Com o avanço dos casos de intoxicação por metanol no país, o Amazonas intensificou as ações de vigilância e prevenção para evitar o consumo de bebidas adulteradas. Mesmo sem casos suspeitos ou confirmados, o setor de bares e restaurantes local atua com atenção redobrada e teme o impacto da crise do metanol.
Conforme o Ministério da Saúde, até quinta-feira (09/10), o Brasil registrou 24 casos confirmados e mais de 230 em investigação de intoxicação pela substância, em diferentes estados. A maioria dos casos está concentrada em São Paulo, sendo 20 casos confirmados e cinco óbitos.
“Sabemos da gravidade e estamos reforçando com os empresários os cuidados na compra de produtos. Em parceria com entidades do setor de bebidas, estamos oferecendo treinamentos para identificar sinais de adulteração”, afirmou o empresário Rodrigo Zampelini, conselheiro da Associação Brasileira de Bares e Restaurante (Abrasel) Amazonas.
Zampelini também pede para a população continuar frequentando estabelecimentos de confiança. “Esperamos que em breve essa situação esteja totalmente controlada e possamos virar essa página sem casos novos em nenhum lugar do Brasil”, finalizou.
Já Rafael Verdugo, coproprietário e chef executivo do Farrapo Cozinha, localizado no Centro Histórico da capital e com cardápio repleto de drinks a base de destilados, explica que o bar sempre teve e mantém uma série de cuidados.
“Fazemos uma verificação completa em todas as embalagens e em todos os lotes, a qual é muito importante conferir com a nota fiscal para identificar falsificação, mas desde que abrimos nunca tivemos esse problema”, disse.
Além disso, o empresário ressaltou que a origem das bebidas também reforça a segurança, por ser adquirida com uma distribuidora britânica. “Temos esse cuidado real em não comprar nenhum tipo de bebida, nem cerveja, que não tem nada a ver com o destilado, em locais que não seja de extrema confiança”, complementou, acrescentando que movimentação de clientes segue normal.
Suspensão do consumo
Entre os consumidores, a preocupação também é crescente. Miará Bassê, 25, contou que decidiu suspender o consumo de destilados por precaução. “Prefiro evitar por via das dúvidas. Gosto de tequila e vodka, que são mais suscetíveis à falsificação. É melhor dar um tempo e ficar segura”, disse.
Já Eliza Dinelli, 24, relatou que optou pelas cervejas. “Estou bebendo só cerveja e de lugares de confiança. Nada de barracas ou locais suspeitos”, contou.
Fiscalização
No Amazonas, a competência para fiscalizar a produção de bebidas é do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Nesta semana, a Diretoria de Vigilância Sanitária (Visa Manaus), da Secretaria Municipal de Saúde, fiscalizou distribuidoras de bebidas alcoólicas e fábricas de bebidas artesanais na capital.
“Nessas ações, os fiscais estão checando a rotulagem, embalagem, lacres, bem como as notas fiscais e registros no Ministério da Agricultura e Agropecuária das bebidas”, explicou a diretora da Visa Manaus, Maria do Carmo Leão.
Até quarta-feira (08/10), 20 estabelecimentos já foram averiguados. Em apenas um dos casos, uma distribuidora de bebidas, na zona Leste, foram encontradas garrafas de uísque cujo lacre foi considerado frágil, o que motivou o recolhimento de amostras do estoque do estabelecimento, para envio aos laboratórios de análise do Ministério da Saúde.
No dia 3 de outubro, policiais militares apreenderam 100 garrafas de bebidas falsificadas em uma residência no bairro Jorge Teixeira, zona Leste, que funcionava como fábrica clandestina. O material foi encaminhado para análise. Em setembro, a corporação apreendeu grande quantidade de itens utilizados para adulterar bebidas.
Os estabelecimentos com bebidas suspeitas de contaminação devem ser denunciados à Ouvidoria da Visa Manaus, pelo número (92) 98842-8481 (atendimento de 8h às 13h), ou pelo e-mail [email protected].
Prevenção e vigilância
Embora não haja registros de intoxicação, os órgãos de controle estão em alerta para crise do Metanol. O Ministério Público do Amazonas (MPAM) encaminhou recomendações ao Programa de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon) do Amazonas e ao Procon Manaus para elaboração e execução de um plano de fiscalização voltado à venda e produção de bebidas alcoólicas.
“A recomendação tem por objetivo garantir a adoção de medidas preventivas e repressivas contra a possível adulteração de bebidas comercializadas em Manaus, especialmente aquelas que possam conter metanol, protegendo a saúde e a segurança dos consumidores”, afirmou a promotora Sheyla Andrade dos Santos.
Entre as medidas orientadas estão o treinamento das equipes de fiscalização, a verificação de lacres e rótulos, a suspensão de vendas suspeitas e a criação de campanhas públicas de alerta sobre os riscos do consumo de bebidas de origem duvidosa.
A Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-RCP) informou que monitora possíveis notificações de intoxicação no estado. Reunião com representantes da rede pública e privada de saúde de Manaus e do interior definiu o fluxo de atendimento a casos suspeitos.
“Apesar de não termos registros no Amazonas, o risco existe. A prevenção depende da vigilância ativa e do engajamento de toda a sociedade”, informou a diretora-presidente da FVS-RCP, Tatyana Amorim.
Regras mais duras
O Projeto de Lei nº 869/2025, de autoria do deputado Péricles (PL), propõe medidas rigorosas contra a venda de bebidas adulteradas no Amazonas. O texto obriga os estabelecimentos a manter a Nota Fiscal Eletrônica (NF-e) como comprovante de origem e prevê responsabilidade solidária entre comerciantes e fabricantes em casos de dano à saúde do consumidor.
“É uma ação proativa para proteger a população e garantir segurança no consumo. Queremos punir a fraude sem criar burocracias desnecessárias”, disse o parlamentar.
O deputado Comandante Dan (Podemos), presidente da Comissão de Segurança Pública da Assembleia Legislativa do Amazonas, alertou para a adulteração de bebidas em locais sem estrutura correta, como as festas de rua, chamadas de “adegas”.
“Não podemos fingir que isso não está acontecendo. É hora de agir com planejamento e integração para proteger as famílias amazonenses”, disse.
A Câmara dos Deputados analisa o Projeto de Lei 2307/07 que classifica como crime hediondo a adição, em alimentos, de ingredientes que possam causar risco à vida ou grave ameaça à saúde dos cidadãos.
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