O verbo fazer passou a funcionar aqui como excludente da ilicitude do verbo roubar. No Brasil, quem faz pode roubar
O chavão “rouba, mas faz” decorre da desesperança do povo brasileiro em relação a um cenário político caótico e inevitável. A sociedade acredita que votar em quem “rouba, mas faz” é melhor do que votar em quem “rouba, mas não faz”.
O verbo fazer passou a funcionar aqui como excludente da ilicitude do verbo roubar. No Brasil, quem faz pode roubar. A base filosófica desse modo de compreender o mundo está na teoria do mal menor. Essa teoria nos ensina que, entre dois males inevitáveis, escolhe-se aquele que causará um menor dano. Esse é o motivo pelo qual a população prefere votar em quem “rouba, mas faz” no lugar de quem “rouba, mas não faz”.
Decerto que o verbo fazer se transformou em um álibi eficaz contra todos os pecados de nossos “representantes”. É a velha política romana do “Pão e Circo”. Imperadores romanos forneciam gratuitamente comida e diversão a fim de acalmar o inconformismo da população carente quanto aos problemas sociais.
Hoje em dia nada mudou. O apoio popular ainda é alcançado por meio da distribuição de benefícios, de auxílios, de divertimento e de alimentos. Perto do período eleitoral, os candidatos sabem que a política do “Pão e Circo” é a manobra mais eficiente para ludibriar a massa. Enquanto benefícios gratuitos são distribuídos, as pessoas não se importam com o dinheiro público que está sendo desviado. É a dura realidade.
Esse jeitinho brasileiro e dissimulado de se fazer política trouxe consequências irreversíveis durante a pandemia. Milhares de sonhos foram enterrados por causa da corrupção e do coronavírus. O Ministério Público denunciou políticos em quase todo território nacional por envolvimento em esquemas de corrupção. Valores destinados à saúde pública foram literalmente saqueados. E agora ninguém sabe em quem votar nas eleições de 2022.
Diante dessa desesperança, arrisco-me em dar um palpite: a única saída será a chegada de uma terceira via nas eleições de 2022. O povo não quer mais votar em quem “rouba, mas faz”. Queremos um candidato que “não rouba e faz”.
*Advogado militante, professor de Direito Constitucional, Penal e Processo Penal. Atua como consultor político e trabalha para diversas empresas no Brasil, entre elas o Sindicato dos Médicos do Amazonas.
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