Em entrevista à Amazônia Real, um dos maiores especialistas em mudança climática do mundo explica a chegada do El Niño e as ondas de calor que diversas cidades na Europa enfrentam. O cientista ressalta o que é esperado a respeito dos impactos do fenômeno junto com a temporada de queimadas na Amazônia (Foto: César Nogueira/Amazônia Real).
Manaus (AM) – Fenômeno climático que ocorre há milhares de anos, o El NiÑo aumenta em frequência devido ao efeito estufa provocado pelas emissões humanas e causa ondas de calor acima das registradas em décadas anteriores.
Este ano, a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (Noaa), dos Estados Unidos, registrou a mais alta temperatura na superfície do oceano em 41 anos. Em abril, a temperatura do oceano chegou a 21,1 graus, a mais alta desde 1982. Em julho, a temperatura voltou a crescer e bater novamente os 21 graus. Os registros do Noaa ilustram que desde 2016 o aquecimento do oceano sobe desenfreadamente, com picos nos últimos anos.
Na Amazônia, vários exemplos mostram mudanças no modo de vida das populações tradicionais, ribeirinhas e indígenas, indicando alterações no clima. Como um dos exemplos, pescadores não conseguem mais prever a subida e a descida dos rios. O açaí, fruto amazônico com importância no mercado internacional, também é afetado.
O cientista Philip Fearnside, pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e colunista na Amazônia Real, dedica a vida a alertar sobre o impacto destrutivo dos grandes empreendimentos na região.
Altamente reconhecido e sendo o segundo autor mais citado em aquecimento global do mundo, Fearnside ressalta diversos estudos que preveem que a Amazônia e o Brasil, até o fim do século, terão secas sem precedentes e estarão com uma temperatura quatro graus acima da média atual.
Pós-Bolsonaro, pesquisadores questionam se o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), responsável por derrubar as taxas da destruição florestal entre os anos 2000 e 2010, será suficiente para o Brasil conseguir diminuir as emissões e zerar o desmatamento.
Apesar do relançamento do PPCDAm em junho e de haver uma queda no desmatamento da Amazônia em até 33,6% nos seis primeiros meses de 2023 em comparação ao mesmo período em 2022, os focos de queimadas já superam os do ano anterior.
Este ano, o Mato Grosso é o estado mais afetado de janeiro a julho, com um aumento de 20% de focos com relação a 2022. Além do aumento significativo, Mato Grosso também concentra quase metade de todos os focos de calor na Amazônia Legal, com 43,8% de todas as queimadas.
Unida a um El Niño mais intenso devido às emissões, a temporada de fogo na Amazônia acende um alerta sobre como os impactos gerados pelo homem podem contribuir para destruições e avanço na fronteira do desmatamento.

Leia a entrevista exclusiva de Philip Martin Fearnside sobre o tema a seguir:
| Amazônia Real – Qual é a explicação para o El Niño? Philip Martin Fearnside – O El Niño resulta do aquecimento de água na superfície do Oceano Pacífico perto da linha do Equador. Isso afeta as correntes de ar, alterando o clima em diferentes partes do mundo. No sul do Brasil, por exemplo, o resultado são inundações no lugar de secas. Os impactos podem ser diferentes dependendo de qual parte do Pacífico equatorial esquenta. Por exemplo, a parte central versus a parte oriental. Os impactos na Amazônia também dependem da combinação das temperaturas de água no Pacífico com as temperaturas no Atlântico. Amazônia Real – Como o senhor avalia o fenômeno esse ano? Ele vai ser muito forte e pode ser comparado com o El Niño Godzilla, de 2016? Amazônia Real – Quais são os impactos do El Niño sobre as regiões onde há muita queimada? Amazônia Real – Há uma estimativa do tempo de duração do El Niño este ano? Amazônia Real – Quais regiões da Amazônia devem ter uma atenção maior durante este período? Amazônia Real – Os impactos do El Niño e a frequência com que ele ocorre podem ser intensificados com o aumento do aquecimento global e do desmatamento na Amazônia? Amazônia Real – Quais as previsões para a Amazônia nas próximas décadas? Para garantir a defesa da liberdade de imprensa e da liberdade de expressão, a agência de jornalismo independente e investigativa Amazônia Real não recebe recursos públicos, não recebe recursos de pessoas físicas ou jurídicas envolvidas com crime ambiental, trabalho escravo, violação dos direitos humanos e violência contra a mulher. É uma questão de coerência. Por isso, é muito importante as doações das leitoras e dos leitores para produzirmos mais reportagens sobre a realidade da Amazônia. Agradecemos o apoio de todas e todos. Doe aqui. Republique nossos conteúdos: Os textos, fotografias e vídeos produzidos pela equipe da agência Amazônia Real estão licenciados com uma Licença Creative Commons – Atribuição 4.0 Internacional e podem ser republicados na mídia: jornais impressos, revistas, sites, blogs, livros didáticos e de literatura; com o crédito do autor e da agência Amazônia Real. Fotografias cedidas ou produzidas por outros veículos e organizações não atendem a essa licença. |
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