Por Lucas Ferrante e Philip Martin Fearnside

Rotas apropriadas para o transporte de oxigênio e outros suprimentos médicos precisam ser estabelecidas neste momento para a região amazônica porque a região é a mais suscetível do Brasil ao surgimento de uma nova pandemia [1]. Isso pode ocorrer devido à crescente degradação ambiental na região, o que leva a saltos zoonóticos com potencial para causar novas pandemias [1-3]. O desmatamento resultante da reconstrução da rodovia BR-319 provavelmente provocará uma expansão para a Amazônia central das anomalias climáticas já registradas no “arco do desmatamento” [4], o que degradaria ainda mais a floresta e aumentaria o risco de emergência de uma nova pandemia nesta área.

Isso aumenta a preocupação com o extraordinário potencial de degradação gerado pela rodovia BR-319 [5-8] e reforça a importância do rio Madeira como principal via para Manaus. Prefeitos de vários municípios do interior do Amazonas argumentaram falsamente que a falta de trafegabilidade na BR-319 aumenta as disparidades na saúde pública do estado e políticos de Manaus alegaram que a rodovia é necessária para abastecer de combustível e mercadorias e transportar pessoas que precisam viajar para atendimento médico [9]. No entanto, o potencial da BR-319 para aumentar as disparidades de saúde também é mostrado pela relação dessa rodovia com a malária nos municípios que ela corta, como Manicoré, onde há uma forte relação entre degradação ambiental (aumento do desmatamento) e o aumento da malária no município (Fig. 5). O transporte de combustíveis e outras mercadorias é mais viável por meio de barcaças no rio Madeira do que pela BR-319 [10, 11 e Tabela 1 no Texto 3]. O transporte de pacientes aos hospitais seria, sim, facilitado pela rodovia, mas isso de forma alguma justifica o projeto de reconstrução, pois a melhoria da saúde da população do interior da Amazônia seria muito mais bem atendida com o investimento dos recursos destinados à rodovia em construir e equipar clínicas de saúde em todo o interior, em vez de beneficiar os poucos sortudos ao longo da rodovia a alto custo.

Figura 5. Números anuais de casos positivos de malária no município de Manicoré (que é cortado pelo trecho do meio da rodovia BR-319) em relação ao desmatamento anual no trecho. O ano de 2015 marca o início da manutenção e trafegabilidade da rodovia BR-319, após seu abandono. Os dados sobre o número de casos de malária foram obtidos no Centro de Endemias deManicoré. Os dados anuais de desmatamento no trecho do meio da rodovia BR-319 foram extraídos do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal (PRODES) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

Alertas, como o atual, dos saltos zoonóticos com risco de uma nova pandemia por degradação ambiental e desmatamento muitas vezes são ignorados, como era o caso dos alertas da pandemia de COVID-19 um ano antes de seu surgimento, com a identificação de coronavírus em morcegos na região de Wuhan, na China [12]. Como a Amazônia é um dos maiores reservatórios mundiais de zoonoses [3], uma nova crise global de saúde pública surgindo na Amazônia seria potencialmente ainda mais significativa do que a que ocorreu na China. O aumento de doenças endêmicas devido à degradação ambiental na área da rodovia BR-319 é um bioindicador de risco zoonótico iminente (Fig. 5). Esses indicadores devem ser considerados pelos órgãos ambientais que decidirão pelo licenciamento do projeto de reconstrução da BR-319. O risco ambiental à saúde pública é um dos fatores que contribuem para a inviabilidade ambiental do empreendimento.

Ignorar os alertas epidemiológicos levou à catastrófica segunda onda de COVID-19 em janeiro de 2021 (Fig. 1 no Texto 2), e os riscos zoonóticos da reconstrução da rodovia BR-319 são grandes devido ao grande estoque zoonótico presente na floresta amazônica [1, 3]. Ignorar estudos científicos custou vidas no Brasil [13], e os tomadores de decisão não podem fugir da responsabilidade quando ignorar os alertas dos cientistas resulta em catástrofes. A rodovia BR-319 tem se mostrado inviável tanto economicamente [10, 11] quanto ambientalmente [6-8], além de ser prejudicial do ponto de vista da saúde pública.

