A educadora popular Fátima Guedes, estudiosa dos conhecimentos tradicionais da Amazônia – e militante de movimentos populares que envolvem saúde e educação no município de Parintins, na ilha Tupinambarana, no interior do Amazonas –, reconhece e enfatiza a importância de tirar os agentes da medicina popular do anonimato.
Segundo ela, esse é um esforço para evitar o “memoricídio cultural” das pessoas que curam fazendo uso da intuição, do misticismo, da sabedoria dos recursos da natureza e das técnicas milenares. Muitos desses “curandeiros” já morreram e outros estão ficando idosos, com mais de 80 anos, mas mesmo assim continuam trabalhando para promover a saúde, principalmente nos locais onde o estado é ausente e negligente nos serviços de saúde.
Por terem a confiança da comunidade, às vezes essas pessoas são procuradas quando alguém é desenganado pelos médicos em algum tratamento, e a dedicação e a fé na capacidade que elas têm de curar proporciona bons resultados, principalmente para auxiliar nas doenças da alma e proteção das crianças.
A cidade de Parintins, no interior do Amazonas, tornou-se muito conhecida pelo festival folclórico anual dos bois Garantido e Caprichoso. Mas Fátima Guedes nos mostra que há muito mais para ser conhecido naquela cidade, além dos eventos festivos do boi bumbá. No livro “Vestígios de curandage: memórias de saberes popular/tradicional” – publicado em 2022, e lançado em Manaus no dia 25 de junho – a autora apresenta ao público 26 pessoas praticantes da curandage, e fornece o nome e o endereço delas, para que possam se tornar conhecidas pelo trabalho que realizam, ou que já realizaram em Parintins, no caso daquelas que são falecidas. Segundo Arnoldo Santos, que entrevistou a autora, Fátima listou 153 pessoas, mas teve dificuldade para localizá-las, porque muitas estão morando em lugares distantes no interior, e outras já faleceram; os vivos estão muito idosos, com 80, 90 e 100 anos.
Nas 176 páginas do livro que escreveu, Fátima Guedes enfatiza a importância social dessas pessoas nas comunidades, apresentando um pouco da história de cada uma das 26 que foram localizadas, e das quais fornece alguns detalhes sobre procedimentos. Das pessoas localizadas e entrevistadas 16 ainda estão vivas e de 11 já faleceram. Nesse esforço de conter o “memoricídio cultural”, Fátima já vinha recolhendo, desde 2008, as informações sobre as vidas e os procedimentos realizados por essas pessoas. Ao escrever as histórias delas, tece comentários críticos sobre a distância que está presente entre os que curam, por meio dos procedimentos naturais tradicionais da medicina popular, e aqueles que têm os conhecimentos médico científico da modernidade, e que tratam as pessoas com medicamentos alopáticos, hospitalização e cirurgias.
A autora enfatiza a importância do conhecimento ancestral dos xamãs, dos pajés, dos sacacas (que têm conhecimento da floresta e da arte de curar), das benzedeiras, das erveiras, dos puxadores, das parteiras tradicionais, também chamadas de parteiras curiosas, assim como da presença dos guias espirituais que permeiam os procedimentos de todos e todas. Demonstra a importância do conhecimento histórico da vida dessas pessoas, que estão ficando cada vez mais raras no contexto amazonense, dando um grito de alerta para que elas sejam vistas, respeitadas e que seus conhecimentos sejam aproveitados e inseridos no Sistema Único de Saúde (SUS), para promover uma vida mais saudável e de qualidade para a população.
O livro de Fátima valoriza os conhecimentos dos agentes da curandage amazônica, relembrando como eles foram adquiridos, por tradição do ensinamento com aqueles que já são reconhecidos na comunidade pelo dom de curar. Há pessoas que são reconhecidas por esse dom, inclusive quando ainda estão no útero materno, como explica o jornalista Fred Góes: “Sacaca é toda criança que chora na barriga da mãe. Isso é um aviso que veio pra curar com as plantas e as orações. A mãe ouve o choro da criança dos oito pros nove meses” (GUEDES, 2022, p. 90).
