Os bairros Novo Aleixo, Cidade de Deus, Cidade Nova, Amazonino Mendes e áreas próximas à avenida das Torres concentram alguns dos principais gargalos históricos de alagamentos em Manaus, de acordo com urbanistas e engenheiros consultados pelo Toda Hora. Especialistas apontam que o problema se espalha por diferentes regiões da capital, atingindo desde áreas periféricas até a região Central, conjuntos habitacionais e bairros de classe média, como Compensa, na zona Oeste, e Vieiralves e Nossa Senhora das Graças, na zona Centro-Sul.
Segundo os especialistas, a combinação entre crescimento desordenado, impermeabilização do solo, ocupação irregular às margens de igarapés e falta de manutenção da drenagem têm agravado os impactos das fortes chuvas.
Entre 2024 e 2025, a prefeitura de Manaus identificou 118 pontos críticos de inundação na cidade. Já o Serviço Geológico do Brasil (SGB) estima que cerca de 112 mil pessoas vivam em áreas de alto ou muito alto risco para enchentes, erosões e deslizamentos.
Para a população que reside nestas áreas, o início do período de chuvas é sinônimo de perdas materiais e abalo psicológico. Moradora do bairro Amazonino Mendes, na zona Leste, Laura Rodrigues, 34, afirma conviver há anos com os prejuízos provocados pelos alagamentos.
“Me mudei três vezes para ruas diferentes no mesmo bairro, mas não escapo dos alagamentos. Moro na Rua Gregório, há 6 anos, e sempre que chove é um desespero. Já perdemos móveis, roupas e até documentos. Os bueiros entopem por causa do lixo que não tem pra onde escoar. Um igarapé próximo transborda e aumenta o prejuízo”, relata.
Diagnóstico de alagamentos
Para especialistas, as soluções para os alagamentos são conhecidas, mas exigem investimentos de longo prazo e continuidade administrativa. Entre as principais medidas apontadas estão a recuperação e desobstrução de igarapés, a modernização das galerias pluviais, a implantação de reservatórios subterrâneos, a ampliação de áreas verdes e o controle da impermeabilização do solo urbano.
Para a arquiteta e urbanista Melissa Toledo, do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Amazonas (CAU-AM), Manaus padece de ausência de planejamento preventivo. “Os recursos são empregados em respostas emergenciais ao invés de estruturar políticas de preservação contínua do sistema de micro e macrodrenagem. (…) O curso dos igarapés também foi drasticamente reduzido por construções e assoreamento, crescimento populacional e mudanças climáticas. Drenagem, ruas e galerias exigem ações constantes para o escoamento da água da chuva”, explicou.
A análise é endossada pelo especialista em planejamento urbano, Jean Faria. Segundo ele, a instalação do asfalto costuma ocorrer de forma invertida, sem a prévia implantação de redes subterrâneas de saneamento e escoamento, gerando o represamento das galerias pluviais.
“O lixo entope bueiros e canaletas, mas é injusto culpar apenas a população. Sem coleta eficiente, fiscalização e engenharia hidráulica séria, o caos se repete a cada chuva. A ausência de fiscalização em áreas ambientais agrava ainda mais os riscos”, afirma. Faria sugere a transição para métodos de engenharia verde e investimentos de longo prazo.
Resposta institucional
Em contrapartida às críticas sobre o atraso na infraestrutura, a Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf) destaca que “mantém frentes de obras ativas em todas as zonas urbanas para minimizar o impacto das precipitações, assegurar a mobilidade e a segurança da população”.
A secretaria exemplificou as ações preventivas com intervenções recentes nas ruas Maiko e Alexandre Magno, localizadas no bairro Parque 10 de Novembro. Nos trechos, os trabalhos incluem reconstrução de galerias, meio-fio, sarjetas e calçadas para melhorar o escoamento das águas pluviais. Apesar de questionada, a pasta não informou o cronograma de obras de drenagem para os próximos meses.
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