Em cerimônia no Tucarena, em São Paulo, Kátia Brasil e Elaíze Farias fizeram discursos emocionados sobre o momento histórico do país. Na foto, Kátia Brasil e Elaíze Farias, fundadoras da Agência Amazônia Real, durante a premiação da 46ª edição do Prêmio Vladmir Herzog (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)


As jornalistas Elaíze Farias e Kátia Brasil, fundadoras da agência Amazônia Real, receberam na noite desta terça-feira (25) o Prêmio Vladimir Herzog Especial 2022, em uma noite marcada pela defesa da democracia e da liberdade de imprensa. Em seus discursos, as jornalistas fizeram homenagens e defenderam a Amazônia e os povos da floresta. O médico e escritor Drauzio Varella e o jornalista Dom Phillips (in memoriam), assassinado no Vale do Javari, no Amazonas, também receberam o prêmio especial.

Fortemente aplaudidas, Kátia e Elaíze receberam a premiação das mãos de Cristina Zahar, secretária-executiva da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), que reconheceu a importância do trabalho realizado pela agência de jornalismo independente e investigativo.

“Elas trabalham independentemente dos poderes políticos e sem recursos públicos. São mulheres com M maiúsculo, porque adjetivos não dão conta da grandeza do trabalho. Muito obrigada por dar voz aos povos da Amazônia, por retratar os desmandos que ocorrem na região, por inspirar outras mulheres Brasil afora”, por mostrar que o jornalismo e lutar no lado certo da história ainda vale a pena”, disse a representante da Abraji. 

Em discurso emocionado, Kátia Brasil dedicou a premiação aos povos da Amazônia, à floresta amazônica, a mãe e a avó, mulheres negras que sobreviveram ao patriarcado, e às vítimas de assassinatos na Amazônia, especialmente ao jornalista britânico Dom Phillips e ao indigenista brasileira Bruno Pereira, lembrando o sofrimento marcado pela cobertura jornalística do crime. 

Kátia também fez uma homenagem ao jornalista Lúcio Flávio Pinto, colunista da Amazônia Real que aos 73 anos segue escrevendo sobre a Amazônia; e a toda a equipe corajosa e aos parceiros da agência sediada em Manaus. “Sem o apoio de vocês esse reconhecimento não seria possível”, disse. 

Em seu discurso, a jornalista fez um manifesto contra a censura a uma reportagem da Amazônia Real, que completou três meses no último dia 19 de outubro sem que a Justiça do Amazonas tenha dado uma resposta a uma ação e dois recursos apresentados pela agência. “Muitos jornalistas brasileiros, nesse período em que vivemos, em plena democracia, enfrentam a censura e o assédio judicial”, afirmou. “Essa decisão viola as garantias constitucionais. Se a nossa Constituição nos defende e nós não estamos conseguindo trabalhar por decisões judiciais que violam a liberdade de expressão e liberdade de imprensa, a quem vamos recorrer? Censura nunca mais”, completou.

Para Elaíze Farias, é uma honra ser reconhecida por um prêmio que tem forte conotação histórica e é concedido na data que lembra o assassinato do jornalista Vladimir Herzog pela ditadura militar. 

Também emocionada, ela dedicou a homenagem a mãe e a avó, que a influenciaram a ser uma ouvinte e contadora de histórias, e falou sobre as dificuldades e ataques enfrentados pela Amazônia. 

“Na nossa região, as violações de direitos nunca cessaram, na verdade, só se agravaram. Todos estamos vivendo ataques violentos e sistemáticos. As consequências imediatas são para quem está na Amazônia, mas atingirá a todos, globalmente, nesta e nas próximas gerações”, disse.

Elaíze lembrou que grande parte dos assassinatos cometidos na Amazônia são desconhecidos. “A Amazônia, por debaixo de sua magnífica floresta, é vermelha do sangue de seus protetores. É uma floresta que está deixando de existir em muitas partes da região, consumida pelo fogo do modelo econômico neocolonialista e excludente”, afirmou.

Ela citou nomes de vítimas da violência e disse que é urgente resgatar as histórias dessas pessoas, para que as lutas não sejam esquecidas. Elaíze homenageou Ari Uru-Eu-Wau-Wau,de Rondônia, assassinado em 2020; Paulino Guajajara, do Maranhão, assassinado em 2019; Nazildo dos Santos Brito, quilombola assassinado em 2018, no Pará; Socorro do Burujuba, quilombola ameaçada de morte por denunciar contaminação de mineração, no Pará; os povos da Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas, que têm o  território invadido permanentemente; e Leusa Munduruku, que teve sua casa incendiada por garimpeiros em Jacareacanga, no Pará, em 2021.

Por fim, citou o escritor e também escritor Ailton Krenak, que afirma que as histórias devem ser contadas antes que aconteçam. “Precisamos nos adiantar. Não chegar apenas quando a catástrofe já aconteceu,”, disse. “E quando você conta uma história de um povo, quando você transforma aquele personagem de sua matéria em um sujeito desta história, você está comprometido com eles para sempre”.