Depois, na infância, o aprendizado pode ocorrer no convívio com familiares e com pessoas habilitadas e reconhecidas da comunidade, por já possuírem esse dom de curar. Muito comumente os conhecimentos são adquiridos por meio dos sonhos. Mesmo que sejam conhecimentos que não estão sistematizados dentro dos padrões dos saberes convencionais da medicina, eles estão conservados na oralidade e nas práticas cotidianas. Como os agentes estão envelhecendo e morrendo, Fátima defende que essas pessoas tenham suas práticas e saberes reconhecidos, podendo ter suas habilidades estudadas, registradas e aplicadas na população, para que não fiquem relegadas ao esquecimento. Por isso, a autora oferece no livro condições para que sejam identificados e localizados esses agentes da curandage de Parintins.
Com certeza, Fátima Guedes enfrentou um grande desafio para fazer o registro das histórias, porque não basta localizar as pessoas, pois é difícil que elas aceitem falar sobre si e sobre seus procedimentos, para tê-los publicados em um livro. O segredo desses conhecimentos tradicionais, transmitidos oralmente, é como aquele que é obtido diretamente na relação entre os mestres e discípulos, tal como ocorre em culturas antigas do Oriente, como a cultura védica da Índia. Até mesmo nos escritos védicos, a linguagem é hermética e difícil de ser interpretada, requerendo a presença de um mestre para traduzir o ensinamento para o discípulo. É justamente assim também nas comunidades amazônicas, em que a criança é identificada como tendo o dom de curar na infância, e passa a receber os conhecimentos de alguém mais experiente, seja ela uma pessoa de convívio familiar, ou alguém mais velho da comunidade, que se interessa em repassar seus saberes diretamente para alguém da geração futura. Por isso, essa medicina popular vai sendo construída ao longo dos anos, numa relação de confiança de quem ensina (o mestre) com quem aprende (o aprendiz), e deste com quem pede ajuda para ser curado (pessoa da comunidade).
Em geral, as pessoas que atuam com a medicina não convencional não se negam a realizar os procedimentos de promoção da saúde, mas têm uma intuição muito aguçada. Elas captam imediatamente se alguém está diante delas por uma necessidade verdadeira, ou se está querendo investigar sua vida (FRANÇA, 2000). São pessoas que passaram por situações muito desafiadoras desde a infância, na construção da sua credibilidade na comunidade e, por temer represálias, elas se fecham e se negam falar sobre si mesmas quando não confiam em quem as procura. Isso faz com que a sistematização de suas práticas seja algo um tanto secreto, até porque há aspectos espirituais do ato de curar que não podem ser revelados abertamente. Por isso, o que podem dizer numa conversa requer, acima de tudo, confiança e abertura espiritual para compartilhamento, além da permissão espiritual e também familiar.
Relatos das vivências e saberes
Nesse sentido, Fátima Guedes teve o mérito de localizar as pessoas, de coletar os dados preciosos sobre suas experiências de vida, das relações com os mestres de aprendizado na comunidade ou entidades espirituais, na construção do que denomina de “vestígios de curandage”. Certamente, foi despertando a confiança nas pessoas que ela produziu a história de 16 pessoas vivas, que ainda estão atuantes e de 11 já falecidas. Identificou entre as pessoas vivas: parteiras tradicionais, pessoas que atuam com saúde indígena, uso de banhos, benzimentos, orientação alimentar, uso de soro caseiro, toque das mãos, rezas e orações, arrumação de ossos/desmentidura, puxações no corpo e puxações espirituais, rasgadura, garrafadas, remédios caseiros, fórmulas, pomadas, uso de plantas e ervas, chás, massagens, ventosas, vomitório, lavagens, mãe do corpo, limpeza do ouvido, pesquisa com plantas, visões, premonições, dança, canto e guias espirituais.
Na leitura do livro é possível verificar que não existem pessoas que utilizam apenas um procedimento, porque em geral adotam uma abordagem combinada de procedimentos, de acordo com cada caso atendido. Um exemplo são os “Doutores das Ruas”, um grupo de homens que ficam em “plantão permanente a serviço dos desvalidos, fornecendo diagnósticos, oferecendo terapias, amenizando dores físicas e mesmo espirituais” (GUEDES, 2022, p. 59). Eles atuam em uma área improvisada de lazer, próximo a um campinho de futebol, onde identificam problemas como rasgadura (hérnia), puxação (massagem) e fazem uso de remédios naturais como arnica (Solidago microgrossa D.C), óleo de andiroba (Carapa guianenses), pó de vergalho (pênis) de boto (Inia geoffrensis), e também recomendam banhos. No local está um curumazeiro (Dipteryx odorata), árvore alta que dá umas favas, cujas sementes aromáticas são usadas para dar sabor parecido com o de baunilha (Vanilla planifolia) na culinária, mas que também tem propriedades medicinais e por isso é utilizada como remédio caseiro.
