Em uma casa da Cidade de Deus (foto) nasceu o estúdio ‘Amazônida tranças’, da empreendedora Esthefany Kerollaine Souza – Foto: Reprodução

Criada no bairro Cidade de Deus, na zona Norte de Manaus — a quarta maior favela do país, conforme aponta o Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) —, a trancista Esthefany Kerollaine Souza, de 25 anos, criou seu próprio negócio em plena pandemia da Covid-19, com o objetivo de ajudar nas despesas da casa. Foi nesse momento que ela percebeu que empreender era uma das formas de mudar de vida.

Atualmente, ela é responsável pelo estúdio Amazônida Tranças, onde busca resgatar a ancestralidade de várias pessoas. “Como tranço meu próprio cabelo desde os 10 anos, surgiu a ideia de transformar essa habilidade em um serviço. Empreender acaba sendo uma das saídas que pessoas de baixa renda encontram para acessar uma vida com melhor qualidade, vejo meu trabalho com uma resistência, já que é focado em manter vivo penteados que estão atrelados aos povos originários”, disse.

Ao longo dos anos, o negócio criou raízes e, com o tempo, os primeiros frutos começaram a aparecer. Esthefany conta que um dos momentos mais marcantes foi quando conseguiu custear, sozinha, uma viagem inteira. Cinco anos após ter iniciado na atividade de trançar, os serviços já se tornaram sua principal fonte de renda, além de representarem uma forma de resistência e de garantir representatividade.

“Como mulher negra vejo a necessidade de ocupar espaços que não me via sendo reapresentada quando mais nova. Só o fato de existir um local focado em penteados afro já é extraordinário”, defende ela.

Empreendorismo como resistência: juventude periférica de Manaus supera desafios com talento
“Estou focada em expandir o estúdio contratando ajudantes e tenho como sonho montar uma loja que tenha preços mais justos e que facilite o trabalho de novas trancistas”, afirma Esthefany Kerollaine Souza – Foto: Divulgação

Ressignificando a moda urbana e sustentável
No outro extremo da capital amazonense, no bairro Morro da Liberdade, na zona Sul de Manaus, João Paulo, de 23 anos, fundou o brechó Organikos, que aposta na moda masculina de segunda mão como uma alternativa sustentável e criativa.

O empreendimento surgiu como uma continuidade e evolução de uma iniciativa familiar. Sem planejamento ou investimentos iniciais, o jovem começou a loja contando apenas com a experiência herdada da mãe, que já havia trabalhado no ramo.

Ao Toda Hora, ele revelou que o pontapé inicial foi a venda de uma peça que havia comprado para si, mas que não serviu.

“Como minha mãe trabalhava com brechó desde que eu era criança, e eu a ajudava, já sabia que era possível encontrar peças diferentes e de qualidade. Um dia, fui comprar roupas com ela e encontrei uma jaqueta da Levi’s. Foi muito boa a sensação de achá-la, mas ela ficou muito grande em mim. Minha mãe sugeriu que eu a vendesse. Postei nos stories e vendi em minutos. Naquele momento, percebi que aquilo poderia ser uma boa ideia de negócio”, explicou  João Paulo.

Perspectiva
Casos como os de Esthefany e João Paulo exemplificam o poder e as possibilidades de transformação proporcionadas pelo empreendedorismo. Segundo levantamento do IBGE, 1.151.828 manauaras vivem em favelas e a maioria da população é composta por mulheres, totalizando 1.064.847. Além disso, pretos e pardos somam 1.550.625 pessoas, o que representa aproximadamente 75,14% da população total de 2.063.689 habitantes da capital amazonense.

A força jovem também tem se destacado cada vez mais. Em 2024, o Amazonas registrou um aumento de 10,4% no número de Microempreendedores Individuais (MEIs). Nesse contexto, os jovens configuraram o segundo grupo predominante, conforme aponta o Mapa de Empresas do Amazonas, divulgado pela Junta Comercial do Estado (Jucea).

Esthefany e João Paulo compartilham o desafio da falta de apoio institucional e das barreiras logísticas típicas da periferia e das especificidades da Região Norte, mas mostram como a criatividade, o propósito e o olhar atento às demandas locais podem se transformar em força empreendedora.

Janela de oportunidades
O cientista político Helso Ribeiro classifica casos como esses como “janelas e portas de oportunidades” para pessoas sistematicamente excluídas e sugere que os poderes públicos, em parceria com entidades privadas, criem mecanismos que ampliem as chances de jovens ingressarem em novos universos.

“Uma das alternativas seria uma parceria público-privada. O poder público pode facilitar a formação desses jovens, oferecendo cursos técnicos para que não cheguem ‘crus’ ao mercado de trabalho. A partir daí, empresas interessadas em contribuir com o crescimento da juventude periférica podem oferecer oportunidades como contrapartida. Sabemos que não é possível cobrar resultados imediatos, mas é uma tentativa”, afirmou o cientista político.

Iniciativas
Uma das iniciativas voltadas a incentivar o empreendedorismo entre jovens da periferia é o Projeto de Lei nº 046/2024, aprovado pelos vereadores da Câmara Municipal de Manaus (CMM). De autoria do vereador Ivo Neto (PMB), o Programa de Apoio e Incentivo à Cultura Empreendedora nas Comunidades de Manaus prevê cursos de capacitação, workshops, apoio técnico, criação de redes colaborativas entre empreendedores e a oferta de espaços para a incubação de negócios comunitários.

“Estamos construindo um caminho mais justo para quem deseja crescer por meio do próprio trabalho. O empreendedorismo é uma ferramenta de transformação social e econômica, e o poder público desempenha um papel fundamental nesse processo. Queremos que mais pessoas tenham a chance de empreender em seus próprios bairros, com dignidade, conhecimento e apoio técnico”, explica o parlamentar.

Embora ainda precise ser sancionado pelo prefeito David Almeida (Avante), o projeto de lei é uma importante ferramenta para incentivar jovens de bairros periféricos e marginalizados, que muitas vezes não dispõem de alternativas concretas para mudar de vida.

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