O evento de lançamento, no Rio de Janeiro, foi marcado pela ausência de Marina Silva e pela presença solitária de uma única indígena, a ativista Samela Sateré-Mawé (Foto: Edda Ribeiro/Amazônia Real)
Rio de Janeiro (RJ) – Uma única representante indígena esteve presente no lançamento do Climate Hub, centro regional de pesquisas da Universidade de Columbia para mudanças climáticas, que será sediado na capital fluminense. Para a ativista e estudante indígena Samela Sateré-Mawé, isso é, no mínimo, preocupante. “Precisamos que mais de nós estejam aqui incentivando e falando sobre a visão e a perspectiva dos povos indígenas em relação ao território e ao meio ambiente”, disse à Amazônia Real.
A entidade, ligada à prestigiosa universidade norte-americana, promoverá a participação de pesquisadores junto a programas educacionais no Brasil, intercâmbio de pesquisas e estudantes, eventos ligados ao debate das questões climáticas, incluindo os subtemas da transição energética, uso da terra e equidade climática, e caminhar na produção de ações de política climática, no Brasil e globalmente.
Samela Sateré-Mawé, uma das jovens lideranças indígenas que se destaca pela coragem em apontar o dedo na ferida, tem denunciado a destruição ambiental em territórios de seus povos, inclusive em fóruns mundiais. Em 2021, ela foi a Glasgow, na Escócia, onde participou da COP26, ao lado da também emergente liderança Txai Suruí. “Espero que com essa minha participação (no lançamento do Climate Hub) eu consiga abrir mais espaços e caminhos”, reforçou a ativista.
Pelo governo federal, o embaixador e assessor especial da Presidência da República, Celso Amorim, sem responder diretamente à constatação da ativista Samela, lembrou que a razão de ser de centros como o Climate Hub será dar maior foco em debater e discutir temas ligados às mudanças climáticas, como meio ambiente, temas sociais e relativos a populações indígenas. “A questão indígena se insere nesse contexto, assim como a questão do meio ambiente, especialmente a questão climática e de florestas. Há uma consciência forte nesse quadro, já não é um tema a mais e que venha a somar a outros”, disse Amorim.
A ministra Marina Silva, do Meio Ambiente e das Mudanças Climáticas, não compareceu por motivos de saúde. A liderança indígena Juma Xipaya, que também estava prevista na programação, foi outra ausência. Celso Amorim fez questão de citar a sua colega de governo. “‘Plagiando aqui’ a própria Marina [Silva], é um tema de grande transversalidade, presente em processos jurídicos, de integração, inclusive em questões da guerra e da paz”, lembrando que questões climáticas geram problemas migratórios e conflitos de vários tipos.
Na sequência, Ana Toni, secretária Nacional de Mudanças do Clima, ligada ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima no Brasil, endossou a fala de Amorim sobre as próximas medidas do governo, mas ainda olhando para o retrovisor. “Fica claro que, nos últimos quatro anos, o governo federal andou para trás no termo de mudanças do clima. Chegando aqui, vemos o desespero de servidores que têm essa agenda prioritária para eles. Agora, o Brasil está de volta”, afirmou.
Iniciativa popular

O Climate Hub pretende ampliar a cooperação da comunidade acadêmica da Universidade de Columbia com o Brasil. O projeto oferecerá bolsas de estudos para pesquisadores e cientistas brasileiros, para desenvolvimento de projetos no país e também na Universidade de Columbia, em Nova York.
No evento de criação do Climate Hub, nesta terça-feira (14), foi realizado o painel Cooperação Internacional em Mudanças Climáticas: Perspectivas da Saúde Pública, Florestas e Direitos Indígenas. Samela, que é do Amazonas, anunciou a criação do Amazônia de Pé, um projeto de lei de iniciativa popular que visa destinar áreas na região amazônica que não tem destinação para terras indígenas e unidades de conservação. No site oficial da campanha, é possível participar e organizar assinaturas em sua região para levar o projeto adiante.
“Há pesquisas científicas que os territórios indígenas e tais unidades são os territórios no Brasil que mais têm preservação da biodiversidade, e que mais se preserva a fauna e a flora”, ressaltou Samela. Segundo a chamada da campanha, o projeto também quer maior penalização para o roubo de terras, a grilagem, e inativar os registros irregulares em terras públicas.
“Sofremos vários tipos de restrições à saúde dos povos indígenas por consequência das mudanças climáticas e das ações nos territórios. Muitas delas aconteceram nos Yanomami, como vimos recentemente, além dos povos no Tapajós, como os Kayapós e o povo Munduruku, relacionados a mudanças e ações que ocorrem após anos de desmonte e desestruturação de órgãos de fiscalizações representação dos povos, como Ibama e Icmbio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade)”, ressaltou Samela, citando agravamento de doenças entre os povos indígenas, como a malária, diarréia e outras.
“Algumas pessoas vem me falar que ‘é muita terra para pouco índio’, ou que a gente tem muito território para caçar; então, por que os indígenas estão passando fome dentro de uma floresta tão grande? É porque as consequências dessas ações acabam afugentando animais que são fonte de alimentação; é só doar cesta básica? Não. É preciso considerar também o princípio de alimentação dos povos, e não apenas um arroz, feijão ou enlatado que vai alimentar”, explica a ativista.
Cooperação internacional
Os representantes do governo federal não deixaram de lembrar que algumas medidas foram adotadas já nos primeiros dias do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e outras virão a ser implementadas nos próximos meses. Entre elas, a criação de uma secretaria especialmente dedicada ao combate ao desmatamento, com objetivo de acabar com o desmatamento em todos os biomas brasileiros até 2030.
Duas novas secretarias, a de Bioeconomia e a Nacional de Mudança do Clima, e mais a recriação do Fundo Amazônia, também fazem parte da nova estratégia do governo brasileiro em reposicionar o Brasil no protagonismo dos debates mundiais sobre a contenção do aquecimento global. Nunca é demais lembrar o desapontamento do governo brasileiro depois da promessa do governo dos Estados Unidos de doar apenas 50 milhões de dólares para o Fundo Amazônia, conforme anunciou o presidente dos EUA, Joe Biden, ao lado de Lula, na visita oficial do líder brasileiro a Washington, em fevereiro deste ano.
“No plano internacional, há projetos que o presidente Lula já tem mencionado, como a cúpula dos países da Amazônia; também temos a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica, mas ainda houve uma reunião de cúpula, será a primeira vez, e o Brasil quer fazer disso um grande evento que demonstre a nossa prioridade. Não é uma questão que se possa resolver sozinho, e sim em cooperação com outros países”, acrescentou Amorim, lembrando que a oferta do Brasil para sediar a COP30 também é outra demonstração da centralidade do tema climático no governo.
Em agradecimento à cidade do Rio de Janeiro e ao país, Thomas Trebat, diretor do Columbia Global Center, declarou que há uma estrada de mão dupla [na iniciativa], com troca de informações e parcerias para solucionar problemas comuns. “Inaugurar um centro de pesquisas sobre mudanças climáticas em uma cidade como o Rio é fundamental para o nosso presente e o futuro. Esperamos colaborar e aprender com as comunidades científicas e acadêmicas brasileiras, para construirmos soluções para urgências climáticas das comunidades locais e globais”, disse. Participaram também do evento o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, além de lideranças locais.
Até então, o Rio era parte de uma rede de dez centros globais da Universidade de Columbia. A criação do Climate Hub nasce com o objetivo de ampliar as ações de integração da universidade com a cidade do Rio de Janeiro, cidade-sede de eventos como a ECO-92 e a Rio+20.
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