Um dos agentes de curandage na cidade de Parintins é o Zé Guerreiro, que depois de trabalhar com a exploração de pau-rosa (Aniba rosaeodora) e seringa (Havea brasiliensis), agora atua com ervas medicinais, suprindo o mercado de Manaus e de outros estados, com diversos tipos de plantas que têm efeitos curadores. “Meu trabalho é com ervas medicinais que a floresta me dá: aquelas mais procuradas: unha de gato; pedra ume caá, pau d´arco, mirantã, miraruíra, chichuá. Pois bem, miraruíra é um cipó que regulariza a glicose no sangue, a tal diabete” (GUEDES, 2022, p. 76). E depois de explicar as propriedades curativas de várias plantas e ervas que vende, ele conclui: “O remédio natural tem tudo pra curar; depende muito do jeito como ele é usado” (Idem, p. 77). Na Casa das Ervas – um comércio regularizado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) –, Zé Guerreiro sente as pressões da fiscalização a que está sujeito e também as taxas de imposto que precisa pagar. Acrescenta o aspecto espiritual do trabalho dizendo: “Nossos produtos são preparados através das experiências e saberes de nossos ancestrais. Eles não tinham químicos. A química deles era a observação da natureza e a iluminação dos Espíritos da Cura” (Idem, 2022, p. 79).
Uma característica importante do livro de Fátima Guedes é que ela apresenta a terminologia “caboca” [cabocla] e regional nas histórias, mas também oferece um glossário dos termos, o que denomina de “Falares da Casa”, que consta no final do livro (p. 167-172). Desse modo, os leitores de outros contextos culturais poderão compreender a terminologia das tradições de curandage da cidade, com a possibilidade de equiparar a terminologia popular regional de Parintins com os termos dos saberes de outros contextos do país. O vocabulário ajuda na identificação dos problemas de saúde da população e dos procedimentos que os agentes da curandage amazônica adotam para promover a saúde física, mental e espiritual.
Dentre os textos das pessoas vivas (p. 27-107), os quatro primeiros textos são os que apresentam maior variedade de procedimentos, dentre eles o da mãe de santo conhecida na cidade como Lia Benzedeira, que se destaca pelo maior número de procedimentos (GUEDES, 2022, p. 39-55). Ela começou sua atividade com sete anos de idade, curando seu cachorrinho doente, concentrando a mente para benzê-lo com plantas. Depois disso, sempre que alguém lhe contava algum problema, a menina se concentrava e realizava o benzimento.
“Uma coisa assim, incrível: parece que as pessoas enxergavam em mim alguma coisa ligada aos cuidados de saúde: se aproximavam de mim, contavam suas dores e me pediam para benzer elas. Eu ficava meio acanhada: era uma criança ainda, mas se pediam não podia dizer não. Aí, me concentrava no problema da pessoa que me pedia ajuda: aquela força interior vinha e me mostrava o jeito e o raminho da planta que servia para benzer aquele tipo de problema. Às vezes, quando aquela força vinha, parece que eu saía de mim, até desmaiava… Às vezes, minha mãe me batia tanto que eu ficava lá jogada. Ela e a minha família não entendiam que aquilo não era eu que queria, diziam que era fingimento” (GUEDES, 2022, p. 42). Foi Vovó Sancha quem ajudou a mãe da menina a compreender que não podia fazer aquilo com uma criança que havia nascido com o dom de curar, porque havia chorado antes de nascer (sacaca). Foi a idosa quem ensinou Lia a usar as plantas certas para cada situação, e mais tarde a menina foi trabalhar com uma mãe de santo, a Dona Bezinha, que coordenava a atividade de um terreiro. Foi então que ela avançou nos saberes espirituais, inserindo o canto, a dança, as visões e o apoio dos guias espirituais em seus procedimentos.
