Aids no Amazonas afirmam estar com medo de ficar sem os medicamentos necessários para realizar o tratamento. Isso porque, o governo federal anunciou corte de R$ 407 milhões na verba destinada ao programa brasileiro de prevenção, controle e tratamento do HIV/Aids para o próximo ano.
Cerca de 18 mil pessoas vivem com HIV/Aids no estado, de acordo com dados do Ministério da Saúde. Segundo pessoas atendidas pelo programa no Amazonas, os remédios distribuídos nos postos duravam três meses e agora a medicação só é suficiente para um mês.
“Além de o governo federal oferecer pra gente o que há de pior na indústria farmacêutica, pois esses remédios causam muitos efeitos colaterais e já existem tratamentos melhores, também estamos com muito medo de faltar esses medicamentos, já que nossa vida depende deles”, contou uma pessoa com HIV que pediu para não ter o nome divulgado. Ela faz uso de dois medicamentos: delutogravir sódico e fumonato de tenofovir desoproxila + lamivudina.
Segundo o ativista e professor Gabriel Motta, a gestão de Bolsonaro vem desmontando a política pública de HIV/AIDS e demais Infecções Sexualmente Transmissiveis. “A situação começou com o desmonte do Departamento de Doenças Crônicas do Ministério da Saúde e seguiu ao longo dos quatro anos tratando as pessoas vivendo com HIV como se fossem despesa e não dignas de receberam auxílio em saúde por parte do SUS”, afirmou.
“Infelizmente o Brasil está vivendo seu pior momento em saúde pública e as pessoas que mais precisam estão sendo negligenciadas por um governo que além de destratar essas pessoas, corta investimentos num momento em que o resto do mundo está dando uma resposta ao HIV, que segue há mais de 40 anos sem uma resposta definitiva”, lamentou Motta.
Segundo ele, no Amazonas, além da realidade de números altos de pessoas que entram em quadro de Aids, o que poderia ser evitado com os devidos investimentos em saúde da base à assistência especializada, ainda tem um altíssimo número de pessoas que abandonam o tratamento, na capital e no interior.
O ativista reforçou que a ciência já dispõe de mecanismos que podem evitar novas infecções e dar qualidade de vida para as pessoas vivendo com HIV, mas a falta de interesse do poder público em realizar esses investimentos impede que esses avanços aconteçam. Prova disso é que o Brasil, nos últimos quatro anos, não atualizou a linha de medicação oferecida às pessoas vivendo com HIV.
“O mais perto que chegamos agora foi a simplificação do tratamento de três para duas drogas, que nesse momento está sendo freado porque não tem lamivudina suficiente para dispensar nas farmácias em todo o país”, disse.
Na avaliação dele, o corte de R$ 407 milhões na política de HIV/AIDS e outras ISTs é danoso para todo o país, mas no Amazonas é mais preocupante pela dimensão que nosso estado tem. “E o pior é não saber para onde está indo esse corte enquanto vidas poderiam estar sendo impactadas com esses investimentos”, finalizou.
Risco de extinção
Em carta aberta divulgada na semana passada, o movimento brasileiro de pessoas vivendo com HIV e Aids, destacou que o programa brasileiro de prevenção, controle e tratamento do HIV/AIDS, que já foi referência e modelo internacional, corre o risco de ser extinto, as pessoas vivendo com HIV e doentes de Aids irem a óbito e a epidemia voltar a explodir no Brasil.
“Todos sabem que a redução de verbas compromete as ações do Sistema Único de Saúde (SUS) e o enfrentamento à epidemia de AIDS no país que, em 2020, registrou mais de 10 mil mortes pela doença, de acordo com o Boletim Epidemiológico 2021 do Ministério da Saúde”, afirma trecho do documento.
Medicamento em falta
A Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas – Drª Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP) informou que, de acordo com o Ministério da Saúde, dois medicamentos estão com problema nacional de produção e trâmites logísticos para reposição e regularização dos estoques, o que está levando à necessidade de racionalização e/ou substituição de terapêutica em caráter excepcional e transitório para que não haja descontinuidade da Terapia Antirretroviral para ninguém. No entanto, a FVS-RCP informa que não há como afirmar que isso tenha relação com a redução dos recursos no orçamento federal.
Segundo a FVS-RCP, desde julho deste ano, o Amazonas recebe do Ministério da Saúde um valor mensal de R$ 266.666,63 para custear as ações de prevenção, vigilância e controle das Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) no Estado, que são utilizados em forma de repasse a 10 municípios prioritários, em apoio às ações dos demais municípios e às Organizações da Sociedade Civil.
“Ressalta-se ainda que todos os medicamentos para tratamento da infecção pelo HIV e da AIDS, das Hepatites Virais e da Sífilis, são adquiridos de forma centralizada pelo Ministério da Saúde e dispensado para o Estado, que realiza o controle e dispensação para os municípios, portanto, qualquer redução de recurso no âmbito nacional tende a impactar os Estados, municípios e consequentemente as Pessoas Vivendo com HIV/Aids”, afirmou o órgão em nota.
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