Publico uma versão resumida da extensa resposta que dei a Paulo de Tarso Alvim, numa polêmica travada em 1977, através da minha coluna diária no jornal O Liberal, de Belém do Pará.

Certa vez, durante um debate acadêmico na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, uma professora da cadeira de sociologia rural ficou irada comigo. Encarregado de analisar um texto do sociólogo francês Henri Mendras, fiz críticas à pesquisa de campo e às conclusões gerais do autor. “Mas você sabe quem é o Mendras? Ele é famoso”, reagiu a professora, sem se importar com o conteúdo da argumentação. Afinal, a fama serve para alguma coisa, aprendi.

O diretor técnico-científico da Ceplac, Paulo de Tarso Alvim, me fez lembrar desse triste episódio da minha já encerrada carreira acadêmica ao responder, na semana passada, a uma resenha que fiz de um dos seus trabalhos. Ao longo de toda a sua extensa carta, que uma viagem a São Félix do Xingu me impediu de responder imediatamente, Alvim se preocupa em mostrar a distância que separa um jornalista de um cientista, a seu ver incomensurável e irremissível.

Um leigo, como eu, não tem o direito de contestar um mestre, nem pode se atrever a tratar de temas aos quais se dedicam os monopolizadores cientistas, entre os quais o dr. Alvim efetivamente pode ser incluído. Julgando-se ofendido por algumas das colocações que fiz, o dr. Alvim parece mais preocupado em punir o insignificante jornalista que ousou levantar suspeitas sobre a sua sapiência do que procurar instruir os pobres leigos – que todos nós outros somos.

É realmente lamentável que alguns dos nossos pesquisadores continuem a agir como autênticos mandarins, cultivando distância cada vez maior do povo, preferindo usar linguagens codificadas a abrir as portas para uma divulgação mais ampla. Fecham-se em seus laboratórios da verdade e de lá despejam os modelos que os pobres mortais devem passivamente aceitar.

O que mais tememos hoje na Amazônia é a sua “africanização”, no sentido que empreguei e que o dr. Alvim diz inexistir. Ele garante que o “sistema agrário que predomina na maioria dos países africanos é o minifúndio” e que as plantations são “geralmente escassas”. Ele sofisma: na África, como na Amazônia, há maior número de minifúndios realmente, mas eles ocupam uma área insignificante em relação à dos latifúndios.

No Quênia, em 1950, 42 mil quilômetros quadrados das melhores terras foram atribuídas a 23 mil colonos europeus, enquanto 3,3 milhões de nativos precisavam se dividir em 108 mil quilômetros quadrados de terras estéreis (as “reservas”, por eles ocupadas, é bom lembrar, foram uma engenhosa invenção europeia para agrupar os indígenas e assim agrupar a mão de obra às proximidades das grandes propriedades, que precisavam desses trabalhadores a peço baixo). Na época, cada europeu dispunha de 240 hectares de boas terras, bem servidas de vias de comunicação, enquanto para cada chefe de família indígena restavam 3 hectares de solo em média. É só um entre muitos exemplos.

Jack Woodis, Josué de Castro, Eduardo Portela e muitos outros mostram que os africanos não se rebelaram apenas por estarem interessados em promover uma revolução tecnológica para passar a um estágio mais adiantado de produção de alimentos, mas sim porque não tinham acesso a nada, inclusive à terra, embora fossem esmagadora maioria. Os argumentos do dr. Alvim me fazem lembrar, além da minha professora de sociologia rural, Cecil Rhodes.

Numa série de reportagens publicadas recentemente, analisando justamente os problemas agrários da Amazônia, procuramos alertar o governo para o perigo do estímulo à disseminação de grandes propriedades na região e da solidificação do minifúndio através da titulação equivocada que o Incra vem praticando. As próprias estatísticas do recadastramento demonstram que as pequenas propriedades, que são núcleos de produção de alimentos, não apenas produzem em maior volume do que as grandes, mas também comercializam mais.

Isto quer dizer que embora elas não definam sua produção com vistas ao mercado, utilizando cálculo econômico, é delas que sai a mais representativa produção agrícola da Amazônia. Enquanto a grande propriedade se dedica aos produtos de exportação em projetos de enclave, a pequena alimenta os outros e a si também. E apesar de quase todo o estimulo oficial estar sendo concedido à grande propriedade.

O dr. Alvim reduz sua contribuição (importante nesse setor) aos aspectos agronômico e agrícola. Ele está preocupado em obter o melhor rendimento econômico possível do solo e que essa utilização seja também racional. Mas sua visão é um tanto estreita porque não abrange o aspecto político (quem possui a terra). Esta resposta não tem a pretensão de diminuir seus méritos, mas me recuso a aceitar que eles bastem para dar conteúdo de verdade às suas ideias.


A imagem que abre este artigo é de autoria de Bruno Kelly e mostra gados pastando em área desmatada no município de Apuí, no estado do Amazonas.


Além de colaborar com a agência Amazônia Real, Lúcio Flávio Pinto mantém quatro blogs, que podem ser consultados gratuitamente nos seguintes endereços:

* lucioflaviopinto.wordpress.com – acompanhamento sintonizado no dia a dia.

* valeqvale.wordpress.com – inteiramente dedicado à maior mineradora do país, dona de Carajás, a maior província mineral do mundo.

* amazoniahj.wordpress.com – uma enciclopédia da Amazônia contemporânea, já com centenas de verbetes, num banco de dados único, sem igual.

* cabanagem180.wordpress.com – documentos e análises sobre a maior rebelião popular da história do Brasil.

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