Continuação do artigo anterior. O texto é de 2004, fruto da de palestra que fiz no Encontro Internacional de Pesquisa em Educação na Amazônia, na mesa-redonda de encerramento, sob o tema “Competência e Comunicação Intercultural”, em agosto de 2004. O texto foi transcrito de gravação de uma palestra que fiz, de improviso; daí a sua coloquialidade.
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A Amazônia desafia por quê? Porque ela é uma invenção total. A história da expansão da humanidade foi a história do homem agrícola, foi destruir florestas. A primeira lei ecológica do mundo foi baixada pelo rei da Suécia há 400 anos. O rei da Suécia proibiu que durante 20 anos as arvores do país fossem abatidas para produzir carvão vegetal. O carvão é o redutor que permite a fabricação, como permite até hoje, do ferro gusa. Você pega ferro, pega coque, pega alguns outros produtos, o carvão e transforma em aço. Então o rei sueco percebeu que era melhor não produzir aço sacrificando floresta, numa época em qu e todas as pessoas, os países faziam guerra com espada, com escudos de aço.
Nós somos hoje o único povo no mundo que produz ferro gusa à base de carvão vegetal [as guseiras da época, situadas ao longo da ferrovia de Carajás, faliram, mas recentemente recomeçou o ciclo, agora se valendo do ardil da “gusa verde”]. Nós temos cinco fabricas de ferro gusa em Marabá, mais sete fabricas de ferro gusa no Maranhão. São 12 fabricas de ferro gusa nos 870 quilômetros da ferrovia de Carajás, que hoje é o segundo caminho de sangria de riqueza do Brasil (o primeiro é a ferrovia Vitória-Minas, que liga as jazidas de minério de ferro de Minas Gerais ao porto de Tubarão, no Espírito Santo).
Nós temos o minério de ferro de Carajás, que é o mais rico do mundo, e estamos queimando nossas florestas para aumentar o teor de hematita, que naturalmente, na natureza, já é de 65%. Isso se chama estupidez. No entanto, nós fazemos discurso, nós fazemos festa para inaugurar cada nova estupidez que surge em Marabá, o que é que está acontecendo.
Não conseguimos ver a Amazônia, a Amazônia é muito maior do que a nossa estrutura mental, e nós achamos que porque moramos na Amazônia somos o dono do saber da Amazônia.
Mas qual saber, cara-pálida? O saber do colonizador, aquele que nos impede de utilizar os recursos mais sofisticados para queimar etapas, para permitir ver com a melhor estrutura intelectual. O que chocou o mundo foi o satélite ter registrado, de uma forma que não poderia ser escamoteada, que não poderia ser ocultada e nem censurada, o maior incêndio do mundo, em 1976, em plena ditadura. Os técnicos da Nasa, quando viram aquelas imagens, não sabiam o que era. Mandaram pra São Paulo, para saber quem era o novo Nero, que estava destruindo aquela estúpida quantidade de floresta.
Neste nosso encontro eu queria dizer o seguinte: a Amazônia faz parte do mundo. Não há muralha da China que impeça o mundo de penetrar na Amazônia. Como você pode impedir os satélites de percorrer a Amazônia? O Skylab levava 16 dias para completar as imagens da Amazônia. Se vocês forem para suas casas e ligarem o computador e entrarem no site da Nasa, vocês encontrarão vários satélites que cobrem a Amazônia todos os dias. Isso é ruim? Não, isso é bom. Todos os dias recebo o meu relatório do Proarco [programa de prevenção e controle de queimadas do Inpe, de São José dos Campos, São Paulo], de todas as áreas que estão sendo queimadas na Amazônia. Posso fazer isso todos os dias, com o máximo de informações e de segurança sobre os dados que coleto.
Na semana passada, por exemplo, eu detectei oito focos de fogo nas reservas dos índios kayapó. Vocês devem ter acompanhado, na semana passada, os xikrins, uma tribo kayapó. Eles se vestem maravilhosamente bem, à sua maneira, se pintam maravilhosamente bem, têm suas festas, rituais maravilhosos. Pois bem: eles queriam de qualquer maneira arrancar 900 mil reais da Companhia Vale do Rio Doce para pagar a conta do merceeiro, 900 mil reais que deviam ao merceeiro. Índio com dinheiro na mão pode ser tão consumista quanto qualquer um de nós em shopping center. Há vários meses os índios têm que pagar as suas contas, por isso foram para a porta da maior mina de cobre do Brasil, que é a mina da Serr a do Sossego, que começou a operar um mês antes de inaugurar, e foi muito triste ver os xikrins chantageando. Sim, porque aquilo que faziam era chantagem. Necessária, mas forçada.