Conclusão

Concluímos que a crise do oxigênio em Manaus foi usada para promover a proposta de reconstrução da rodovia BR-319, um projeto com enormes consequências ambientais e humanas que incluem impactos na saúde dos povos indígenas e aumento do risco de novas pandemias. O uso político da crise do oxigênio aumentou as disparidades de saúde pública no Estado do Amazonas, especialmente ao impactar a saúde dos povos indígenas – o grupo étnico mais vulnerável. A escolha da BR-319 como rota para levar oxigênio a Manaus custou centenas de vidas e agravou as disparidades de saúde na maior cidade da Amazônia. Ficou claro na época que a melhor rota para transportar oxigênio e outros suprimentos médicos para Manaus não era a BR-319, mas sim a hidrovia do rio Madeira. Nossos resultados também indicam que a reconstrução da rodovia BR-319 aumentaria as disparidades na saúde pública e que apenas o projeto de manutenção da rodovia atual levou a um aumento no número de casos de doenças endêmicas, como a malária. A reconstrução da BR-319 também aumentaria o risco de saltos zoonóticos que poderiam dar origem a novas pandemias. Isso se soma aos muitos impactos que sugerem que as agências ambientais do Brasil fariam bem em interromper o projeto de reconstrução proposto. [14]


A imagem que abre este artigo é de autoria de Sandro Pereira/FotoArena/Estadão Conteúdo e mostra parentes de pacientes internados nos hospitais, fazem fila para recarregar cilindros de oxigênio na frente da empresa Nitron da Amazônia, no Distrito Industrial II de Manaus (AM), na tarde de sexta-feira (15/01/2021).


Notas

[1] Winck, G.R., R.L.G. Raimundo, H. Fernandes-Ferreira, M.G. Bueno, P.S. D’Andrea, F.L. Rocha, G.L.T. Cruz, E.M. Vilar, M. Brandão, J.L.P. Cordeiro & C.S. Andreazzi. 2022. Socioecological vulnerability and the risk of zoonotic disease emergence in Brazil. Science Advances 8: art. eabo5774. https://doi.org/10.1126/sciadv.abo5774

[2] Ferrante, L., R.I. Barbosa, L. Duczmal & P.M. Fearnside. 2021. A planejada exploração de terras indígenas aumenta o risco de novas pandemias. Amazônia Real. https://bit.ly/3wLGqhy

[3]  Ellwanger, J.H., B. Kulmann-Leal, V.L.L. Caesar, L.L. Giatti, G.L. Wallau, S.E.M. Almeida, M.R. Borba, V.P. da Hora & J.A.B. Chies. 2020. Beyond diversity loss and climate change: Impacts of Amazon deforestation on infectious diseases and public health. Annals of the Brazilian Academy of Sciences 92(1): art. e20191375. https://doi.org/10.1590/0001-3765202020191375

[4] Ferrante, L., A. Getirana, F.B. Baccaro, J. Schöngart, A.C.M. Leonel, R. Gaiga, M.V. Garey & P.M. Fearnside. 2023. Effects of Amazonian flying rivers on frog biodiversity and populations in the Atlantic Rainforest. Conservation Biology 37(3): art. e14033. https://doi.org/10.1111/cobi.14033

[5] Ferrante, L. & P.M. Fearnside. 2020. BR-319: O caminho para o desmatamento da Amazônia. Amazônia Real, 07 de agosto de 2020. https://amazoniareal.com.br/br-319-o-caminho-para-o-desmatamento-da-amazonia-08-08-2020/