O relato de Lia Benzedeira é o mais detalhado do livro sobre a utilização de banhos, benzimentos, orientação alimentar, toque das mãos, rezas e orações, puxação espiritual, desmanche de nó na tripa de criança, preparo de remédios caseiros, uso de plantas e ervas, chás, massagem na mãe do corpo (local que fica a três dedos abaixo do umbigo e bate como um coração quando o corpo está fraco). Ela é uma pessoa que prefere atuar em ambientes da natureza, e ao curar a pessoa também cura a terra, a água e os rios, fazendo recomendações relacionadas com a preservação do meio ambiente. Para ela, o tratamento com ervas e o acolhimento amoroso é um tratamento mais barato. Por ser procurada por pessoas da área da saúde e da universidade, teve a iniciativa de oferecer seu trabalho para uma unidade de saúde, mas não foi aceita. Lia sobrevive da venda de plantas, artesanato e costura, e aceita doação. Segundo ela, “infelizmente a gente não tem vez, a gente é sempre mal vista, estamos sempre no último lugar” (GUEDES, 2022, p. 52). […] Às vezes, até me lembro daquelas histórias que contam das bruxas queimadas vivas no tempo da inquisição. Hoje a gente só não vai para a fogueira, mas tem muita coisa aí de preconceito que não deixa a gente fazer nosso trabalho” (Idem, p. 47).
Dentre outras pessoas ainda atuantes na comunidade, está a líder da Pastoral da Criança, Altina de Souza Oliveira, que realiza os procedimentos de benzer crianças com quebranto, além de benzer depressão em adultos, dor de cabeça, e a prática de costurar rasgaduras, e dá detalhes sobre como procede. “Através da concentração, a ponta dos dedos nos faz sentir o nódulo que produz muita dor e ardência. É quando a carne rasga. Da rasgadura vem a hérnia. Aí, é preciso costurar. Entro em concentração, rezo e inicio a costura com a resina da casca da laranja da terra e pês [breu]. Aplico a resina sobre a dor e, em seguida, emplasto com pês. Faço essa costura durante três dias e recomendo ao paciente chá de cidreira ou capim santo para acalmar a dor. Existem outros jeitos de costurar, mas meu dom se desenvolveu dessa forma” (GUEDES, 2022, p. 86).
O jornalista Fred Góes explica sobre essa variedade de habilidades de cura, principalmente entre os Sacacas, aqueles que deram o aviso quando ainda estavam no útero materno, chorando antes de nascer. Ele diz sobre a importância dessas pessoas serem integradas na saúde oficial. “Há localidades nessa nossa imensa região em que o conhecimento do Sacaca sobre ervas medicinais pode levar à cura de doenças físicas e até mesmo espirituais, através de pajelanças que, certamente, substituem certos tratamentos psicossomáticos. […] Nem os que praticam a saúde popular nem os que atuam na saúde oficial podem sentir-se autossuficientes em seus conhecimentos. Se o objetivo desses saberes é a cura não há porque confronto (GUEDES, 2022, p. 90-1).
Os que já se foram, mas continuam presentes na memória

Além das pessoas vivas que estão em atividade, Fátima Guedes também registrou as experiências de vida de 11 pessoas já falecidas (p. 121-160), sendo uma delas o médico ginecologista-obstreta Aldrim Verçosa Dias, formado pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), e falecido após 11 anos de dedicação ao trabalho como diretor clínico do hospital Padre Colombo de Parintins. Ele ficou reconhecido na cidade pelos conhecimentos técnicos e saberes dos agentes populares de saúde, e nas suas consultas estabelecia diálogos com os pacientes. Segundo Fátima Guedes, “antes de aplicar o conhecimento acadêmico, sondava os cuidados naturais já experienciados pelos pacientes. Em sua práxis, Consulta exige do médico atenção, saber ouvir, observar e trocar informações sobre o motivo do paciente vir ao consultório. Interessava-se sobre o uso de ervas, óleos, garrafadas, banhos e saberes preventivos/curativos usados pela comunidade. Acatava a linguagem própria dos nativos relacionada ao nome de doenças e de cuidados naturais” (GUEDES, 2022, p. 158).
Foi o dr. Aldrim quem repassou muitas informações para Fátima Guedes, e com as quais ela elaborou o glossário dos termos regionais. Além de grande conhecedor da fauna e da flora, tinha conhecimentos da medicina cabocla, buscando meios de pesquisar seus efeitos para evitar que causassem algum dano à saúde. Ele também influenciou outros profissionais médicos a adotarem essa postura de inclusão da sabedoria popular/tradicional. Ele é lembrado em homenagens de carnaval como sendo o “Doutor da Alegria”, e em 2009 seu nome ficou registrado na Unidade Básica de Saúde do bairro Itaúna II Aldrin Verçosa.
