A quinta edição do evento aceita filmes de até 25 minutos de duração, em live-action e animação, para todas as categorias. Após mobilização, este ano foi fortalecida a curadoria feminina e o evento terá também filmes de Mato Grosso e do Maranhão, estados da Amazônia Legal (Foto: Larisa Martins).


Manaus (AM) – Pela primeira vez, filmes do Mato Grosso e do Maranhão poderão competir na mostra principal do Festival de Cinema da Amazônia – Olhar do Norte. O conceito artístico da quinta edição do evento, que acontecerá de 22 a 25 de agosto no Teatro Amazonas, centro de Manaus, pretende ampliar a participação de produções audiovisuais de todos os estados da Amazônia Legal na principal mostra competitiva, que passa a ser chamada de Mostra Amazônia. 

Conforme ocorreu na edição anterior, as principais mostras de 2023 serão exibidas no Teatro Amazonas. A programação paralela, com exibições e atividades de formação audiovisual, será realizada em outros espaços culturais no centro da capital. 

A previsão é que a divulgação dos selecionados para o festival ocorra na segunda quinzena de julho.

Para Diego Bauer, diretor artístico do Olhar do Norte, a iniciativa de incluir produções do Mato Grosso e Maranhão na Mostra Amazônia é uma forma de manter fortalecida “uma ideia de festival que valoriza as nossas histórias e características locais”. Bauer afirma ser essencial manter o foco em filmes da região como principais referências, uma maneira de enfrentar a estrutura dos grandes festivais de cinema brasileiros, que costumam ignorar a expressiva produção de obras amazônicas em suas seleções.

“Um festival grande seleciona, por exemplo, 30 filmes e desses apenas um ou dois são do Norte. Então, a gente sempre quis fazer um festival que fosse o contrário, um festival voltado para a região amazônica e que esteja interessado nos filmes da região como elemento principal”, declara o diretor.

Ao assumir uma identidade amazônica, o festival conseguiu colocar em prática uma discussão que já existe desde a primeira edição. “Quando idealizamos o festival, nós tínhamos a intenção de valorizar os realizadores da região Norte e a primeira edição teve toda a sua discussão voltada para isso. Porém, era bem claro na nossa cabeça o potencial do festival de expandir e ampliar os espaços para que pudéssemos abraçar e colocar na nossa identidade o conceito de Amazônia, que já estava vindo à tona em edições anteriores”, afirma Hamyle Nobre, produtora cultural e uma das organizadoras do Olhar do Norte.

Outra novidade é a Mostra Olhinho, dedicada a filmes para o público infanto-juvenil. Não-competitiva, a mostra nasceu a partir da necessidade de incluir as faixas etárias não contempladas pela maioria das obras apresentadas, além de despertar o interesse no público infantil. “É uma maneira de oferecer para o público algo que surpreenda e chegue a mais pessoas. O público infantil é uma formação de base fundamental e eu acho que desde cedo é importante que tenhamos acesso a obras culturais e fora do circuito comercial”, diz Bauer.

Realizadoras ganham espaço

Cerimônia de premiação de 2022 (Foto: Larissa Martins)

A falta da participação feminina nas produções selecionadas para a mostra principal da última edição do festival, em 2022, provocou a mobilização de atrizes, assistentes, produtoras e roteiristas que atuam no audiovisual no Amazonas. Ao subirem no palco do Teatro Amazonas, as realizadoras cobraram mais espaço para a produção de mulheres e convocaram a criação de um Coletivo de Mulheres do Audiovisual, que começou a ser pensado em Manaus.

A participação feminina do audiovisual chegou a ser tema de uma das rodas de conversa da  programação paralela da quarta edição do festival, quando aconteceu um debate com o tema “Mulheres no audiovisual: representatividade e equidade”. A roda de conversa contou com a participação das atrizes amazonenses Isabela Catão e Rosa Malagueta, da diretora Sabrina Trentim, de Tocantins, e da realizadora audiovisual Keyla Sankofa, também do Amazonas.

Diante das cobranças, a organização do Olhar do Norte assumiu o compromisso de priorizar a participação feminina na curadoria do festival. Nesta edição, a diretora Flávia Abtibol é uma das curadoras. “Esperamos que as mulheres estejam cada vez mais presentes no festival, nas produções selecionadas, nos espaços de diálogo e na própria organização”, declara  Hamyle.