Cerimônia

  • Kátia Brasil e Elaíze Farias, fundadoras da Agência Amazônia Real, durante a premiação do 46º Prêmio Vladimir Herzog, no Teatro Tuca Arena, em São Paulo (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)
  • Kátia Brasil e Elaíze Farias, fundadoras da Agência Amazônia Real, durante a premiação do 46º Prêmio Vladimir Herzog, no Teatro Tuca Arena, em São Paulo (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)
  • Kátia Brasil discursa na cerimônia de premiação do 46º Prêmio Vladimir Herzog (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)
  • Elaíze Farias discursa na cerimônia de premiação do 46º Prêmio Vladimir Herzog (Alberto César Araújo/Amazônia Real)
  • Alessandra Sampaio, viúva do jornalista britânico Dom Phillips, e Elaíze Farias, co-fundadora da Agência Amazônia Real, na premiação do 46º Prêmio Vladimir Herzog (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)
  • Alessandra Sampaio, viúva do jornalista britânico Dom Phillips, durante a premiação da 46ª edição Prêmio Vladmir Herzog (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)
  • A jornalista Eliane Brum falou sobre seu livro-reportagem “Banzeiro Okotó”, premiado na 46ª edição do Prêmio Vladmir Herzog (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)
  • Kátia Brasil e Elaíze Farias com Dráuzio Varela, também premiado na 46ª edição do Prêmio Vladmir Herzog (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

A noite de premiações e homenagens foi conduzida pelo jornalista Juca Kfouri e começou ao som de “O Bêbado e a Equilibrista”, canção imortalizada na voz de Elis Regina e que virou hino da anistia na fase final da ditadura militar. 

Além de Kátia e Elaíze, o médico e escritor Drauzio Varella, Alessandra Sampaio, viúva de Dom Phillips, e representantes da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), estatal perseguida no governo Bolsonaro, também discursaram e defenderam a democracia e a liberdade de imprensa.

Herzog e o designer gráfico Elifas Andreato, criador do troféu entregue aos homenageados, foram lembrados como personalidades fundamentais na resistência ao autoritarismo e à violência do Estado no Brasil. 

Os pronunciamentos da noite também foram marcados por críticas ao projeto ditatorial do presidente Jair Bolsonaro (PL) e pela importância de eleger o candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para preservar a democracia e recuperar a defesa dos direitos humanos.

“Essa é uma eleição para salvar o país”, disse Edgar Rebouças, um dos organizadores do Prêmio Herzog. 

Aplaudida de pé pelo público, Alessandra Sampaio levou ao palco do Tucarena uma placa que pede justiça a Dom e Bruno – a mesma placa foi erguida por várias pessoas que estavam na plateia. 

Ela disse que após a morte do marido entendeu melhor a dimensão do trabalho dele e de outros jornalistas e lembrou que Dom Phillips era apaixonado pelo Brasil, pelos brasileiros e especialmente pela Amazônia. 

“Se ele teve que passar por isso, que tenha sido na Amazônia”, disse. Alessandra ouviu de lideranças indígenas que o marido e Bruno estão no caminho para serem encantados e protegerem a floresta.

Sobre o prêmio

Foto dos premiados e premiadas na 46ª edição do Prêmio Vladimir Herzog (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

A noite foi também de entrega do Prêmio Herzog a reportagens sobre direitos humanos escolhidas por um júri formado por especialistas de várias regiões do país. Todos os vencedores de 2022 podem ser conhecidos aqui. Foram premiados diversos veículos nas categorias arte, fotografia, áudio, multimídia, vídeo, texto e livro-reportagem. O livro “Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo”, da jornalista Eliane Brum, venceu na categoria livro-reportagem. 

A premiação especial é um reconhecimento das seguintes organizações, além do Instituto Vladimir Herzog e da família Herzog: Associação Brasileira de Imprensa (ABI); Associação Brasileira de Jornalistas Investigativo (Abraji); Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo; Conectas Direitos Humanos; Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil – OAB Nacional; Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – ECA/USP; Federação Nacional dos Jornalistas – FENAJ; Ordem dos Advogados do Brasil – Secção São Paulo; Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo; Periferia em Movimento; Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo; e Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – Intercom.

O Prêmio Vladimir Herzog foi criado em 1978 durante o Congresso Brasileiro de Anistia, realizado em Belo Horizonte (MG). Perseu Abramo (1929-1996), então diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, deu a ideia de batizar a premiação com o nome de Vladimir Herzog, jornalista assassinado pela ditadura militar brasileira em outubro de 1975 e símbolo da resistência contra o regime autoritário instaurado no país em 1964.