[6] Andrade, M.B.T., L. Ferrante & P.M Fearnside. 2021. A rodovia BR-319, do Brasil, demonstra uma falta crucial de governança ambiental na Amazônia. Amazônia Real, 02 de março de 2021. https://amazoniareal.com.br/a-rodovia-br-319-no-brasildemonstra-uma-falta-crucial-de-governanca-ambiental-na-amazonia/  https://amz.run/4qlW

[7] Ferrante, L., M.B.T. de Andrade, L. Leite, C.A. Silva Junior, M. Lima, M.G. Coelho Junior, E.C. da Silva Neto, D. Campolina, K. Carolino, L.M. Diele-Viegas, E.J.A.L. Pereira & P.M. Fearnside. 2021. BR-319: O caminho para o colapso da Amazônia e a violação dos direitos indígenas. Amazônia Real, 23 de fevereiro de 2021. https://amazoniareal.com.br/br-319-o-caminho-para-o-colapso-da-amazonia-e-a-violacao-dos-direitos-indigenas/

[8] Ferrante, L., M.B.T. Andrade & P.M. Fearnside. 2021. Grilagem na rodovia BR-319. Amazônia Real, https://bit.ly/3yVZICs

[9] Dia a Dia Notícia. 2023. Omar recebe prefeitos do Amazonas para discutir reconstrução de pontes da BR-319 e asfaltamento da BR-174. Dia a Dia Notícia. 07 de março de 2023. https://diaadianoticia.com.br/omar-recebe-prefeitos-do-amazonas-para-discutir-reconstrucao-de-pontes-da-br-319-e-asfaltamento-da-br-174/

[10] Fleck, L. 2009. Eficiência Econômica, Riscos e Custos Ambientais da Reconstrução da BR 319. Série Técnica, no. 17. Conservation Strategy Fund (CSF), Lagoa Santa, MG, 53 p. https://www.conservation-strategy.org/publication/eficiencia-economica-riscos-e-custos-ambientais-da-reconstrucao-da-rodovia-br-319

[11] Teixeira, K.M. 2007. Investigação de Opções de Transporte de Carga Geral em Conteineres nas Conexões com a Região Amazônica. Tese de doutorado em engenharia de transportes. Universidade de São Paulo, Escola de Engenharia de São Carlos, São Carlos, SP. 235 p. https://teses.usp.br/teses/disponiveis/18/%2018137/tde-27112007-110022/publico/KARENINA_2007.pdf

[12] Fan Y. K. Zhao, Z-L. Shi & P. Zhou. 2019. Bat coronaviruses in China. Viruses 11(3): art. 210. https://doi.org/10.3390/v11030210

[13] Diele-Viegas L. J. Hipólito, & L. Ferrante. 2021. Scientific denialism threatens Brazil. Science 374: 948-949. https://doi.org/10.1126/science.abm9933

[14] Esta série traduz o trabalho Ferrante, L. & P.M. Fearnside. 2023. Brazil’s Amazon oxygen crisis: How lives and health were sacrificed during the peak of COVID-19 to promote an agenda with long-term consequences for the environment, indigenous peoples and health. Journal of Racial and Ethnic Health Disparities


Sobre os autores

Lucas Ferrante é doutor em Biologia (Ecologia) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e atualmente é pós-doutorando na Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Foi primeiro autor de notas em Science e Nature Medicine sobre o impacto de COVID-19 na Amazônia, inclusive em povos indígenas, e coordenou o grupo formado a pedido do Ministério Público-AM sobre o COVID-19 em Manaus. Tem pesquisado agentes do desmatamento, buscando políticas públicas para mitigar conflitos de terra gerados pelo desmatamento, invasão de áreas protegidas e comunidades tradicionais, principalmente sobre Terras indígenas e Unidades de Conservação na Amazônia.

Philip Martin Fearnside é doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 750 publicações científicas e mais de 700 textos de divulgação de sua autoria que estão disponíveis aqui.

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