Enquanto os xikrins tentavam tirar dinheiro da Vale indevidamente, os xavantes estavam morrendo de gripe em Mato Grosso, os bravos xavantes, que mereceram um dos mais belos estudos antropológicos já produzidos pelo homem, por um americano chamado Maibury-Lewis. Podíamos ver o drama amazônico, personificado em duas das maiores tribos da região: os xikrins batendo na porta da Vale para tirar dinheiro e os xavantes, sem dinheiro, morrendo da velha doença para qual eles não têm resistência, que é a gripe. Esse é o drama da Amazônia num momento em que o mundo inteiro, de diferentes formas, tenta fazer recuperação, tenta fazer contrabando, biopirataria, negócios comerciais escusos, pesquisas cien tificas da melhor qualidade, etc.
A velocidade da exploração
A Amazônia é o mundo. Na semana passada, a Alunorte, que fica a 50 quilômetros daqui, fechou o primeiro contrato internacional para concluir a segunda etapa da sua história, que começou menos de 10 anos atrás. Ela produz alumina, um pó branco que serve para fabricar alumínio. Começou produzindo 1,1 milhão de toneladas, passou para 2,4 milhões e com este empréstimo que ela fechou vai passar para 4,2 milhões de toneladas por ano. Em nove anos terá passado de 1.100.000 para 4.200.000 toneladas, tornando-se a maior fábrica de alumina do mundo. Mas poderá chegar a produzir 6 milhões de toneladas [hoje, são mais de 11 milhões de toneladas].
Eu estou dando um número que não deve significar muita coisa para o leigo, mas para quem é do mundo do alumínio é algo capaz de impressionar. E daqui até 2010 nós, do Estado do Pará, estaremos produzindo um terço da alumina do mundo. É um salto enorme. Como, então, criar muralha na China para impedir isso?
Nós somos o mundo, como o professor Asit lembrou. Nós estamos tentando fazer urgentemente que a globalização, imposta de cima para baixo pelo capital, seja a globalização por baixo, dos pobres, dos cientistas e das pessoas de boa vontade do mundo todo para com a Amazônia. Temos diante de nós um desafio, que pela primeira vez a humanidade vai poder responder positivamente, que é não destruir a floresta. O que nós já destruímos não tem igual na história da humanidade. No ano passado nós destruímos 25 mil quilômetros quadrados, quase o tamanho da Bélgica.
Estou falando em Bélgica porque um famoso economista brasileiro, Edmar Bacha, criou um neologismo chamado “Belíndia”, um pais que seria metade Bélgica e metade o país natal do nosso conferencista anterior, a Índia. Hoje a Bélgica é mais rica do que era na época em que foi criada essa imagem e a Índia nos passou em quase todos os critérios de articulação do desenvolvimento. Ou seja, nós estamos abaixo da Índia e da Bélgica. Nem merecemos mais sermos a “Belindia”. Temos milionários que ganham o dobro dos milionários suíços, mas uma massa de pobreza pior do que na Índia.
Precisamos inverter esse processo, porque esse processo vai fazer com que a Amazônia (daqui a duas décadas, três décadas, quatro décadas, é impossível precisar) pode se tornar uma savana africana. Não será aquilo que dois autores americanos na década de 70 previam, que seria o deserto vermelho. Não, ela não vai ser um deserto vermelho. Ela vai ser uma savana, vai ser um cerrado, vai ter uma vegetação de pouca ou nenhuma importância para o mundo, e vai ser pobre.
Nós, do Estado do Pará, hoje somos o sétimo Estado exportador do Brasil e o quinto em saldo de divisas, e vamos melhorar essa posição [o que, de fato, aconteceu]. Hoje temos uma exportação de dois bilhões de dólares. No final da década a nossa exportação será de sete ou oito bilhões de dólares. Somente dois ou três Estados brasileiros terão maior volume no comercio exterior do que o Pará. O que vai significar isso? Hoje com essa posição, nós que temos o segundo maior território do país e a 9ª maior população, mas somos a 16º em desenvolvimento humano (pelo IDH) e o 19º em desenvolvimento juvenil ( pelo IDJ). Este último indicador foi criado pelo pessoal da UNESCO no Brasil e foi aplicado, pela primeira vez no mundo, no próprio Brasil.
Nós, do Pará, que já tínhamos um índice de desenvolvimento tão abaixo da nossa potencialidade e da nossa grandeza territorial e demográfica, caímos mais três posições quando se trata de medir o desenvolvimento do jovem. Ou seja: nós estamos fazendo os jovens desenvolverem o subdesenvolvimento. Quando o indicador para jovem é pior que o indicador para adulto, isto significa que nós estamos comprometendo o futuro. E o futuro está diante de nós. Em todos os lugares do mundo em que se leva a sério o que se diz, já não há nenhuma dúvida de que o Brasil não será um bom administrador da Amazônia.
