Por Paulo Eduardo Barni, Anelícia Cleide Martins Rego, Francisco das Chagas Ferreira Silva, Richard Anderson Silva Lopes, Haron Abrahim Magalhães Xaud, Maristela Ramalho Xaud, Reinaldo Imbrozio Barbosa e Philip Martin Fearnside

Embora o El Niño 2015-2016 fornecesse condições climáticas ideais para incêndios [1-4], grande parte da “culpa” pelos incêndios e os danos que eles causaram podem ser atribuídos ao papel da Exploração Seletiva de Madeira (ESM) em aumentar a probabilidade de áreas serem incendiadas e em aumentar os danos quando ocorrem os incêndios. A grande área de corte seletivo em nossa área de estudo parece ser principalmente o resultado de licenças de desmatamento autorizado sendo usadas para fornecer cobertura para o transporte de toras para serrarias (ou seja, “lavagem” de madeira) e uma quantidade menor de projetos de manejo florestal autorizados.

Em nossa área de estudo, a exploração madeireira é feita com base na aprovação de licenças de desmatamento para agricultura e pastagem. Nestes projetos a Fundação Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (FEMARH) autoriza a venda de um volume restrito de madeira, que geralmente varia entre 20 e 100 m3 por ha de desmatamento autorizado (por exemplo, [5]). Essas autorizações são frequentemente usadas para “lavar” madeira da extração ilegal de madeira em florestas próximas, incluindo madeira de fora das propriedades onde o corte raso foi licenciado [6]. Nestes projetos de corte raso, a madeira é colhida antes que a floresta seja desmatada. O desmatamento ocorre de um a dois anos ou mais depois de ser explorada (ver Tabela S3 no texto 4) e as árvores remanescentes ficam em pé (isso é recorrente em toda a porção sul de o Estado). Nesse caso, a floresta contém grandes clareiras decorrentes da abertura de estradas e pátios de armazenamento de toras.

As queimadas de áreas desmatadas em projetos de corte raso servem como fontes de ignição para a propagação do fogo para a floresta adjacente. Neste caso, a perturbação da exploração madeireira por esse processo pode ser ainda mais danosa do que o próprio desmatamento como uma força para espalhar o fogo. Sob condições climáticas extremas, como o evento El Niño 2015/2016 [2, 3], as áreas exploradas tornam-se altamente vulneráveis a incêndios [7-11]. Em nossa área de estudo as áreas de ESM serviram como “trampolins” para que o fogo ganhasse força e se espalhasse para áreas adjacentes, incluindo aquelas sem evidências de ESM.

Este efeito da exploração recente foi mostrado pela análise de correlação entre a incidência de fogo e a diferença entre os valores do Índice de Vegetação de Diferença Normalizada (NDVI) observados em áreas de ESM realizadas nos anos imediatamente anteriores aos incêndios e os valores de NDVI observados nos mesmos locais em 2016 (Figura S9 no texto 11). A correlação crescente entre esses valores ao longo do tempo é consistente com as áreas mais recentemente exploradas tendo maior severidade de incêndio (Figura 5B no texto 11). Isso corrobora com estudos de Souza Jr. et al. [12, 13], que analisou a degradação florestal por ESM e fogo usando imagens multitemporais. [14]


A imagem que abre este artigo é de autoria de Bruno Kelly/Greenpeace e mostra caminhão carregado de toras de madeira ilegal em Manicoré, Amazonas.


Notas

[1] Aragão, L.E.O.C.; Anderson, L.O.; Fonseca, M.G.; Rosan, T.M.; Vedovato, L.B.; Wagner, F.H.; Silva, C.V.J.; Silva Junior, C.H.L.; Arai, E.; Aguiar, A.P. et al. 2018. 21st Century drought-related fires counteract the decline of Amazon deforestation carbon emissions. Nature Communications, 9: art. 536.

[2] Burton, C.; Betts, R.A.; Jones, C.D.; Feldpausch, T.R.; Cardoso, M.; Anderson, L.O. 2020. El Niño driven changes in global fire 2015/16. Frontiers in Earth Science, 8: 1-12.

