A investigação sobre a morte de Benício Xavier de Freitas, de 6 anos, ocorrida entre sábado (23/11) e a madrugada do último domingo (24/11) no Hospital Santa Júlia, em Manaus, avança com depoimentos conflitantes sobre o atendimento prestado à criança.

Segundo o delegado Marcelo Martins, titular do 24º Distrito Integrado de Polícia (DIP), a Polícia Civil do Amazonas (PC-AM) apura o caso como homicídio doloso qualificado pela crueldade. A defesa da médica Juliana Brasil Santos, que atendeu o menino no hospital, nega veementemente qualquer intenção ou negligência.

Defesa da médica alega “erro multisistêmico”
A médica, investigada por prescrever adrenalina de forma incorreta, prestou depoimento na manhã desta sexta-feira (28/11) e deixou a delegacia sem falar com a imprensa. A defesa afirma que ela não teve intenção de causar a morte de Benício.

“Nenhum médico sai de casa para matar ninguém ou assumir o risco de matar”, declarou o advogado Felipe Braga de Oliveira, negando dolo eventual e afirmando que a médica “está profundamente abalada”.

Ele sustenta que o caso envolve “erros diversos do sistema, falhas de dupla checagem e elementos que precisam ser apurados”.

O advogado disse ainda que Juliana tentou socorrer a criança imediatamente e até solicitou o uso de um suposto antídoto, versão contestada pela polícia.

“É um problema multisistêmico, e a investigação trará à tona todas as falhas e circunstâncias”, completou.

O advogado reforçou que a médica trabalha há quase seis anos na área da pediatria, não representa risco social e está colaborando com as autoridades. Ela recebeu habeas corpus preventivo e responderá a acusação em liberdade.

Caso Benício: médica e técnica de enfermagem dão versões diferentes sobre overdose de adrenalina
Médica Juliana Brasil Santos que atendeu Benício Xavier Freitas, de 6 anos – Fotos: Reprodução

Delegado contesta versão
No entanto, o delegado Marcelo Martins afirmou que a alegação da defesa da médica não procede: “Não existe antídoto para overdose de adrenalina”, declarou. Segundo ele, médicos experientes ouvidos no caso confirmaram que, diante desse tipo de erro, apenas soro poderia ser administrado.

O delegado responsável pelo caso defende que a conduta da profissional configura dolo eventual: “A polícia acredita que houve indiferença em relação à vida da vítima. A médica teria sido acionada e não demonstrou urgência no atendimento, segundo testemunha que estava no local”, disse em coletiva de imprensa.

O delegado explicou que solicitou a prisão da médica para proteger outros pacientes: “Se ela não verificou a prescrição para esta criança, quem garante que não fará novamente?”.

Versão da técnica de enfermagem
A técnica de enfermagem Raiza Bentes, de 22 anos, formada há apenas sete meses, também apresentou versão que confronta o depoimento da médica. Ela afirmou que a prescrição era adrenalina por via intravenosa e não por nebulização.

Raiza reconheceu ter aplicado apenas uma dose da medicação pura, sem diluição, conforme a receita, embora a prescrição indicasse três.

“A mãe perguntou se tinha nebulização e eu disse que não. Estava prescrito intravenoso. A criança ficou pálida, reclamou que o coração “estava queimando” e teve dificuldade para respirar. A equipe de enfermagem tentou reverter o quadro até a chegada da médica. Eu fiz o que estava escrito. Técnico não pode fazer nada sem prescrição médica”, contou em coletiva de imprensa, após prestar depoimento no 24º DIP.

Segundo a técnica, quando a médica Juliana chegou à sala, “quis procurar culpados” e chegou a indagar a mãe: “Eu não falei que era pra fazer nebulização?”.

O que dizem documentos?
No prontuário anexado ao inquérito, a própria médica admite ter prescrito a adrenalina por via errada: “Prescrevi erroneamente adrenalina por via EV, sendo que orientei verbalmente a via inalatória”, diz o documento.

Já outros médicos confirmaram à delegacia que Benício sofreu uma overdose de adrenalina, que provocou pelo menos seis paradas cardíacas antes da morte.

Versão da família
O pai do menino, Bruno Freitas, disse que levou o filho ao hospital com tosse seca e suspeita de laringite. A médica teria prescrito lavagem nasal, soro, xarope e três doses de adrenalina intravenosa, de 3 ml a cada 30 minutos.

A mãe questionou a técnica sobre a via da medicação, afirmando que o menino sempre havia recebido adrenalina por nebulização. Mesmo hesitante, a técnica respondeu que seguiria o que estava prescrito.

Após a primeira aplicação, o estado de Benício piorou rapidamente. Ele foi levado para a sala vermelha, onde sofreu paradas cardíacas. À noite, foi transferido para um leito de UTI, onde seu quadro se agravou. Benício morreu às 2h55 da madrugada do domingo (23/11).

Desdobramentos
O Hospital Santa Júlia confirmou o afastamento da médica e da técnica e o Conselho Regional de Medicina do Estado do Amazonas (CREMAM) abriu procedimento ético-profissional, que tramita sob sigilo.

A PC-AM fará nova acareação entre a médica e a técnica, devido às divergências nos relatos. As investigações continuam para definir responsabilidades.

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