Em meio aos desafios históricos de acesso a mercado e renda, comunidades ribeirinhas e indígenas do Amazonas vêm encontrando no empreendedorismo uma alternativa concreta para transformar suas realidades. Iniciativas que unem produção sustentável, valorização cultural e organização coletiva têm impulsionado a economia local, da floresta para o mercado.
Empresas como a Na’kau, a Rico Amazônia e associações como o Núcleo de Arte e Cultura Indígena de Barcelos (Nacib) mostram como negócios podem gerar renda ao mesmo tempo em que preservam o meio ambiente e os saberes tradicionais.
Cacau valorizado
No caso da Na’kau, o modelo de negócio parte da valorização do produtor. A empresa atua desde 2013 na construção de uma rede de agricultores familiares e compra o cacau diretamente das comunidades, pagando acima do valor de mercado.
Enquanto o quilo do cacau costuma ser vendido por cerca de R$ 8, chegando a até R$ 12 após passar por atravessadores, a empresa paga entre R$ 16 e R$ 17 diretamente ao produtor, especialmente quando há certificação orgânica.
Além do preço, o projeto inclui treinamentos, fornecimento de equipamentos e acompanhamento técnico, elevando a qualidade da produção e incentivando a permanência das famílias na atividade.
“Há 32 anos trabalho com cacau. Antes só quebrávamos de qualquer jeito. Hoje aprendemos a selecionar melhor e produzir com qualidade. O meu cacau já é o melhor do Amazonas”, relata o agricultor Seu Joel, da comunidade São José, em Borba.
Atualmente, de acordo com a empresa, a iniciativa impacta diretamente mais de 36 famílias em sete municípios e contribui para a conservação de mais de 5 mil hectares de floresta.
Farinha com valor agregado
Outro exemplo é a Rico Amazônia, criada em 2020 durante a pandemia. O negócio surgiu de forma simples, mas rapidamente se estruturou e hoje integra o Distrito de Micro e Pequenas Empresas (Dimicro), em Manaus. A empresa trabalha em parceria com comunidades agroextrativistas e associações locais de Alvarães, Uarini, Tefé e Maraã garantindo qualidade, rastreabilidade e respeito às práticas tradicionais.
A farinha é produzida em versões como filé, ovinha e ova e segue padrões de higiene e qualidade reconhecidos, e já alcança mercados fora do estado, com preços a partir de R$ 20. Para produtoras como Maria Francielly, a atividade vai além da renda.
“A farinha da minha família está sendo valorizada. Quero estudar algo ligado à agricultura para melhorar ainda mais nossa produção”, afirma.
Artesanato indígena
Em Barcelos, o artesanato indígena também se consolida como atividade econômica. Por meio do Núcleo de Arte e Cultura Indígena de Barcelos, artesãos de diferentes etnias produzem peças que carregam identidade cultural e técnicas ancestrais. A atividade garante renda às comunidades e fortalece a preservação ambiental, já que a matéria-prima é retirada da floresta de forma sustentável, respeitando os ciclos naturais.
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