[3] Fonseca, M.G.; Anderson, L.O.; Arai, E.; Shimabukuro, Y.E.; Xaud, H.A.M.; Xaud, M.R.; Madani, N.; Wagner, F.H.; Aragão, L.E.O.C. 2017. Climatic and anthropogenic drivers of northern Amazon fires during the 2015-2016 El Niño event. Ecological Applications, 27(8): 2514-2527.

[4] Ray, D.; Nepstad, D.; Moutinho, P. 2005. Micrometeorological and canopy controls of fire susceptibility in a forested Amazon landscape. Ecological Applications, 15(5): 1664-1678. https://doi.org/10.1890/05-0404

[5] Barni, P.E.; Barbosa, R.I.; Manzi, A.O.; Fearnside, P.M. 2020. Simulated deforestation versus satellite data in Roraima, northern Amazonia, Brazil. Sustentabilidade em Debate, 11(2): 81-94.

[6] Condé, T.M.; Higuchi, N.; Lima, A.J.N. 2019. Illegal selective logging and forest fires in the northern Brazilian Amazon. Forests, 10: art. 61.

[7] Andrade, D.F.C.; Ruschel, A.R.; Schwartz, G.; de Carvalho, J.O.P.; Humphries, S.; Gama, J.R.V. 2020. Forest resilience to fire in eastern Amazon depends on the intensity of prefire disturbance. Forest Ecology and Management, 472: art. 118258.

[8] Cochrane, M.A.; Alencar, A.; Schulze, M.; Souza Jr., C.; Nepstad, D.C.; Lefebvre, P.; Davidson, E. 1999. Positive feedbacks in the fire dynamic of closed canopy tropical forests. Science, 284: 1832–1835.

[9] de Faria, B.L.; Brando, P.M.; Macedo, M.N.; Panday, P.K.; Soares-Filho, B.S.; Coe, M.T. 2017. Current and future patterns of fire-induced forest degradation in Amazonia. Environmental Research Letters, 12(9): 1-13.

[10] Morton, D.C.; DeFries, R.S.; Nagol, J.; Souza Jr., C.M.; Kasischke, E.S.; Hurtt, G.C.; Dubayah, R. 2011. Mapping canopy damage from understory fires in Amazon forests using annual time series of Landsat and MODIS data. Remote Sensing of Environment, 115(7): 1706-1720.

[11] Ziccardi, L.G.; Graça, P.M.L.A.; Figueiredo, E.O.; Fearnside, P.M. 2019. Decline of large-diameter trees in a bamboo-dominated forest following anthropogenic disturbances in southwestern Amazonia. Annals of Forest Science, 76: art. 110.

[12] Souza Jr., C.M.; Roberts, D.; Monteiro, A.L. 2005. Multitemporal analysis of degraded forests in the southern Brazilian Amazon. Earth Interactions, 9: art. 19.

[13] Souza, Jr., C.M.; Siqueira, J.V.; Sales, M.H.; Fonseca, A.V.; Ribeiro, J.G.; Numata, I.; Cochrane, M.A.; Barber, C.P.; Roberts, D.A.; Barlow, J. 2013. Ten-year Landsat classification of deforestation and forest degradation in the Brazilian Amazon. Remote Sensing, 5(11): 5493-5513.

[14] Esta série é uma tradução parcial de Barni, P.E., A.C.M. Rego, F.C.F. Silva, R.A.S. Lopes, H.A.M. Xaud, M.R. Xaud, R.I. Barbosa & P.M. Fearnside. 2021. Logging Amazon forest increased the severity and spread of fires during the 2015-2016 El Niño. Forest Ecology and Management 500: art. 119652.


Sobre os autores

Paulo Eduardo Barni é Engenheiro Florestal graduado pela Universidade Federal do Amazonas (2007), mestre em Ciências de Florestas Tropicais – CFT, pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA/Manaus (2009) e doutor em Clima e Ambiente, pelo INPA e Universidade Estadual do Amazonas – UEA (2014). Seu interesse em pesquisa inclui modelagem ambiental e climática, com ênfase no comportamento do fogo florestal de sub-bosque, queimadas, simulações de desmatamento, recuperação de áreas degradadas, biomassa de capoeiras e estocagem e emissões de carbono florestal para a atmosfera. É professor da Universidade Estadual de Roraima – UERR, Campus Rorainópolis, Região Sul do Estado de Roraima.