O que os falta para o progresso
Se depender só do Brasil, nós destruiremos a Amazônia. Essa é uma constatação muito triste e não basta reagir a ela com afirmativas nacionalistas, com declarações como “aqui ninguém tasca”. Se nós estamos no mundo e estar no mundo significa ficar pobre, nós devemos estar no mundo para usar os recursos do mundo para nos desenvolvermos, não para nos condenarmos à pobreza.
Nós temos 12% da água doce superficial do planeta, mas entendemos muito pouco de manejar água. Um dos problemas graves de Belém, a segunda maior cidade da Amazônia, é água. Um dado só: a quantidade de produtos químicos que a Cosanpa utiliza para dar potabilidade à água que nós consumimos é brutal. Nos Estados Unidos, país que criou o tratamento de água no início do século XX, usando cloro, há muitos anos os americanos já não têm nenhuma dúvida que o cloro tem que ser eliminado, porque o cloro tem um potencial cancerígeno que preocupa. E nós, ao usarmos tanto cloro no tratamento da água, estamos tão atrasados como quando comemoramos a fabricação de gusa à base de carvão vegetal.
Queremos utilizar o conhecimento que o mundo tem para que nós sejamos os donos desse processo e invertamos o resultado da equação. Para que, ao explorar recurso natural de uma forma mais intensa, isso signifique que nós vamos ficar mais ricos e nos libertar das teias do colonialismo. Mas como fazer isso, como comunicar isso?
No tema deste seminário, que estamos encerrando hoje, como comunicar a verdade, quando nós sofremos uma repressão brutal, mesmo que inconsciente? Temos que usar um conselho de um grande alemão, o poeta Bertold Brecht, que ensinava as cinco maneiras de dizer a verdade. Quando nós temos democracia, às vezes dizer a verdade significa uma falácia, quando a democracia não serve para estabelecer a relação entre os opostos, a polêmica, a controvérsia.
Precisamos dominar o nosso mundo. Precisamos ter essa base e saber o que comunicar. Mas não há receptividade. Há, ao contrário, resistência à mensagem, porque nós não sabemos nem a nossa história. Como, então, vamos aprender a contá-la direito?
Por isso, quero terminar contando uma historinha. Vocês estão vendo que a televisão está anunciando uma peça de teatro sobre a cabanagem. Cabanagem ficou tão popular quanto continua a ser desconhecida. Nós até temos uma Aldeia Cabana, construída pela prefeitura num lugar onde deveria ser carnavalizada a cabanagem, e nem é tanto porque não se consegue ver o pessoal dançando das arquibancadas da Aldeia Cabana. Quem construiu sabia muito de concreto e nada de carnaval, muito menos de cabanagem.
De cabanagem, que é o nosso grande acontecimento, todo mundo fala. É impossível ter eleição sem cabanagem. Sem cabanagem, os políticos não fazem o seu discurso. Foi a nossa tentativa de fazer parte do Brasil. Nós éramos Portugal até então, que nos reservou seu último suspiro, o canto do cisne do colonialismo português na América, do império português, que durou dez vezes mais do que dura até hoje o império americano (o império português durou 500 anos, o americano, com 50 anos, já virou Bush, então talvez não sobreviva tanto).
Algum dia seremos independentes?
Quando Portugal sentiu que era impossível manter do outro lado do oceano um país como o Brasil, sob o domínio do marquês de Pombal decidiu não perder a Amazônia. Foi então, no século XVIII, que Pombal começou a construir palácios e criar uma cidade para abrigar a sede do sub-reinado na Amazônia. Infelizmente para o Pombal o colonialismo português não demorou tanto. O projeto pombalino acabou ficando incompleto. Mas quando o Brasil proclamou sua independência, em 1822, isso foi um acontecimento de lá do Brasil, não tinha nada a ver com a Amazônia.
Alguns nacionalistas paraenses quiseram aderir logo à independência, em Muaná, no Marajó, em maio de 1823. Todos estes verdadeiros nacionalistas foram presos, alguns morreram, outros foram deportados, mas nenhum deles participou da festa de adesão do Pará à independência, que foi a 15 de agosto de 1823, no palácio construído por encomenda de Pombal e que hoje é o Museu do Estado. A festa foi organizada e executada pelos portugueses e 15 de agosto ficou sendo a data oficial lembrada nas escolas, pelos professores, foi nome da principal avenida de Belém.
