O agravamento da crise política e institucional na Venezuela reacendeu o alerta no Amazonas diante da possibilidade de uma nova onda migratória com destino a Manaus, principal polo de acolhimento de venezuelanos no estado. Além dos desafios humanitários, autoridades e especialistas avaliam que um novo fluxo em massa pode pressionar a economia local, afetar serviços públicos e influenciar relações comerciais que hoje somam US$ 308 milhões na balança do estado.
Apesar da tensão geopolítica, o Governo do Amazonas expressa estabilidade ao mercado. Segundo o secretário-executivo da Secretaria de Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Sedecti), Gustavo Igrejas, o cenário venezuelano ainda não provocou impactos diretos relevantes sobre a Zona Franca de Manaus (ZFM), mas está sendo acompanhado de forma permanente pelo Estado.
“A princípio, vamos monitorar a situação. Até o momento, não vislumbramos necessidade de implementar algum plano de contingência. É muito cedo para avaliarmos possíveis interrupções”, afirmou.
Do ponto de vista econômico, a Venezuela segue como um parceiro comercial importante do Amazonas. De acordo com dados da Sedecti, o país respondeu por cerca de 7,5% das exportações do estado em 2025.
“A grande maioria dessas exportações diz respeito a produtos inerentes ao segmento de concentrados para refrigerantes. Como se trata de relações entre empresas ligadas a um conglomerado norte-americano, a ZFM não deve sofrer um impacto relevante nesta situação atual”, explicou Igrejas.
Ainda assim, os números indicam retração nos dois últimos anos. Em 2024, o Amazonas exportou US$ 90 milhões para o país vizinho, equivalente a 10,3% das exportações da ZFM. Já em 2025, esse valor caiu para US$ 53 milhões, representando 7,5% do total, segundo dados do Comex Stat.
“Houve queda de 2024 para 2025. A Venezuela é o 7º maior parceiro comercial do estado no mundo, e qualquer interrupção prolongada pode desorganizar cadeias de suprimentos de farinhas, açúcares e óleos. Ainda assim, até o momento, nenhuma empresa do PIM sinalizou preocupação com impactos diretos ou indiretos nas operações por conta do cenário venezuelano”, reconheceu o secretário-executivo da Sedecti.
Perspectivas geopolíticas
Apesar da avaliação econômica cautelosa, a preocupação maior recai sobre o campo social. Nos últimos anos, Manaus se consolidou como um dos principais destinos de venezuelanos no país, mesmo com a entrada formal ocorrendo majoritariamente por Roraima. Para especialistas, a crise ultrapassa números comerciais.
O sociólogo e pesquisador Marcelo Seráfico alerta para o risco de a Amazônia se tornar palco de conflitos indiretos: “Manaus concentra serviços, oportunidades de trabalho e redes de apoio comunitário, sendo forte polo de fixação. Podemos dizer que a Amazônia, como outras regiões economicamente estratégicas do globo, sendo uma das fronteiras da acumulação de capital em escala mundial, é objeto e pode se tornar palco de conflitos diplomáticos e militares”, alerta.
Seráfico contextualiza a crise em um quadro geopolítico mais amplo. Para ele, as intervenções externas impactam diretamente as cidades de destino migratório. “O efeito não é exportação de democracia, mas de instabilidade, com custos distribuídos para países vizinhos. A instabilidade interna pode comprometer infraestrutura, portos, vias terrestres e fluviais, afetando o escoamento de mercadorias e a regularidade das trocas. A reconfiguração de mercados também pode afetar empresas da ZFM, forçando a buscar rotas alternativas e novos parceiros, o que implicaria custos adicionais e perda temporária de competitividade”.
Para o cientista político Raimundo Nogueira, o histórico recente mostra que a migração em massa não é uma escolha, mas uma ‘estratégia de sobrevivência’. “Amazonas exerce dupla função nesse contexto. É território de passagem e de permanência. O padrão observado é típico de crises de colapso estatal parcial: a migração deixa de ser uma decisão planejada e passa a ser uma estratégia de sobrevivência”, afirmou.
Na avaliação do especialista, um eventual agravamento do conflito tende a gerar um efeito de transbordamento rápido: “Não se trata de hipótese abstrata, mas de um movimento já observado em ciclos anteriores, com potencial de repetição”.
Monitoramento migratório
Enquanto especialistas alertam para riscos estruturais, entidades que atuam diretamente com migrantes já acompanham sinais de preocupação. A Pastoral dos Migrantes, da Arquidiocese de Manaus, avalia que, mesmo sem confrontos diretos na fronteira, a violência pode provocar novo aumento do fluxo em direção ao Amazonas.
“Diante da grave situação da Venezuela, esperamos sim um novo fluxo migratório grande. É preciso articulação entre os estados, junto à União, para as próximas diretrizes perante à possível migração em massa para a região Norte”, disse a missionária e coordenadora da Pastoral dos Migrantes em Manaus, irmã Carmem Gandra.
Programas federais como a “Operação Acolhida” seguem como principal resposta humanitária, organizando recepção, documentação e interiorização. Desde 2018, mais de 150 mil venezuelanos foram interiorizados para mais de 1.100 municípios brasileiros. Em Manaus, organizações como o projeto Hermanitos atuam na inserção no mercado de trabalho e no apoio à adaptação social.
“Nosso objetivo é fazer com que as pessoas retomem sua autonomia por meio do trabalho e recomecem suas vidas com dignidade, contribuindo para o desenvolvimento do nosso país. Aqui em Manaus, algumas mulheres começam na área de alimentação e estética, gerando renda. Já os homens são inseridos na construção civil, comércio e prestação de serviços”, afirma Tulio Duarte, diretor-presidente do Hermanitos.
População venezuelana
Nas ruas da capital, as opiniões entre os próprios venezuelanos são divergentes. No último sábado (3), um grupo se reuniu no Largo de São Sebastião para comemorar a prisão de Nicolás Maduro e apoiar a ofensiva dos Estados Unidos. Houve também carreata e buzinaço em avenidas da cidade.
Por outro lado, há quem veja a intervenção com temor. O feirante Aníbal Pérez, de 54 anos, que vive há quatro anos em Manaus, avalia que a invasão pode agravar ainda mais a crise. “Quem ficar lá pode passar dificuldades maiores ainda. Se mais bombas forem lançadas, a fome não vai ser mais a única a matar. Acredito que a busca por petróleo é a única motivação dos EUA. A situação na Venezuela é muito difícil, e infelizmente muitos não tem nem como tentar sair de lá”, disse.
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