Dentre os procedimentos das demais pessoas já falecidas, mencionadas no livro de Fátima Guedes, destacam-se as que realizavam tratamento de picadas de cobras (Serpentes), aranhas (Araneae) e arraias (Aetobastus narinari), fraturas ósseas, dismintiduras (deslocamento de ossos e tendões) e rasgaduras (hérnia), problemas de coluna, parto e acompanhamento pós-parto, além de vidência, desmanche de magias, tratamento espiritual, uso de bola de cristal, além de uso de plantas e ervas, preces e orações, remédios caseiros, fórmulas naturais, garrafadas, chás, benzimentos e massagens. Os relatos sobre a vida dessas pessoas foram construídos com as memórias de familiares, amigos e pessoas que foram beneficiadas com os tratamentos.
Entre os agentes de curandage falecidos que atuavam com partos, há aquelas cujos informantes disseram ter realizado mais de 50 partos (Tia Léo, p. 147), mas também há uma que chegou a realizar mais de 200 (Marina, p.151); duas que realizaram 500 partos (Mãe Palmira, p. 129; Waldina, p. 149); e uma que realizou mais de 1.000 partos (Dona Nega, p.141). A riqueza dos dados da experiência de cada uma ficou na dependência dos informantes. Nesse sentido, o curador popular Torquato, também lembrado por Fátima Guedes, teve poucas informações relembradas, quando comparado aos demais agentes da curandage. Mesmo assim, ele está presente no livro e Fátima ainda cita os nomes de mais 16 pessoas não incluídas nas histórias de vida, e diz: “Embora sem registros, Elas e Eles sobreviverão em nossos desejos de uma Saúde digna para todos” (GUEDES, 2022, p.165).
Um dos agentes de curandage falecido, muito lembrado devido à maior quantidade de procedimentos que realizava, é o sr. Waldir Viana, falecido em 2005, aos 95 anos. Sua especialidade era curar picada de animais peçonhentos como cobras (Serpentes), aranhas (Araneae), escorpiões (Scorpiones) e arraias (Aetobastus), assim como fraturas ósseas, além das benzeduras e uso de remédios caseiros. Seu aprendizado foi adquirido em sessões espíritas, mas ele também teve aprendizado técnico com a orientação de um médico ortopedista, o seu irmão de leite, que repassou a ele muitos conhecimentos, com demonstrações anatômicas em cadáveres destinados para esse fim. Segundo os relatos obtidos por Fátima Guedes, Waldir também era um contador de casos, e sabia usar as palavras para criar imagens mentais que anestesiavam a dor da pessoa que ficava praticamente hipnotizada enquanto ele realizava o procedimento. Além disso, ele tinha capacidade para resolver situações inusitadas com cobras e cabas (vespas/ Himnoptera). Ainda que suas práticas tenham sido interpretadas como charlatanismo por alguns médicos, ele foi considerado pela população como sendo uma “fonte de conhecimento popular em saúde. Esse homem de Luz também fora destaque nas mídias do estado do Amazonas, em toadas dos bumbás Garantido e Caprichoso por ocasião do Festival Folclórico de Parintins, entre 2002 a 2007, além de reverências honrosas, sempre acatadas com simplicidade” (GUEDES, 2022, p. 123).
No referido livro, há história de duas parteiras falecidas como a Mãe Palmira (p. 129) e dona Nega (p. 141), que foram reconhecidas por médicos da cidade, sendo que a primeira recebeu orientações da Fundação do Serviço Especial de Saúde Pública (Fsesp) para aperfeiçoar seus procedimentos como parteira; e a segunda atuou colaborando com um médico. Essa última também “benzia, costurava rasgaduras, consertava dismintiduras e preparava garrafadas para distúrbios do aparelho genital feminino, inclusive para estimular a reprodução, no caso de esterilidade” (GUEDES, 2022, p. 142). Seu nome também ficou registrado em toadas dos dois grupos folclóricos da cidade: Garantido e Caprichoso.