Mas na verdade aquilo foi uma encenação porque tudo continuou português. Só em 1835 os amazônicos disseram: “chega de português, vamos romper, nós queremos aderir ao Brasil, ao império brasileiro”. E a cabanagem foi isto: a quebra do domínio português, 13 anos depois da independência. O Brasil se tornou independente, mas a Amazônia, não, ela continuou portuguesa. E portuguesa era para o Brasil. Custou-nos muito sangue nos tornarmos brasileiros. Na época morreram entre 20 e 30 mil pessoas durante os cinco anos da cabanagem. Adaptado para hoje, seria como se tivessem morrido dois milhões de pessoas em cinco anos.
Como foi que o Rio de Janeiro interpretou esse movimento? Interpretou esse movimento como uma coisa de cunho atrasado e de português. O presidente brasileiro, que era um paulista, o regente Feijó, um herói nacional, assim que soube da revolta dos cabanos chamou ao Rio de Janeiro os embaixadores de Portugal, de quem nos tínhamos libertado 13 anos antes, da França e da Inglaterra, numa reunião secreta, e pediu que a Inglaterra, que era os Estados Unidos da época, mandasse mil homens, França mandasse mil e Portugal mandasse outros mil, para reprimir a cabanagem. Os estrangeiros estavam autorizados secretamente a entrar no Brasil, matar os brasileiros, porque o império não tinha forças para reprimir ao mesmo tempo a re volta dos farrapos no Rio Grande do Sul, que naquela época se chamava São Pedro, e no extremo norte, dois pontos extremos do Brasil. O Rio de Janeiro ia tratar dos farrapos, porque os farrapos eram iguais, eram brancos, eram brasileiros, faziam parte da história do Brasil.
Nós só soubemos disto cinco anos atrás, quando um pesquisador encontrou em Londres os documentos do Ministério das Relações Exteriores e do Almirantado britânico. No meio da documentação havia uma carta na qual o embaixador da Inglaterra contava ao ministro que havia sido chamado para uma audiência secreta no Rio de Janeiro e estimulado a mandar tropas para a Amazônia sem autorização da assembleia provincial, algo que a constituição brasileira não permitia. A recomendação do embaixador era para não atender o pedido de Feijó, não porque a Inglaterra fosse democrática, respeitasse a autodeterminação dos povos, a soberania d os países, não. Era porque era mais rentável para a Inglaterra explorar a Amazônia através do império brasileiro.
É verdadeira a história que nos contam?
Por isso, quando vocês ouvirem num discurso, num programa de televisão ou num comício que a cabanagem impediu que a Inglaterra ocupasse a Amazônia, digam que esta pessoa está dizendo uma mentira. A Inglaterra não quis invadir a Amazônia, não porque a Inglaterra respeitasse a democracia brasileira, mas porque era mais rentável para a Inglaterra explorar a Amazônia através do governo brasileiro do que estabelecer um governo colonial inglês aqui, já que ela tinha problemas em outras partes do mundo. E eu me pergunto: será que mudou essa situação de lá para cá? Será que não é mais aceitável manter essa forma indireta de dominação e exploração? Será que nós, repetindo essas coisas, o que queremos é não encarar a verdade, que nos incomoda? Por que há cinco anos essas coisas foram reveladas pela primeira vez e, até hoje, os historiadores da Amazônia evitam se pronunciar sobre isso?
Por que esse silêncio de quase todos sobre esta história da Amazônia?
Porque é mais cômodo manter palavras de ordem em cima de falácias do que escutar a verdade. Mas como nós podemos dizer que somos os interpretes da Amazônia, só por morarmos aqui, se nós não dominamos nem a nossa história? Então eu queria deixar a interrogação, porque esse é o grande signo da Amazônia. Espero que, ao sair daqui vocês sigam atrás do ponto de exclamação. Porque é verdadeiramente a ferramenta com a qual se faz a história.
A imagem que abre este artigo mostra a vista aérea do complexo S11D, projeto da maior mina de minério de ferro a céu aberto do mundo controlada pela Vale, em Carajás (PA) (Foto: Ricardo Teles/ Agência Vale)
Além de colaborar com a agência Amazônia Real, Lúcio Flávio Pinto mantém quatro blogs, que podem ser consultados gratuitamente nos seguintes endereços:
* lucioflaviopinto.wordpress.com – acompanhamento sintonizado no dia a dia.
* valeqvale.wordpress.com – inteiramente dedicado à maior mineradora do país, dona de Carajás, a maior província mineral do mundo.
* amazoniahj.wordpress.com – uma enciclopédia da Amazônia contemporânea, já com centenas de verbetes, num banco de dados único, sem igual.
* cabanagem180.wordpress.com – documentos e análises sobre a maior rebelião popular da história do Brasil.
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