Leia a coluna Taquiprati deste domingo, 13 de fevereiro, do DIÁRIO DO AMAZONAS
Mestra Japira Pataxó recebeu o título de doutora pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) nesta quinta-feira (10). O que se exige para alguém ser doutor? Escrever uma tese após quatro anos de pesquisa num Programa de Pós-Graduação e submetê-la a avaliadores. Há aqueles que não cursaram o doutorado, mas possuem conhecimentos equivalentes adquiridos fora do ensino formal. Esses podem ser qualificados como “doutores por notório saber” se a tese que apresentarem for aprovada pela universidade. Foi o caso de Antônia Braz Santana – a Mestra Japira – pajé, parteira, rezadeira, narradora de histórias e profunda conhecedora das plantas.
Ela submeteu a uma banca de cinco doutores um memorial de dez capítulos acompanhado de material audiovisual com vários vídeos, além do seu livro “Saberes das terras Pataxó: da Beira Mar à Mata Atlântica”, resultado de uma pesquisa de mais de 40 anos, com ilustrações de seu filho Araruí. Lá, ela classifica 131 plantas medicinais pertencentes à restinga e a mata atlântica, uma quantidade maior do que a bibliografia recente sobre fitoterapia e farmacopeia Pataxó sistematizada em teses acadêmicas.
O sistema de classificação constitui a base de qualquer ciência – dizem os cientistas. “Sem a taxonomia se torna impossível o conhecimento científico” – escreve o linguista Nicolas Ruwet. O antropólogo Levi-Strauss destaca a contribuição para a humanidade do “pensamento selvagem” capaz de elaborar sistemas sofisticados de classificações em botânica, zoologia e biologia, o que já havia fascinado o botânico Barbosa Rodrigues, que nos fala do “rigor do método de classificação e da nomenclatura clara, precisa e exata” dos saberes indígenas.  É isso que a doutora Japira traz para dentro da universidade.
Natureza humanizada
Sua classificação vem acompanhada do conhecimento dos diferentes tipos ou espécies de plantas, seus habitats preferenciais, sua relação com o clima e a ecologia, seu potencial de uso medicinal, alimentar, entre outros e, especialmente, a concepção sobre a natureza do universo vegetal e seus constituintes. Antes de perguntar a utilidade de uma planta, Mestra Japira responde de onde ela veio, onde cresceu, e como adquiriu as propriedades medicinais, contextualizando-a em seu tempo histórico e em seu espaço. As plantas que maneja são empregadas como um tipo de “idioma vegetal”. Ela fala e entende a linguagem das plantas.
Seu livro é composto de diversos livros-biomas: o “Livro das plantas de quintal (domesticadas) Pataxó”, o “Livro das plantas do brejo”, o “Livro da Mata Atlântica”, o “Livro da Capoeira” e o “Livro da Restinga. Esses ecossistemas possibilitam um horizonte amplo de saberes sobre o relevo, os solos, a água, a fauna e a flora. E é essa compreensão que confere à mestra Japira sua força e seu papel social como guardiã de saberes e educadora.
De onde retirou tanto saber? Ela é herdeira de ancestralidades afro-indígenas, que lhe proporcionaram, como em todo doutorado, uma orientadora – sua avó parteira Maria Rosa, de origem negra – e um co-orientador, seu tio Pataxó Karuncha Dendê. A avó, possuidora de conhecimento fitoterápico e dos cuidados pré e pós-parto pegou mais de mil crianças.  O tio, pajé, profundo conhecedor do poder das plantas, percebia as espécies vegetais como partes da ação milenar da “natureza humanizada”. Ambos repassaram oralmente uma teia refinada de saberes, na qual plantas são portadoras de qualidades humanas e sociais.
Jardim-escola
O memorial descritivo trata da história dos Pataxó no sul da Bahia, apresenta uma biografia da mestra Japira e sua participação na luta pela demarcação das terras. A metodologia por ela empregada envolve narrativas históricas imemoriais, aulas de educação ambiental, cura a partir das plantas e a tecitura de uma rede de saberes coletivos.
Desde que nasceu, ela pulou de aldeia em aldeia, semeando seus saberes por onde transitava. Na Aldeia Novos Guerreiros, onde vive atualmente, criou o projeto jardim-escola, um espaço de diálogo e aprendizado com as plantas, visitado por indígenas e não-indígenas. Ela é reconhecida pela comunidade como grande educadora e detentora dos saberes tradicionais e da história do povo Pataxó.
A forma como ela ensina, a maneira como conversa com os alunos e os professores em suas palestras, rodas de conversa e andanças, leva os alunos para fora da sala de aula, criando uma pedagogia diferenciada. Ela vai andando e mostrando as plantas, suas raízes, o tipo de solo que cresce, a cor do caule, das folhas, as flores, os frutos cada espécie e o traçado das plantas. O diálogo com ela já orientou muitas monografias de conclusão de cursos e pesquisas de pós-graduação.
Embora a transmissão de seus conhecimentos seja marcada pela oralidade e pela interação com as espécies vegetais em seus ambientes, eles estão organizados também na escrita alfabética, em um formato gráfico, a partir da produção de desenhos e de texto.
O relatório da banca, da qual fez parte o antropólogo Gilton Mendes da UFAM, concluiu pela concessão do título de doutora por notório saber a mestra Japira, o que foi confirmado pelo Conselho Superior de Ensino, Pesquisa e Extensão da UFMG. Surpreendente é como essa sabedoria milenar, sempre banida do conhecimento dominantes no Brasil, somente agora entre pela porta da frente da academia
Fonte: Governo do Estado do Amazonas em 09/02/2022
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