Boca do Acre é um dos lugares de procedência da minha família. Para lá, em um dos mais belos (embora ainda pouco conhecido) dos encontros de massas de águas dos rios da maior bacia hidrográfica do mundo), do Acre (daí o nome do município) e Purus, na divisa do Acre com o Amazonas, que o meu avô José Gomes de Faria, português, pai da minha mãe, foi parar, como guarda-livros em dos muitos seringais que ainda forneciam borracha para o mundo.
Meu avô casou com a filha do seringalista e depois de algum tempo se mudou para Santarém, que era a terceira maior cidade da Amazônia na época, aonde ficara o irmão, Manoel, que com ele emigrou para o Brasil, enriquecendo na capital do Baixo Amazonas. “Mocorongas” (como também eram conhecidos os santarenos) foram suas três filhas e um filho. Minha mãe quase não conviveu com minha avó, que morreu cedo. Mas convivemos muito com a família dos Cunha, originários de Boca do Acre, do cruzamento de nordestinos e indígenas.
Venho pesquisando sobre Boca do Acre há algum tempo. No último fim de semana, pela internet, fiz duas longas viagens pela BR-317, que liga Boca do Acre à capital, Rio Branco. Tive um choque. Uma fazenda de gado atrás da outra, inclusive no interior do que deveria ser a terra indígena dos Apurinã, o habitante mais antigo da região, massacrado principalmente durante a exploração da borracha nos altos rios, que Euclides da Cunha visitou no início do século passado, deixando descrições magníficas do que viu (do que sonhou e do que temeu).
Pastos e mais pastos para o gado Nelore, em alguns momentos combinados com plantios de milho e poucas habitações de nativos. Em muitos trechos já não se vê floresta. Nem numa direção nem noutra, por toda distância que a vista alcança. Às vezes há árvores muito distantes. Perto, só as castanheiras, protegidas das derrubadas e queimadas por lei federal específica. Altas e solitárias, porém, estão privadas da vizinhança de outras árvores para protegê-las dos ventos, que as derrubam, mais um exemplo da fantasia do tal de desenvolvimento sustentável. São 300 quilômetros de devastação, a partir da conexão com a BR-364. Nada a ver com a região que sobrevoei anos atrás, só podendo chegar aos limites dessa forma, sem depender das longas viagens pelos rios em meandros.
Quando vi o estudo sobre a devastação do sudoeste do Estado do Amazonas, tendo como principal objeto a mesma Boca do Acre, a tristeza de ontem aumentou ainda mais. Envelhecendo diante dessas histórias, que agora conheço pelas imagens de satélite, sem poder chegar pessoalmente a esses lugares, me convenço de que ainda verei o que jamais esperei ver em vida, tão brutal é o destino que se impõe à minha terra, de renunciar a ser Amazônia – à força da combinação de dinheiro, tecnologia, safadeza e covardia de muitos diante da prepotência de uns poucos fazedores de desertos.
A imagem que abre este artigo mostra uma plantação de soja em Boca do Acre (Foto: Acervo/Adalberto José Moreto)
Além de colaborar com a agência Amazônia Real, Lúcio Flávio Pinto mantém quatro blogs, que podem ser consultados gratuitamente nos seguintes endereços:
* lucioflaviopinto.wordpress.com – acompanhamento sintonizado no dia a dia.
* valeqvale.wordpress.com – inteiramente dedicado à maior mineradora do país, dona de Carajás, a maior província mineral do mundo.
* amazoniahj.wordpress.com – uma enciclopédia da Amazônia contemporânea, já com centenas de verbetes, num banco de dados único, sem igual.
* cabanagem180.wordpress.com – documentos e análises sobre a maior rebelião popular da história do Brasil.
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