A diretora paraense Adriana de Faria, premiada na edição de 2020 do Olhar do Norte nas categorias melhor direção, melhor filme e melhor atuação pelo filme “Ari y Yo”, acredita que o festival tem o potencial de não apenas contemplar os trabalhos das mulheres, como também de os reconhecer. “O Olhar do Norte é uma das maiores vitrines que as realizadoras daqui tem para mostrar ao público as nossas obras. A gente ainda tem essa resistência e dificuldade de fazer com que os nossos filmes cheguem a um público mais amplo, e eu acho que esse festival faz esse trabalho muito bem”.

Adriana diz que o festival também traz um sentimento de representação e identificação, por ser um dos únicos que prioriza a produção audiovisual da Amazônia. “De uma maneira ou outra a gente acaba se sentindo isolado em festivais de cinema brasileiros, tentando trocar com os realizadores de outros estados. Mas quando a gente está em um festival de cinema do Norte, em que estamos entre os nossos, essa representação é diferente e há uma identificação, porque nossas obras são apagadas do circuito nacional”.

Vencedora da categoria melhor filme, na mostra principal da 4ª edição do festival, com o filme “Utopia”, a diretora e jornalista  Rayane Penha, do Amapá, celebra a descentralização na seleção. “As obras da Amazônia que vemos dentro do festival estão para além das grandes capitais amazônicas que já estão produzindo de forma mais recorrente aqui na região. Vemos também filmes de outros lugares, principalmente cinema de comunidades indígenas, de comunidades rurais e quilombolas. É importante para mostrar que a Amazônia é composta de diversas narrativas plurais”.

Intercâmbio cultural

Premiação da Mostra Outros Nortes (Foto: Larissa Martins)

Outras duas mostras integram a programação do festival, com abertura para inscrição e exibição de filmes de outros estados do Brasil ou comandados por diretores brasileiros. São elas: Mostra Outros Nortes e Mostra Olhar Panorâmico. A última terá seleção exclusiva pelos curadores. “O festival sempre teve foco para os realizadores da Amazônia. Ao mesmo tempo, também pensamos que é bom receber trocas e acompanhar as discussões que estão acontecendo em outros centros urbanos do país. São artistas de outros lugares e que estão em situação parecida com a nossa, em termos de produção audiovisual. Esses diretores também estão com as mesmas dificuldades que as nossas, como ter pouca grana e ter que encontrar métodos criativos de produção a partir disso”, enfatiza Bauer. 

Segundo Hamyle Nobre, as mostras Outros Nortes e Olhar Panorâmico são vitrines de filmes relevantes de outros estados brasileiros. “Essas mostras são oportunidades de assistir filmes que não estão incluídos no circuito amazônico, então servem também para a Amazônia ficar por dentro do que está acontecendo na produção audiovisual brasileira”, explica.

Além disso, a diversidade de temas é um ponto levantado pela organização do festival, que quer priorizar a produção contemporânea da região amazônica e suas diferentes perspectivas audiovisuais e narrativas. “Nós entendemos a Amazônia como um lugar plural, complexo e repleto de particularidades. Então, por existir essa diversidade de temas presentes nas produções audiovisuais daqui, não queremos delimitar temas”, diz Hamyle. 

“Ao mesmo tempo que nos mantemos interessados em fazer um festival com as nossas características amazônicas, nunca fechamos demais com temas específicos, até por entender que as nossas diferenças são a graça do festival. Podemos falar de qualquer assunto dentro do conceito de uma identidade amazônica”, complementa Bauer. 

Inscrições gratuitas estão abertas

O 5º Festival de Cinema da Amazônia – Olhar do Norte aceita filmes de animação e live-action, de até 25 minutos de duração, para todas as categorias. Filmes longa-metragem entram na programação apenas como convidados. Conforme o regulamento, podem se inscrever nas mostras oficiais produções realizadas a partir de 1º de janeiro de 2022. As inscrições terminam nesta sexta-feira (16), de forma gratuita, pelo site: 

www.festivalolhardonorte.com.

O festival é uma realização da Artrupe Produções, com apoio do Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, em parceria com o Cine Set e parceria estratégica de IAI Promoções.

Premiação do 4º Olhar do Norte no Teatro Amazonas (Foto; Larissa Martins)

Serviço:

5º Festival de Cinema da Amazônia – Olhar do Norte

Quando: 22 a 25 de agosto de 2023

Onde: Teatro Amazonas

Quanto: Gratuito

Inscrições abertas para a mostra de filmes até esta sexta-feira (16)

Mais informações:

www.festivalolhardonorte.com


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