A pergunta vai e volta, conforme o movimento cíclico da maré de interesse sobre a região: há vida inteligente na Amazônia? Hoje, o questionamento é mais simbólico e metafórico. Mas já foi concreto e real – e essa dúvida não é remota. Sob cuidados e manipulações, persiste.

A partir de 1966, os militares, desde dois anos antes no poder, graças a um golpe de Estado, promoveram a maior expansão de fronteira da história brasileira, colocando seus tecnocratas como capitães-do-mato das novas entradas e bandeiras (devassando a terra e exterminando suas extensões humanas).

Abriram imensas estradas pelas terras altas (e firmes) para permitir a penetração do eixo dominante do país ao coração da Amazônia, “terra ignota” que ocupa dois terços do território nacional. E subsidiaram, com um mar de dinheiro público, os empresários dispostos a converter a maior bacia hidrográfica e a maior floresta tropical do planeta em dólar, produzindo bens de exportação intensivos em energia (a natural e a mecânica).

O pressuposto político e ideológico dessa blitz, que levou a ocupação (com o desflorestamento e a expulsão dos ocupantes nativos) de uma área equivalente a três vezes o território de São Paulo, o mais rico e poderoso Estado da federação, era que o habitante nativo não tinha condições de atender às necessidades desse novo modelo, sem o qual o Brasil Grande continuaria a ser um devaneio geopolítica à sombra dos quartéis e das casas grandes senhoriais, na zona da mata nordestina ou na avenida Paulista).

Sua mentalidade era produto do extrativismo vegetal da borracha e de algumas outras culturas de lenta maturação, e da herança indígena. Daí não se amoldar ao sistema capitalista de produção, exigente de capital, tecnologia e produtividade para poder gerar produtos competitivos no mercado internacional. O combate entre os adeptos do novo (e velho) modelo colonial e os que o repudiavam passou a ser travado mais fora do que dentro da Amazônia, mais com guerreiros de outros Estados ou países, em arenas nas outras regiões do Brasil ou do mundo.

Apesar do surgimento de universidades na região e da maior diversidade de protagonistas, a sensação é de que o nativo é mais figura decorativa nos momentos de maior intensidade de preocupação com a Amazônia do que participante ativo do próprio destino. Em certa medida pela dificuldade de acompanhar o processo atual, que evolui aos saltos, indo do 0 ao 80 com a velocidade de um carro de fórmula 1, criando vácuos no entendimento histórico, mesmo dos que estão vivendo ao lado das plantations e enclaves que se espalham pelo vasto interior da região.

Os papeis decisivos são desempenhados pelos destruidores e salvadores da Amazônia, não pelo seu morador. Para assumir um papel ativo ele deveria não ser apenas um habitante amazônico, mas um amazônida. O que quer dizer: alguém que empreendeu um excepcional esforço de conhecimento e compreensão do que é realmente a Amazônia contemporânea, uma possessão com domínio e mando metropolitano. Seja de São Paulo como de Pequim.

Não basta ter nascido ou migrado na região: é preciso dominá-la pelo saber. Ela não é inteiramente visível a olho nu. Exige instrumentos mais avançados de visualização da ciência, o que significa dispor de verba para o exercício da ciência, multiplicada muitas vezes a partir dos valores atuais.

O problema é que, para quem realmente decide os destinos da Amazônia dos nossos dias, isso não interessa. Daí a Amazônia crescer em importância econômica em escala mundial e continuar a ser incapaz de assumir a rédea do processo histórico. O paraíso idealizado por Euclides da Cunha realmente se perdeu. O que sobrou é a colônia, cuja condição não está posta em questão pelos guerreiros destruidores e salvadores da região, como uma luta revista e atualizada de infiéis e cruzados. A Jerusalém tropical não será libertada.


A imagem que ilustra este artigo mostra parte do campus da Universidade Federal do Amazonas, Ufam em Manaus (Foto; Ascom/Ufam)


Além de colaborar com a agência Amazônia Real, Lúcio Flávio Pinto mantém quatro blogs, que podem ser consultados gratuitamente nos seguintes endereços:

* lucioflaviopinto.wordpress.com – acompanhamento sintonizado no dia a dia.

* valeqvale.wordpress.com – inteiramente dedicado à maior mineradora do país, dona de Carajás, a maior província mineral do mundo.

* amazoniahj.wordpress.com – uma enciclopédia da Amazônia contemporânea, já com centenas de verbetes, num banco de dados único, sem igual.

* cabanagem180.wordpress.com – documentos e análises sobre a maior rebelião popular da história do Brasil.

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