No documentário, a historiadora Patrícia Alves-Melo fala de pesquisas sobre desigualdades e escravidão na Amazônia e aponta o machismo e as tentativas de silenciamento contra as mulheres no ambiente acadêmico (Foto: César Nogueira/Amazônia Real).
Manaus (AM) – Pesquisando as desigualdades sociais, as fortunas e hierarquias na Amazônia do século 19, a historiadora Patrícia Alves-Melo revelou em seus estudos o apagamento da escravidão de pessoas negros e indígenas no estado do Amazonas. Dessa forma, ela preencheu uma lacuna da historiografia e mostrou que a escravização enriqueceu os poderosos locais. “Porque havia, como ainda persiste até hoje, um certo desprezo, vamos considerar assim, uma leitura enviezada sobre o lugar da escravidão negra nesta cidade”.
Patrícia-Alves Melo é a personagem do documentário “Rompendo o Silêncio”, que estreia nesta quarta-feira (15), às 18h (19h em Brasília), no canal do Youtube da agência Amazônia Real e faz parte da série “Ciência na Amazônia”, financiada pelo Instituto Serrapilheira. Quarto episódio da série, o documentário estreia no sábado (18) no programa Megafone da TVT.
Dirigida pela jornalista e co-fundadora da Amazônia Real Kátia Brasil, na série “Ciência na Amazônia” os pesquisadores entrevistados contam como enfrentaram o silenciamento forçado, o negacionismo, os ataques e a falta de recursos para avançar em suas pesquisas durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), conhecido pelos ataques à ciência.
Os convidados também falam sobre os legados e o que pensam em relação ao futuro da ciência na Amazônia. As filmagens foram realizadas durante o primeiro turno das eleições presidenciais, em setembro de 2022, em Manaus.
Kátia diz que, ao abordar o tema da dominação colonial contra a população indígena e negra na Amazônia, o documentário “Rompendo o silêncio” explica como essa situação ainda é responsável pelo apagamento da identidade dessas populações, principalmente as mulheres. “Quando a Patrícia rompe esse silêncio e diz os nomes de mulheres silenciadas pela colonização, o preconceito, o racismo, ela está falando de libertação. É muito importante discutir esses temas na ciência e pesquisa atuais”, diz Kátia.
Mulher da Amazônia, como ela se define, Patrícia Alves-Melo tem o seu pertencimento e identidade em Roraima, estado no qual ela se reconheceu como pessoa e o apresenta como uma perspectiva que não seja da destruição ambiental, como costumamos ver nas notícias de jornais. “Foi em Roraima que eu aprendi a nadar no igarapé”, conta logo no início do documentário. “Meu pertencimento é aos lavrados de Roraima O lugar onde o céu tem 180 graus e o vento toma conta da gente”, completa ela, que também relata como foi impactante a invasão de garimpeiros nos anos 1980 e 1990, situação que atinge os Yanomami até os dias atuais.
A historiadora é professora titular e orientadora na pós-graduação da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre e doutora em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) no Rio de Janeiro, tem pós-doutorado pela Universidade de Campinas (SP). Está vinculada à Faculdade de História da Universidade de Lisboa, como investigadora visitante.
Suas atividades acadêmicas transitam nas áreas de história indígena, do indigenismo e da escravidão africana na Amazônia. Patrícia integra corpos editoriais de revistas acadêmicas brasileiras, como “História Hoje” e “Estudos Ibero-Americanos”. Foi colaboradora da Amazônia Real, onde escreveu uma série de artigos sobre personagens africanos em apagamento histórico na Amazônia, que ela intitulou “Crônicas de mulheres (pouco) importantes”. Escreve na coluna “Presença Histórica” do site UOL.
No documentário “Rompendo o Silêncio”, Patrícia Alves-Melo afirma que toda a sua trajetória nas ciências foi atravessada pelo machismo e por tentativas de silenciamentos. “Essa é uma dimensão muito pouco explorada quando se fala das carreiras das mulheres cientistas”, diz.
É algo que não deve ser minimizado e a historiadora não se cala. “Eu já tive situações de ver meu nome completamente apagado em processos que eu ajudei a constituir institucionalmente. Na minha presença ver meu nome sequer ser mencionado”, revela. Patrícia também fala sobre sua luta contra a LGBTFOBIA.
No documentário, que tem duração de 21 minutos, ela aborda as consequências do bolsonarismo no país. “O tamanho da nossa tragédia é incomensurável. Eu acho que gerações não vão conseguir dar conta de mapear e identificar o desastre extraordinário que foram esses anos bolsonaristas”, diz Patrícia Melo.
O primeiro episódio da série “Ciência na Amazônia” foi lançado no dia 10 de dezembro, com o título “O homem da natureza”, e retratou a trajetória do cientista norte-americano Philip Martin Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), que vive na Amazônia há 40 anos.
Com título “Para além da resistência”, o segundo episódio foi protagonizado pela antropóloga e linguista Ana Carla Bruno, também do Inpa, estudiosa da língua dos indígenas Waimiri Atroari (Kinja) e atuante contra o racismo e o machismo. A publicação do documentário foi no dia 30 de dezembro último.
No terceiro episódio, “O epidemiologista que enfrentou o negacionismo”, o cientista Jesem Orellana discorre sobre sua história e seu trabalho principalmente nos períodos mais graves da pandemia da Covid-19 na Amazônia. O episódio foi lançado no dia 31 de janeiro.
Além deles, é personagem do último episódio da série o antropólogo João Paulo Barreto, fundador do Centro de Medicina Indígena Bahserikowi. O último episódio será lançado até o final de março.
Participam da produção da série “Ciência na Amazônia” profissionais do audiovisual do Amazonas como César Nogueira (cinematografia e montagem), Naila Fernandes (som direto), Valentina Ricardo (coloração) e Heverson Batista, o Batata, e Diego Freitas (mixagem do som); além de integrantes da equipe da agência de jornalismo: Elaíze Farias (pesquisa), Alberto César Araújo (pesquisa no acervo de imagem e fotografia); Lívia Lemos (designer e redes sociais), Iris Brasil (produção de conteúdo) e Cristina Camargo (consultora de projeto).
O que é:
Lançamento do 4º episódio da série “Ciência na Amazônia”
Patrícia Alves-Melo – “Rompendo o silêncio”
No canal do YouTube da Amazônia Real
Dia 15 de março
Horário: 18h (horário de Manaus, 19h em Brasília)
*Se inscreva no nosso canal aqui.
No programa Megafone da TVT São Paulo
Dia 18 de março
Horário: às 20h (horário de Brasília)
Apoio financeiro: Instituto Serrapilheira
Realização: Amazônia Real
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