Este é um texto que escrevi exatamente 40 anos atrás. Demarca um momento de transição na escalada de destruição da floresta amazônica. Por isso o reproduzo, em duas partes.

A floresta amazônica encerra uma contradição que seus pesquisadores ainda não conseguiram resolver satisfatoriamente e que pode facilitar a sua destruição. Cartograficamente, ela é a última grande floresta tropical do planeta. A partir dessa constatação, todas as deduções são possíveis, por simples cruzamento de dados. Os acontecimentos têm tornado essa indicação científica em uma divagação metafísica. Quando não, matéria de arqueologia destinada a museus.

Grupos de estudiosos que desenvolvem seus trabalhos à sombra de instituições oficiais e sob a enérgica de empreendedores econômicos privados fazem, da floresta amazônica, uma revisão cientificista que contradiz o patrimônio de conhecimento legado pelos naturalistas do século XIX.

Aqueles homens de ciência não tinham à mão os recursos tecnológicos sofisticados do mundo contemporâneo, que dão ao olho da máquina a capacidade de conferir, legitimar e sancionar a verdade. Mas também não estavam sob a mesma pressão do empreendimento econômico dos nossos dias.

No século XIX a Amazônia era vista como uma reserva pelo investidor. Por circunstâncias históricas diversas, ele optou pela África e pela Ásia como o local da aplicação imediata do seu capital. Desde o final da Segunda Guerra Mundial, não por acaso, quando muitos dos recursos naturais já estavam ameaçados ou em vias de esgotamento ou com elevados custos de extração nas colônias mais antigas, a Amazônia deixou de ser uma previsão de uso distante. Passou a fazer parte do circuito do capital e da divisão internacional do trabalho.

O olho do homem

Os naturalistas se dividiram no amplo espectro visionário que ia do celeiro do mundo ao inferno verde. Coincidiam, porém, em um ponto: o que interessava era o universo derivado da floresta e ao seu redor. O extrativismo lhes dava a trégua do tempo para especularem e testarem as hipóteses de estudo e de uso.

Já o capitalismo mundial tem pressa e confia apenas na eficácia das suas máquinas, algumas das quais são humanas. Estas últimas vêm instilando um preconceito insidioso contra a floresta tropical amazônica, tanto mais eficaz porque vendido com as tinturas de verdade científica, testada em experimentos, ainda que saibamos bastante sobre as condições artificiais em que esses testes são feitos,

Não muito atrás, quando o Projeto Radam (Radar da Amazônia) iniciava sua cobertura “radâmica” da Amazônia (no sentido da sua superficialidade), um dos cientistas incorporados aos quadros da instituição apostou na conveniência de substituir a floresta por pastagem, apostando até mesmo em ganhos na produtividade fotossintética.

Logo depois, outro “sacerdote” do saber pasteurizado sobre a Amazônia proclamou que a floresta é senil. Assim, nada melhor do que substituí-la por árvores, arbustos e plantas novas. Por mera coincidência, elas dispõem de grande aceitação no mercado internacional, como dendê, cacau, pimenta do reino, seringueira, café.

Esses cientistas só se considerarão satisfeitos e realizados quando a paisagem atual, compostas por árvores velhas e decrépitas, criadas há décadas e séculos, pelo processo natural de competição e seleção, tiver sido substituída por extensas plantações homogêneas.

Querem alinhar as plantas como se fossem soldados vegetais da guerra pela venda comercial no mundo. Não importa que seja uma guerra condicionada previamente ao insucesso pelo descompasso em que fica a Amazônia nas relações de troca em um mundo que partilhou adredemente as funções antes de especializá-la na velha função colonial, repassada com tintura nova, cientificista, e com o endosso cúmplice do Estado nacional.

A Amazônia não é vista mais a partir de dentro, como era nas longas e demoradas caminhadas de naturalistas e aventureiros (personagens de um laissez-faire extinto pela organização econômica em torno dos monopólios) pelos rios e suas matas ciliares. A visão atual, intermediada pela máquina, é condicionada pelas demandas externas, sejam elas de Brasília, São Paulo, Nova York ou Tóquio.

Acredita-se que, a partir da identificação grosseira ou generalista dos recursos naturais, explorá-los será tarefa facilitada pelo know-how acumulada nas experiências em outras colônias. Mesmo o esforço localizado de gerar conhecimentos se enquadra numa bitola pré-determinada, a da valoração econômica.

A Amazônia tem valor pelo que pode oferecer para atender o elenco de produtos requeridos pelos parceiros comerciais do Brasil. O modelo econômico é uma diretriz já estabelecida, à qual se ajusta o quadro de recursos naturais da região. Não se tem exemplo significativo de um processo inverso. Daí a multiplicação de situações que só admitem uma definição: irracionalismo.

Quantos seres vivos foram extintos antes de sequer serem identificados e descritos para em seu lugar surgir uma atividade econômica transitória ou efêmera, de pouca ou nenhuma expressão para o benefício da população local ou de outras partes do mundo? O capital não se fixa depois de servir ao seu plano de uso. Sua permanência e passagem são medidas pela taxa de lucro, para cuja grandeza e duração o Estado contribui com seus subsídios.

O fracasso do milionário

Há um exemplo definitivamente elucidativo sobre essa estratégia. Convencido por seu staff que no final do século XX haveria uma crise mundial de fibras e de grãos, o milionário americano Daniel Ludwig imaginou se tornar um dos principais fornecedores desses produtos. Ele daria um autêntico pulo do gato: extrair celulose de uma árvore até então nunca usada industrialmente com essa finalidade, mas que tinha um crescimento espantoso, muito mais acelerado do que o das árvores convencionais de celulose.

Ludwig foi buscar essa árvore na Ásia, a aclimatou na África (seguindo a nova trilha dos bwanas) e a plantou no solo do Pará. Mas hoje a gmelina arbórea responde por menos de um terço da oferta de madeira para celulose no Jari [depois, foi completamente erradicada das plantações] e representou um dos grandes fracassos dos “grandes projetos” na Amazônia.

Após investimento direto de 150 milhões de dólares para derrubar 93 mil hectares de floresta nativa e formar um plantio homogêneo de espécies exóticas (que acabou sendo só de eucalipto], a grande lição que Ludwig pôde dar foi de como não fazer um projeto florestal, façanha digna de um Guiness dos absurdos.

Lição desse tipo, negativa, ele também deu com seu plantio de arroz, igualmente submetido a conversão radical – ainda em curso [o arrozal não existe mais]. O empreendimento seguiu o modelo de caixa preta, com tecnologia sofisticada, importada dos Estados Unidos, antes de um conhecimento elementar do cenário em que seria aplicada. O local foi considerado decorativo. Para o capitalismo colonizador, tudo é igual sob a linha do Equador.


A imagem que abre este artigo é de autoria de Alberto César Araújo e mostra a floresta amazôniaca no períoda das cheias dos rios na região de Autazes, Amazonas.


Além de colaborar com a agência Amazônia Real, Lúcio Flávio Pinto mantém quatro blogs, que podem ser consultados gratuitamente nos seguintes endereços:

* lucioflaviopinto.wordpress.com – acompanhamento sintonizado no dia a dia.

* valeqvale.wordpress.com – inteiramente dedicado à maior mineradora do país, dona de Carajás, a maior província mineral do mundo.

* amazoniahj.wordpress.com – uma enciclopédia da Amazônia contemporânea, já com centenas de verbetes, num banco de dados único, sem igual.

* cabanagem180.wordpress.com – documentos e análises sobre a maior rebelião popular da história do Brasil.

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