Dentre as pessoas falecidas, também está uma parteira, a sra. Waldina Batista Lira, filha de parteiros, que começou a fazer partos sozinha aos 12 anos de idade. Mesmo tendo atendido muitos partos na comunidade, foi chamada de curiosa pelo médico do hospital, que a impediu de acompanhar o parto da própria filha, sendo que a moça morreu durante o procedimento médico, o que deixou a parteira abalada emocionalmente. “Minha filha acabou morrendo nas mãos deles porque deixaram para atender ela dois dias depois, aí não teve jeito. Ela já estava muito consumida mesmo e não resistiu. Daí, eu pensei: se a gente atende, pega ralho; se não atende pega ralho também, então é melhor salvar vidas mesmo pegando ralho” (GUEDES, 2022, p. 150).
Outra parteira tradicional é Marina Assunção de Almeida, que criticava o parto antes da hora, assim como os maus tratos da parturiente no hospital, além da falta de aceitação e de reconhecimento dos médicos sobre as habilidades e competências das parteiras tradicionais, chamadas por eles de curiosas. “Onde não tem médico tem sempre uma parteira. O parto em casa é mais tranquilo para a mulher e até para a família. Em casa ela recebe atenção, carinho, um remédio natural, uma puxação, um alimento pra espertar os puxos… Caribé [caldo de farinha com manteiga] com pimenta-do-reino [Piper nigrum] é muito bom nessas horas… Tudo isso dá coragem e força. No hospital não tem isso. Às vezes, a mulher pega até esculhambação quando grita ou reclama” (GUEDES, 2022, p.153).
Na leitura do livro, o leitor irá constatar que Fátima Guedes captou não apenas os conhecimentos práticos das pessoas, mas a sabedoria construída no decorrer de suas vidas, num diálogo franco, no qual alguns deram uma verdadeira lição de ecologia, de respeito à natureza e à sensibilidade de quem se encontra em situação vulnerável de saúde, e pede ajuda, merecendo o respeito acolhedor. Estes sábios da medicina tradicional relatam sobre o apoio espiritual que recebem, e compartilham seus saberes para “aculiar” com os médicos, o que quer dizer fazer alianças para beneficiar a comunidade.
No decorrer do livro, Fátima Guedes sempre tece comentários sobre saúde pública e menciona outros parceiros médicos que, como ela, defendem a importância da inclusão dos conhecimentos das práticas popular/tradicional nos cursos da área de saúde, em especial a medicina, para um reconhecimento que favoreça a inclusão dessas práticas populares em saúde dos agentes da curandage nas ações do Sistema Único de Saúde (SUS), tal como ocorreu com outras práticas que já estão incluídas nas Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (Pics). A autora participa de movimentos em prol da valorização e capacitação desses agentes da curandage e vem estudando o assunto há tempos. Quando realizou o curso de especialização em Estudos Latino-Americanos, na Universidade de Juiz de Fora, produziu a pesquisa denominada “A relação entre o conhecimento acadêmico e o saber popular/tradicional na construção da saúde pública de Parintins/Amazonas” (GUEDES, 2022, p. 76).
O livro “Vestígios de Curandage: memórias de saberes popular/tradicional”, de autoria de Fátima Guedes, poderá ser adquirido no sebo “O Alienista”, na feira da Eduardo Ribeiro aos domingos.

A imagem que abre este artigo é de autoria de Alberto César Araújo/Amazônia Real e mostra a escritora, Fátima Guerra durante o lançamento do livro “Vestígios de curandage” na Praça da Polícia em Manaus.
Referências:
GUEDES, Fátima. Vestígios de curandage: memórias de saberes popular/tradicional. Parintins – AM: Thiago Godinho Designer Gráfico, 2022.
FRANÇA, Elvira Eliza. Crenças que promovem a saúde: mapas da intuição e da linguagem de curas não convencionais em Manaus, Amazonas. Manaus: Secretaria de Estado da Cultura; Valer: 2002.
SANTOS, Arnoldo. A cura pela “mãe do corpo” e outras histórias de curadores de Parintins reunidas em um livro. BNC – Brasil Norte Comunicação, 20/06/2022. Disponível em: <https://bncamazonas.com.br/toadas/a-cura-pela-mae-do-corpo-e-outras-historias-de-curadores-de-parintins-reunidas-em-um-livro/>. Acesso em: 10/07/2022.
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