Dizem que um bom título ou chiste não se precisa explicar, mas na dúvida falo-ei. Em primeira instância estamos falando do racismo no futebol, modo geral; porém, remetendo à conhecida expressão popular que define o evento mais atual. No caso, o envolvendo o jogador Vini Jr, do Real Madrid e seleção brasileira.
Esse episódio difere do comum na nada nova ou desconhecida prática nos estádios, em especial europeus. Para além da torcida agressora, o envolvimento se estende para jogadores do time adversário, equipe de arbitragem, parte da imprensa que cobria o jogo e até a cúpula da própria Liga espanhola LaLiga.
Uma sequência nada usual, que desencadeou uma reação global pesada, intervenção da FIFA e uma série de atos políticos condenando os atos racistas que perseguem não apenas Vini Jr. , mas no momento muito representados nele.
Outro ponto é justamente a diferença entre o engajamento antirracista de Vini Jr. e o de outros jogadores brasileiros que passaram por agressões e responderam com comportamentos evasivos, ou mesmo estapafúrdios como comer banana e se fantasiar de macaco. Isso quando não declararam estranhamento por sofrerem ofensas racistas “sendo brancos”…, uma completa falta de noção.
Fui ver a reação nos comentários da notícia no New York Times, bom termômetro cosmopolita. Tem de tudo, desde o clássico “deixa prá lá e apenas jogue”, passando por mensagem islâmica falando de igualdade, apoios emocionados, esbravejamentos, gente sugerindo que ele deixe o futebol espanhol e até uma lembrança interessante de que uma torcida muito conhecida pelo racismo, tem usado bastante a bandeira da Ucrânia nas suas manifestações, historicamente faz sentido.
Metarracistas também não deixaram de aproveitar o episódio para lançar suas hipocrisias e cinismos, trabalhando pela minoração do problema e sua manutenção.
Ações governamentais bilaterais entre Brasil e Espanha foram acionadas, virou caso diplomático e de Estado.
Sete já foram identificados e presos até o momento em que escrevo. O Cristo Redentor já ficou preto, notas de repúdio pipocam, até a rápida Federação Amazonense de Futebol já emitiu novíssimo regramento que se pretende “firme e duro” contra o racismo nos campos locais.
Tudo muito “tocante”, mas fica a pergunta. Por qual motivo parece que o racismo ganha maior vileza quando ocorre lá fora? Por qual motivo o nosso racismo doméstico, cotidiano e para muito além dos gramados, segue ou não sendo visualizado por muitos, ou não tendo tanta assertividade na critica e ações práticas antirracistas?
É bom que o mundo todo se alvoroce pelo Vini Jr. e contra o racismo, mas é também importante que essa consciência se espalhe e mobilize pelas muitas vítimas não tão badaladas dessa abominação que é o racismo em todas suas nuances e práticas.
A imagem que abre este artigo mostra Vini Jr. ao fim de uma partida do Real Madrid (Foto: Reprodução/Redes sociais)
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