Veja abaixo todas as reportagens premiadas:

ARTE

Vencedora

“Três mulheres da Craco”

Autoria: Carol Ito

Veículo: Revista Piauí

Menção honrosa

“Pós-Estupro”

Autoria: Brum

Veículo: Jornal Tribuna do Norte

FOTOGRAFIA

Vencedora

“A dor da fome”

Autoria: Domingos Peixoto

Veículo: Extra

Menção honrosa

“A narrativa desumanizante em torno dos assassinatos policiais no Rio de Janeiro”

Autoria: Fabio Teixeira

Veículo: plataforma9p9

PRODUÇÃO JORNALÍSTICA EM ÁUDIO

Vencedora

“O que os olhos não veem”

Autoria: Ciro Barros (reportagem; entrevistas e locução), Ricardo Terto (produção, roteiro e edição de som); José Cícero da Silva (reportagem, entrevistas e locução); Alexandre de Maio (ilustrações); Natalia Viana (supervisão e coordenação jornalística)

Veículo: Agência Pública

Menção honrosa

“Não sou mais o Pedro”

Autoria: Tomás Chiaverini

Veículo: Rádio Escafandro

PRODUÇÃO JORNALÍSTICA EM MULTIMÍDIA

Vencedora

“Mortes invisíveis”

Autoria: Amanda Rossi, Saulo Pereira Guimarães, José Dacau (repórteres); Flávio VM Costa (editor e coordenador do núcleo investigativo); Lúcia Valentim Rodrigues (editor); Yasmin Ayumi (arte); Gisele Pungan e René Cardillo (editor de arte); Douglas Lambert (filmagens) e Olívia Fraga (edição)

Veículo: UOL

Menção honrosa

“A rota do tráfico humano na fronteira da Amazônia”

Autoria: Mirelle Pinheiro

Veículo: Metrópoles

PRODUÇÃO JORNALÍSTICA EM TEXTO

Vencedora

“Cercados e vigiados – PF legaliza seguranças que aterrorizam moradores de antiga usina de açúcar em Pernambuco”

Autoria: Alice de Souza, Brenda Alcântara (fotografia) e Paula Bianchi (edição)

Veículo: The Intercept Brasil

Menção honrosa

“Mineração arada: quilombolas barram avanço de empresa inglesa na Chapada Diamantina”

Autoria: Daniel Camargos, Fernando Martinho (repórter fotográfico)

Veículo: Repórter Brasil

PRODUÇÃO JORNALÍSTICA EM VÍDEO

Vencedora

“Crianças yanomami sofrem com desnutrição e falta de atendimento médico”

Autoria: Alexandre Hisayasu, Valéria Oliveira dos Santos, Henrique Souza Filho, Alexandro de Oliveira Pereira, Luciane Marques de Oliveira, Wagner Luis Suzuki,  Gustavo Pereira Pacheco, Everton Altafim, Anderson da Silva, Luciano Abreu

Veículo: Rede Globo

Menção honrosa

“Não merecia ser humilhado: PM arrasta suspeito em moto e recria cena da escravidão em São Paulo”

Autoria: Guilherme Belarmino, Marconi Matos, Eduardo de Paula, Marcos Barcarollo, Raphael Moura, Marco Aurélio Silva,Aline Lima, Esther Radaelli, Renato Nogueira Neto André Alaniz, Flávio Lordello, Iuri Barcelos

Veículo: Rede Globo / Fantástico

Menção honrosa

“Identidade, o direito à vida transvesti”

Autoria: Silvia Bessa, Luiz Henrique Carneiro, Marcionila Teixeira de Siqueira,Diego Vieira Nigro de Almeida 

Veículo: TV ESA PE e TV Universitária PE

LIVRO-REPORTAGEM

Vencedora

“Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo”

Autora: Eliane Brum

Editora: Companhia das Letras

Livro-reportagem

Menção honrosa

“Dano colateral: A intervenção dos militares na segurança pública”

Autora: Natalia Viana

Editora: Objetiva

Livro-reportagem

Menção honrosa

“Meninos malabares: retratos do trabalho infantil no Brasil”

Autores: Bruna Ribeiro e Tiago Queiroz Luciano

Editora: Panda Books

Livro-reportagem

Trust

  1. Origem e metodologia

A reportagem acompanhou a entrega do Prêmio Herzog no Tucarena, em São Paulo, na noite de 25 de outubro. Foram ouvidos todos os discursos e foi realizada uma pesquisa sobre a premiação histórica. 

  1. Citações e Referências

“Se a nossa Constituição nos defende e nós não estamos conseguindo trabalhar por decisões judiciais que violam a liberdade de expressão e liberdade de imprensa, a quem vamos recorrer?”

Kátia Brasil, fundadora da Amazônia Real

“Quando você conta uma história de um povo, quando você transforma aquele personagem de sua matéria em um sujeito desta história, você está comprometido com eles para sempre”

Elaíze Farias, fundadora da Amazônia Real

  1. Links

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