Familiares e amigos do menino Benício Xavier de Freitas, de seis anos, realizaram uma manifestação na manhã desta segunda-feira (1º/12) em frente ao Conselho Regional de Medicina do Amazonas (CRM-AM), pedindo justiça e responsabilização pela morte da criança, ocorrida no dia 23 de novembro no Hospital Santa Júlia, em Manaus.
O presidente do CRM-AM, José Carlos Esteves, recebeu os pais e declarou que o órgão instaurará um procedimento interno para apurar toda a conduta da médica Juliana Brasil no atendimento ao menino. Segundo ele, o conselho já iniciou a coleta de informações e garantiu rigor na análise.
“O CRM manifesta suas condolências e está à disposição para colaborar com as autoridades policiais e judiciais, assegurando uma investigação imparcial”, afirmou Esteves, destacando à família que todos os envolvidos serão investigados.
Família acusa hospital de “erro sistêmico”
Os pais de Benício reforçaram, durante o ato, que houve “uma sucessão de erros sistêmicos”, envolvendo prescrição médica, administração da medicação e falta de supervisão. Eles apontam que a técnica de enfermagem Raiza Bentes teria aplicado uma dose elevada de adrenalina sem controle adequado, sob prescrição da médica responsável pelo atendimento de Benício.
“Ela não tem postura de médica. Médico salva vidas. Ela não salvou a vida do meu filho. Quando ela chegou para ver meu filho, não tinha ação, não sabia o que fazer, não saía do celular. A equipe de enfermagem estava ajudando mais do que ela”. disse Joyce Xavier, mãe do menino.
A ausência de um farmacêutico também é apontada como falha no atendimento prestado no hospital. “Será que um profissional de farmácia não teria observado que 9ml é uma quantidade imensa para uma criança de 6 anos? Um farmacêutico poderia ter salvado a vida do meu filho”, desabafou Bruno Freitas, pai de Benício.
Além disso, a mãe da criança afirma que não recebem auxílio do Hospital Santa Júlia. “O único momento em que nos comunicamos foi quando solicitamos o printuário médico do Benício, depois, não houve mais nenhum contato da parte deles”, afirma a mãe de Benício.
Linhas de investigação
O delegado Marcelo Martins, responsável pelo caso, explicou que a polícia está verificando cada etapa do atendimento. Ele afirmou que o depoimento de um médico, identificado como Henrique, serviu para confirmar a autenticidade das mensagens que circularam nas redes.
“Os procedimentos iniciais foram corretos, mas analisamos agora as ações subsequentes, como a questão da UTI, o tempo de resposta e a responsabilidade criminal de todos os envolvidos”, disse.
O delegado destacou ainda a apuração sobre o número de profissionais disponíveis no setor no momento da administração do medicamento.
“A técnica Raiza afirmou que estava sozinha e que não havia supervisão para um medicamento de controle rigoroso. Vamos investigar quem deveria garantir um quadro maior de profissionais”, afirmou.
Segundo Marcelo Martins, a investigação aponta que houve erro de prescrição: “A médica mencionou que houve um problema no sistema, com uma prescrição equivocada que ela não revisou, mas verbalmente teria informado que a adrenalina seria por nebulização. Já a técnica alega que apenas seguiu o que estava prescrito”, explicou.
A Polícia Civil do Amazonas (PC-AM) trata o caso como homicídio doloso com dolo eventual. Uma acareação entre a médica e a técnica está marcada para esta quinta-feira (04/12), e outros profissionais — como fisioterapeutas, farmacêuticos e médicos — também serão ouvidos.
CRF-AM aponta falhas no hospital
Em nota, o Conselho Regional de Farmácia do Amazonas (CRF-AM) informou que realizou uma vistoria técnica no Hospital Santa Júlia no último sábado (29/11) e constatou que não havia análise farmacêutica prévia das prescrições emitidas nas farmácias satélites do pronto-socorro e do centro cirúrgico.
Segundo o órgão, isso ocorreu por causa do “quadro reduzido de farmacêuticos” contratados pelo hospital. O CRF-AM afirmou que “não houve participação do farmacêutico na dispensação do medicamento envolvido no caso” e que está revisando protocolos internos. O relatório final será encaminhado ao Ministério Público e à Polícia Civil.
A entidade reforçou que a presença do farmacêutico é obrigatória em todas as etapas da medicação e que continuará acompanhando as investigações para garantir responsabilidade e segurança aos pacientes.
“O CRF-AM está se reunindo com a equipe de fiscais e também com Sociedades Científicas de Farmácia para analisar e fazer todas as adequações no seu plano de fiscalização”, disse o vice-presidente do CRF/AM, Charles Galvão.
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