Anelícia Cleide Martins Rego é aluna de graduação na Universidade Estadual de Roraima – UERR, Campus Rorainópolis.

Francisco das Chagas Ferreira Silva é aluno de graduação na Universidade Estadual de Roraima – UERR, Campus Rorainópolis.

Richard Anderson Silva Lopes concluiu a Especialização em Geoprocessamento pela Universidade de Brasília em 2005. Atualmente é Técnico especializado no Corpo de Bombeiros Militar de Roraima, Boa Vista, Roraima. Atua na área de Geografia, com ênfase em Sensoriamento Remoto.

Haron Abrahim Magalhães Xaud é Eng. Agrônomo formado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) com Mestrado e Doutorado em Sensoriamento Remoto pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais-INPE. É pesquisador da Embrapa-Roraima e professor permanente do PRONAT-UFRR (Mestrado e Doutorado). Se dedica a pesquisas nas áreas de Recursos Florestais, Sensoriamento Remoto, Agricultura Sem Queima, Gestão Territorial e Incêndios Florestais.

Maristela Ramalho Xaud possui graduação em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (1993) e mestrado (1998) e doutorado (2013) em Sensoriamento Remoto pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais-INPE. É pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa-Roraima). Tem experiência em sensoriamento remoto e geoprocessamento em estudos sobre desmatamento, queimadas, incêndios florestais e mudanças de uso e cobertura da terra. Atua como professora colaboradora do Programa de Pós-graduação em Recursos Naturais da Universidade Federal de Roraima-UFRR.

Reinaldo Imbrozio Barbosa é Engenheiro Florestal pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e Doutor em Biologia Tropical (Ecologia) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). Possui especial interesse em estudos relacionados às mudanças climáticas, uso e ocupação da terra, dinâmica de ecossistemas e emissões de gases do efeito estufa decorrentes das atividades antrópicas na Amazônia. É pesquisador titular do INPA, Professor do Programa de Pós-graduação em Recursos Naturais da UFRR (Doutorado/Mestrado) e professor colaborador nos cursos de Pós-graduação em Ecologia e Ciências Florestais do INPA (Doutorado/Mestrado). Suas publicações podem ser encontradas aqui.

Philip Martin Fearnside é doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 750 publicações científicas e mais de 650 textos de divulgação a que estão disponíveis aqui.


Leia os textos anteriores da série:

Exploração madeireira e incêndios florestais: 1 – Resumo da série

Exploração madeireira e incêndios florestais: 2 – Incêndios e a perda de serviços ambientais

Exploração madeireira e incêndios florestais: 3 – Incêndios, desmatamento e extração seletiva em Roraima

Exploração madeireira e incêndios florestais: 4 – A área de estudo e o banco de dados

Exploração madeireira e incêndios florestais: 5 – Métodos para avaliar a severidade do fogo

Exploração madeireira e incêndios florestais: 6 – Métodos para avaliar a perda de biomassa por classe de severidade do fogo

Exploração madeireira e incêndios florestais: 7 – Métodos para avaliar áreas afetadas por fogo e exploração madeireira

Exploração madeireira e incêndios florestais: 8 – Métodos para avaliar a vulnerabilidade a incêndio

Exploração madeireira e incêndios florestais: 9 – Métodos para avaliar o efeito da exploração madeireira na propagação do fogo e a validação dos modelos

Exploração madeireira e incêndios florestais: 10 –Resultados sobre área e biomassa queimada

Exploração madeireira e incêndios florestais: 11 –Resultados sobre severidade de incêndio

Exploração madeireira e incêndios florestais: 12 – Pesos de evidência e validação do modelo

Exploração madeireira e incêndios florestais: 13 – Vulnerabilidade da floresta a incêndios por faixa de probabilidade

Exploração madeireira e incêndios florestais: 14 – Efeito da exploração madeireira nas perdas de biomassa devido ao fogo

Exploração madeireira e incêndios florestais: 15 – O papel da extração seletiva no aumento da gravidade do incêndio

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