Fotógrafo exibe no Sesc Roraima imagens de destruição da Amazônia e afirma que o projeto é a sua despedida da vida (Foto: Wank Carmo).


Vinte e uma obras fotográficas que mostram a destruição e a resistência da Amazônia fazem parte da exposição “Último Jardim”, do fotógrafo Wank Carmo, no Sesc Mecejana, Boa Vista (Roraima). A mostra fica em cartaz até o dia 31 de março. São imagens coloridas, registradas em várias regiões da Amazônia desde a década de 1980. 

“Não se trata somente de arte fotográfica, mas de sentimentos e certezas sobre a irreversibilidade da destruição da Amazônia. Uma parte da nação brasileira optou pelo caminho da extinção humana. Futuramente não fotografarei mais os jardins que fotografei ontem”, diz Wank. 

O artista possui centenas de fotos sobre os ataques à biodiversidade e afirma que o projeto “Último Jardim” é o início de sua despedida da vida, junto com as árvores centenárias que já morreram e as que ainda vão morrer.

Em texto sobre o projeto, ele diz que essas árvores já salvaram milhões de vidas de indígenas, ribeirinhos e a sua própria por meio das seivas “milagrosas”.  

“A cada estiagem presencio todos os mecanismos humanos para carbonizar a maior e melhor farmácia a céu aberto desse planeta”, conta. “Hoje estou envolvido na documentação do que resta da Amazônia. A floresta não é mais tão grande como parece, se compararmos com a Amazônia do início dos anos 1960”.

Wank é fotógrafo desde 1974, quando manuseava uma câmera de plástico e, por instinto, usava a contraluz para trabalhar as imagens em filmes preto e branco. A partir daí, mergulhou em pesquisas sobre revelação e ampliação de cópias fotográficas em preto e branco, dentro do processo fine art, que proporciona longa duração das cópias para galerias de arte e colecionadores. 

Em sua trajetória, já realizou várias exposições individuais e coletivas em locais como o Museu Integrado de Roraima, Casa da Intendência de Boa Vista (RR) e em unidades do Sesc em São Luís (MA), Palmas (TO), Cuiabá (MT), Rio Branco (AC) e Porto Velho (RO). 

O fotógrafo participou da I Bienal Internacional de Fotografia de Curitiba, em 1996, e fez diversas palestras, workshops e encontros com professores, estudantes e outros interessados na arte fotográfica. Também publicou em jornais e revistas brasileiros.

Além disso, é fundador da primeira escola de fotografia de Roraima, com uma biblioteca com mil obras literárias técnicas sobre fotografia, cinema, publicidade, design, pensadores, romancistas e poetas.

Após várias experiências embrenhado na floresta, Wank sentiu algo diferente nos últimos quatro anos. “Algo me puxou para dentro da floresta com um sentimento muito forte de despedida e fui onde o ser humano jamais botou os pés”, relata. “O que vi torna-se quase indescritível. Encontrei uma parte do meu jardim intacto”. Segundo ele, perceber lugares onde o “espírito destruidor” não colocou os pés é indescritível. 

“Lembrei de Susan Sontag quando ela diz na obra ‘Ensaio sobre fotografia’ que o ser humano se regala com meras imagens da realidade”, diz. “Fui na contramão e iniciei o fracionamento do universo florestal com seus matizes, formas fantásticas e texturas. Naqueles momentos senti que meu último jardim é o mesmo Éden de bilhões de anos atrás”.

Sobre a despedida da vida, o fotógrafo diz sentir que está morrendo com a floresta e por isso a abraça.

“O meu relógio biológico só está um pouco mais lento do que as causas que corroem as entranhas e as beiradas da selva”, descreve. “Estou sim muito angustiado com o que escuto, vejo e registro e provavelmente seja esse sentimento que me levou a adentrar mais fundo na floresta, onde o ser humano jamais colocou os pés”.   

Para ele, o reencontro com a floresta o abençoou. “Enfim encontrei o lugar onde sinto a paz. Um lugar bom para viver e morrer”, afirma.

“Sou louco pela natureza intacta”, declarou Wank em 2015, em entrevista para a Amazônia Real. Na ocasião, ele declarou ser filho do fotojornalismo e do documentarismo. E um grande artista, como comprova a exposição em cartaz no Sesc de Roraima. 

  • Fotos da exposição fotográfica “Último Jardim” de Wank Carmo.
  • Fotos da exposição fotográfica “Último Jardim” de Wank Carmo.
  • Fotos da exposição fotográfica “Último Jardim” de Wank Carmo.
  • Fotos da exposição fotográfica “Último Jardim” de Wank Carmo.
  • Fotos da exposição fotográfica “Último Jardim” de Wank Carmo.
  • Fotos da exposição fotográfica “Último Jardim” de Wank Carmo.

Exposição fotográfica ‘Último Jardim’ 

Onde: Sesc Mecejana (rua João Barbosa, 143, bairro Mecejana, Boa Vista, Roraima)

Quando: até o dia 31 de março

Horário: 8h às 12h e 14h às 18h

Gratuito


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