Apenas 13% das crianças manauaras de 0 a 3 anos frequentam creches, de acordo com o levantamento da organização Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), via plataforma QEdu. O dado coloca Manaus como segunda pior cobertura entre as capitais brasileiras, superando apenas Macapá (9,1%). O percentual está muito distante da meta prevista no novo Plano Nacional de Educação (PNE) 2026-2036, que estabelece cobertura mínima de 60% para crianças dessa faixa etária.

Na prática, quase 9 em cada 10 crianças de até 3 anos estão fora do sistema de ensino na capital amazonense. O cenário também preocupa entre crianças de 4 e 5 anos. Embora a pré-escola seja obrigatória no Brasil desde 2013, Manaus registra taxa de matrícula de 80%, abaixo do mínimo de 90% considerado adequado nacionalmente.

Para especialistas, o déficit não é apenas numérico; ele representa uma barreira estrutural. Professora infantil há 22 anos, Elizama Ribeiro explica que a creche deixou de ser apenas um espaço assistencialista e passou a exercer papel fundamental no desenvolvimento cognitivo, emocional e social das crianças.

“Essa lacuna compromete a base da pirâmide educacional, já que a educação infantil é o alicerce para as capacidades de relação interpessoal e o acesso à cultura. Assim, sendo um lugar de favorecimento do desenvolvimento social”, ressaltou Elizama.

A professora também destaca que o acesso à creche possui impacto direto na vida das famílias, especialmente das mães que precisam trabalhar. “O cuidado e a educação devem caminhar de mãos dadas para que a criança se desenvolva de forma segura e eficaz, em relação de confiança entre pais e docentes que deixam seus filhos sob cuidados de terceiros”, afirma a professora.

O impacto social dessa carência é sentido na pele por mulheres como Luana Cardoso, moradora da zona Leste da capital. Após meses na fila de espera, a jovem conseguiu uma vaga para o filho Miguel, de 2 anos. Para ela, a creche representa a única ponte possível para o mercado de trabalho.

“Sem a creche eu não conseguia trabalhar. Eu dependia de vizinhos e parentes para olhar meu filho. Quando consegui a vaga, consegui voltar a trabalhar e ajudar dentro de casa. A creche virou um apoio para mim e ajudou muito no desenvolvimento dele”, relatou.

Apenas 13% das crianças de até 3 anos frequentam creches em Manaus
Estudo detalha a urgência de melhorias no sistema de ensino da capital – Foto: Divulgação

Infraestrutura e superlotação
Ao analisar a infraestrutura das unidades existentes, o levantamento do Iede também revela fragilidades: apenas 4% das instituições de ensino infantil em Manaus possuem infraestrutura básica completa. Embora 98% tenham internet, apenas 29% contam com água da rede pública e somente 5% possuem um parque infantil. Os dados ainda mostram que apenas 30% das creches possuem biblioteca ou sala de leitura.

Materiais artísticos estão presentes em 24% das unidades, enquanto jogos e brinquedos pedagógicos aparecem em 76%. Os itens são considerados essenciais pela professora Elizama para o desenvolvimento motor e lúdico: “Educar em creche significa proporcionar situações de cuidado, brincadeiras e aprendizagens orientadas de forma integrada”, ressalta.

Outro problema identificado pelo levantamento é a superlotação. Segundo os dados do Iede, 79% das creches municipais operam acima do número adequado de alunos por professor, o que pode comprometer o acompanhamento pedagógico e o cuidado individual das crianças.

Região Norte
No recorte das capitais da Região Norte, Manaus fica atrás de cidades como Rio Branco, que possui cobertura de 26% para crianças de 0 a 3 anos, Belém (21%), Porto Velho (17%) e Palmas (35%). Entre as capitais nortistas, apenas Macapá apresenta índice inferior ao da capital amazonense, com 9,1%.

Os números acompanham um cenário preocupante em toda a Região Norte. Segundo o levantamento, 94% dos municípios nortistas possuem cobertura inferior a 60% para crianças de até 3 anos, enquanto 29% não conseguem atingir sequer 90% de matrícula na pré-escola.

Semed nega déficit
Em nota, a Secretaria Municipal de Educação de Manaus (Semed) apresentou um contraponto aos dados de cobertura, informando que em 2026 ofertou cerca de 16 mil vagas para a etapa de creche, sendo 11 mil na rede municipal. Segundo a secretaria, a procura efetiva nem sempre acompanha a capacidade instalada, registrando 9.791 inscrições para crianças de 1 e 2 anos, número inferior à oferta. A pasta afirma ainda que muitas famílias desistem das vagas durante o processo de matrícula.

“Atualmente, a Semed atende 10.040 crianças nessa faixa etária, distribuídas em 28 creches e 176 turmas de maternal 3 nos Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs). Mesmo com ampla oferta, a secretaria já se encontra na 4ª chamada para preenchimento das vagas, uma vez que há desistência por parte de famílias ao longo do processo. Embora os estudos de demanda considerem dados do Censo, que estimam o número total de crianças de 0 a 3 anos na cidade, nem todas as famílias optam por inserir seus filhos na creche”, ressalta a Semed.

A Prefeitura destaca que segue ampliando o acesso e garantindo estrutura adequada para atender à população, ao mesmo tempo em que respeita a decisão das famílias e reafirma seu compromisso com a educação infantil, assegurando vagas, acolhimento e qualidade no atendimento às crianças manauaras.

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