A S. M. Publicidade comemorou seu quarto ano de existência com um anúncio publicado na imprensa de Belém em novembro de 1960, um mês depois que Jânio Quadros se elegeu presidente da república prometendo, a um número recorde de brasileiros que nele votaram, limpar o país de suas sujeiras com a vassoura da moralidade pública.

Os brasileiros viviam o fim dos cinco anos de euforia e otimismo de Juscelino Kubitscheck, que se comprometera a fazer o Brasil crescer 50 anos em um quinquênio. Sabiam que era alto o preço desse crescimento econômico exponencial, tanto em inflação quanto em práticas políticas. E estavam dispostos a entregar nas mãos de um político carismático a conta da quitação. Havia motivos para confiança.

Na Amazônia, o progresso parecia bater na porta de entrada, embora não se soubesse exatamente quem seria o beneficiário. A agência de publicidade, dedicada a propaganda, promoção de vendas, relações públicas, pesquisas e outdoor, como dizia seu anúncio, se tornaria porta-voz da elite empresarial paraense. E nessa condição criou o anúncio, que é um exemplar retrato de época. Com ele, prossigo na série de artigos sobre a Amazônia que poderia ter sido, mas não foi.

Nem só de borracha vive a Amazônia…

Mas de outros produtos materiais, e da iniciativa e inteligência dos seus homens.
A associação da goma elástica à economia da imensa planície é ainda um resquício do tempo em que acima de 30% da receita pública da União se deviam ao leite de seringa. Hoje a Amazônia é muito mais do que simples produtora de goma – conquanto continue assegurando ao Brasil o privilégio de ser o único país do mundo com uma grande indústria de artefatos de borracha que produz, igualmente, a sua matéria prima.

Mas outros itens entraram na sua pauta de produção e exportação, diversificando-se a sua própria estrutura econômica. O Brasil deve-lhe agora, sobretudo nos últimos cinco anos, não apenas o suprimento de diversas matérias primas importantes, como a diminuição de seus “déficits” do balanço de pagamentos. Passo a passo, a Amazônia deixa de ser um ônus para o país, para tornar-se um fator positivo de seu crescimento integrado.

Talvez o Sr. não saiba. Então anote alguns pontos importantes para compreensão do papel que a Amazônia desempenha atualmente no Brasil.

No lustro que agora se encerra, verificaram-se fatos como este:

* Mais de 90% da pimenta do reino e de algumas fibras vegetais (jutas e malvas) consumidas pela indústria nacional, provêm agora da Amazônia – até poucos anos gastaram-se preciosas divisas para importá-las.

* Centros de treinamento técnico para extração racional de madeiras, e indústrias para seu aproveitamento foram e continuam a ser instalados. Um projeto já iniciado, por exemplo, fornecerá em breve, anualmente, alguns milhões de dormentes “curados” de que as nossas ferrovias e as do mundo inteiro carecem.

* Estão saindo da Amazônia até 80% do manganês que exportamos pelo Brasil.

* Empresas de pesca da região remetem camarão até para os Estados Unidos.
Mas não é só no setor primário que isto se passa, Indústrias novas surgiram. Tome nota:

* A única refinaria de petróleo ao norte da Bahia encontra-se em Manaus, e abastece de seus derivados todos os Territórios e Estados até o Piauí.

* A única fábrica de cimento em latitude mais setentrional do que da Paraíba está sendo montada em Capanema (Pará). Quando começar a produzir, no primeiro trimestre de 1961, abastecerá todo o Norte.

* Outras indústrias menores estão sendo instaladas ou projetadas: embalagem, madeiras, papel, etc.

No setor de transportes, não é apenas a Belém-Brasília que deve ser registrada no nosso período de análise. Até dezembro ela deverá entrar em tráfego normal. Além da ponte sobre o rio Guamá, já inaugurada, deverá então ficar concluída uma outra ponte sobre o rio Tocantins, com um dos maiores arcos do mundo em concreto protendido: 140 metros de vão. Mas, registra-se igualmente:

* Será inaugurado, em breve, o dique seco de Belém. Poderá receber navios de até 20 mil toneladas, para construção ou reparos. Será o único ponto de apoio para a navegação oceânica entre as Antilhas e o Recife.

* O Sr. encontrará agora, ao seu dispor, uma frota nova dos Snap [Serviço de Navegação da Amazônia e dos Portos do Pará, Snapp, depois substituídos pela Enasa, autarquias federais] que o transportará de Belém até Manaus em menos de uma semana, com todo o conforto dos navios grandes de passageiros.

* 10%, no mínimo, de gasolina de aviação consumida no Brasil é empregada nos imensos percursos amazônicos.

* E, de cada 4 ou 5 aviões que pousam no Aeroporto Internacional de Val-de-Cans (Belém), um pelo menos traz prefixo de empresa regional.

Muitos outros fatos podem ser citados, que demonstram o espírito empreendedor da gente amazônica, e a sua determinação de participar do desenvolvimento regional. Por exemplo:

* Nestes últimos cinco anos foi criada a Universidade do Pará, além de numerosos estabelecimentos de ensino de todos os níveis, surgidos nas diversas unidades da região.

* Surgiram, no mesmo período, numerosas emissoras de rádio, está sendo instalada a primeira estação de TV do Norte [a TV Marajoara, dos Diários Associados, em Belém, [já extinta] e outras estão sendo projetadas.

* Uma cidade como Belém apresenta os mais altos índices de circulação de jornais diários de todas as capitais brasileiros (à exceção do antigo D. F. [o Rio de Janeiro] e de São Paulo).

Mas, apenas para dar-lhe uma ideia das potencialidades da área, que só agora começaram a despertar para a realidade, anote também:

* Cerca de 30 a 40% dos fluxos internos do comércio da Amazônia fazem-se entre unidades da própria região.

* Os saldos favoráveis do comércio exterior da Amazônia têm sido, nos últimos cinco anos, suficientes para atenuar de 10 a 20% os “déficits” do balanço comercial brasileiro em dólares.

Um ato de fé nos destinos da Amazônia

Pois também dentro do quinquênio expirante que surgiu a S. M. Publicidade. Fundá-la foi um ato de fé nos destinos da Amazônia. E outra coisa não temos feito nós senão reafirmar a confiança irrestrita e irremovível no futuro desta região imensa e rica. Para isso temos contribuído com nossa quota, como arautos que temos sido das virtudes e das qualidades daquilo que dá o seu solo fecundo e daquilo que produz o seu homem dinâmico. Essa esperança, de uma Amazônia melhor, começa a se tornar realidade viva e palpável, e essa é uma alegria a mais na festa do 4º aniversário da S. M. Publicidade que hoje comemoramos.


A imagem que abre este artigo pertence ao Arquivo Nacional e mostra cenas da construção da rodovia Belém-Brasília em 1958 (Foto: Reprodução/Arquivo Nacional)


Além de colaborar com a agência Amazônia Real, Lúcio Flávio Pinto mantém quatro blogs, que podem ser consultados gratuitamente nos seguintes endereços:

* lucioflaviopinto.wordpress.com – acompanhamento sintonizado no dia a dia.

* valeqvale.wordpress.com – inteiramente dedicado à maior mineradora do país, dona de Carajás, a maior província mineral do mundo.

* amazoniahj.wordpress.com – uma enciclopédia da Amazônia contemporânea, já com centenas de verbetes, num banco de dados único, sem igual.

* cabanagem180.wordpress.com – documentos e análises sobre a maior rebelião popular da história do Brasil.

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