A soltura do aluno-soldado Hudson Marcelo Vilela de Campos, concedida pela Justiça do Amazonas nesta quinta-feira (30/04), gerou forte reação da defesa da família de Carlos André, jovem de 19 anos morto em abordagem policial no dia 19 de abril, no bairro Alvorada, em Manaus. A defesa da família da vítima classificou a decisão como motivo de “indignação” e contestou a exclusão do agente do inquérito.

O pedido de soltura foi feito pelo Ministério Público do Amazonas (MPAM), que apontou, com base em vídeos anexados ao processo, que “não há, até o momento, elementos que indiquem participação direta de Hudson nos disparos”, atribuídos ao sargento Belmiro Wellington Costa Xavier, indiciado por homicídio qualificado e porte ilegal de arma de fogo.

Em nota enviada à imprensa, o advogado Alexandre Torres Jr., que representa a família da vítima no processo, sustenta que Hudson teria participado ativamente das agressões.

“Elementos da própria investigação — incluindo vídeos de câmeras de segurança fornecidos por vizinhos — deixam claro o desígnio de esforços entre os agentes. As imagens comprovam que Hudson, ao visualizar a vítima já baleada, desceu da viatura e desferiu uma coronhada na cabeça de Carlos André. Na sequência, enquanto a vítima agonizava, o soldado a golpeou com chutes até a morte, posteriormente confirmada pelo SAMU”, afirma o advogado.

Defesa de jovem morto em abordagem no Alvorada protesta contra soltura de aluno-soldado
Carlos André, de 19 anos. — Foto: Reprodução/Redes Sociais

Intimidação após soltura

A defesa também denuncia que, após a soltura, a família da vítima voltou a sofrer intimidações. “Na data de ontem (30/04), instantes após a soltura do soldado, a família foi novamente intimidada por militares, conforme registrado em novas imagens de segurança. Tais fatos foram levados ao conhecimento do Ministério Público (MPAM), que, até o momento, manteve-se inerte diante de práticas de tortura, ameaça e coação no curso do processo”, afirma a nota.

Outro ponto levantado é a dificuldade de acesso ao Procedimento Investigatório Criminal (PIC). Na nota, a defesa critica o sigilo decretado pelo juiz responsável pelo processo.

“O sigilo decretado pelo juiz Fabio Lopes Alfaia, sob a justificativa de proteger a imagem dos acusados, e a recusa da DEHS em permitir a análise integral das investigações violam o direito líquido e certo da genitora da vítima, desrespeitando tratados internacionais de direitos humanos ratificados pelo Brasil”, alega o advogado Alexandre Torres Jr.

“Diante das graves omissões, a defesa irá manejar os recursos cabíveis para garantir o indiciamento e a denúncia formal de ambos os policiais. Habilitar-nos-emos como assistentes de acusação (Art. 268 do CPP) para promover o aditamento da denúncia, inclusão de Hudson Marcelo e o requerimento formal de seu retorno à prisão”, conclui a nota enviada à imprensa.

Defesa de jovem morto em abordagem no Alvorada protesta contra soltura de aluno-soldado
Belmiro Wellington Costa Xavier e Hudson Marcelo Vilela de Campos — Foto: Reprodução/Redes Sociais

O advogado do sargento, Samarone Gomes, por sua vez, afirmou que a soltura de Hudson demonstra que houve “justiça”, ao reconhecer “a ausência dos requisitos legais para a manutenção da prisão”, e defendeu que o mesmo entendimento deve ser aplicado ao seu cliente. A defesa do sargento sustenta ainda que ele teria agido “no estrito cumprimento do dever legal”, com a intenção de conter uma “suposta injusta agressão”.

Relembre o caso

O crime ocorreu por volta das 2h45 do dia 19 de abril deste ano, e foi registrado por câmeras de segurança, que mostram o jovem sendo cercado e agredido antes dos disparos. O laudo preliminar do Instituto Médico Legal (IML) confirmou que a morte foi causada por projétil de arma de fogo, com lesão pulmonar.

Familiares contestam a versão apresentada pelos policiais e relatam que testemunhas afirmaram que pessoas foram impedidas de se aproximar da vítima após o ocorrido.

Diante das divergências, a defesa informou que irá adotar medidas judiciais para garantir o indiciamento de Hudson, incluindo pedido de habilitação como assistente de acusação e requerimento de retorno do policial à prisão. Enquanto isso, o caso segue sob investigação da Polícia Civil do Amazonas (PC-AM).

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