Um dia antes da reunião na Flórida entre Donald Trump e Volodimir Zelensky, a Rússia lançou, neste sábado (27), um novo ataque com drones e mísseis contra Kiev, que deixou dois mortos e centenas de milhares de moradores sem energia elétrica e calefação.

O alerta antiaéreo permaneceu acionado por várias horas, após grandes explosões durante a noite.

A capital foi alvo de 519 drones e 40 mísseis, dos quais 474 e 29, respectivamente, foram derrubados, segundo a Força Aérea ucraniana.

Um dos projéteis incendiou um prédio residencial, onde uma pessoa morreu e 28 ficaram feridas, segundo o prefeito da capital ucraniana, Vitali Klitschko. Outra pessoa faleceu em uma área da periferia de Kiev.

A primeira-ministra, Yulia Sviridenko, informou que quase 600.000 residências ficaram sem energia elétrica.

O ataque aconteceu na véspera da reunião entre o presidente americano, Donald Trump, e seu homólogo ucraniano, Volodimir Zelensky, prevista para acontecer na Flórida e durante a qual eles abordarão o plano promovido pelos Estados Unidos para acabar com o conflito, iniciado em fevereiro de 2022.

Zelensky disse neste sábado, antes de viajar para o encontro nos Estados Unidos, que o ataque russo contra Kiev demonstra que Moscou “não quer o fim da guerra”.

Os russos “buscam qualquer desculpa para causar à Ucrânia um sofrimento ainda maior e aumentar a pressão”, acrescentou o mandatário.

O Exército da Rússia afirmou que atacou instalações militares e infraestruturas energéticas “usadas em benefício das Forças Armadas da Ucrânia”.

Antes do encontro de domingo com Trump, Zelensky se reunirá com o primeiro-ministro Mark Carney durante uma escala no Canadá e conversará, por videoconferência, com vários líderes europeus.

Plano atualizado

O plano mais recente de Washington é uma proposta de 20 pontos que congelaria a linha de frente nas posições atuais, mas abriria a porta para que a Ucrânia retire suas tropas do leste, onde poderiam ser criadas zonas desmilitarizadas, explicou Zelensky à imprensa no início da semana.

O presidente ucraniano também apontou divergências entre Kiev e Washington sobre a região do Donbass (leste), controlada em sua maior parte pela Rússia.

O governo dos Estados Unidos pressiona a Ucrânia para que retire suas tropas dos 20% de território que controla na região de Donetsk, parte do Donbass, principal exigência territorial da Rússia.

O plano atualizado de Washington também propõe um controle conjunto entre Estados Unidos, Ucrânia e Rússia da central de Zaporizhzhia, a maior usina nuclear da Europa, que as tropas russas tomaram durante a invasão.

Zelensky afirmou que a possibilidade de ceder território precisa ser aprovada pela população ucraniana em um referendo.

A Ucrânia obteve concessões em relação ao plano anterior, de 28 pontos, apresentado pelos Estados Unidos e considerado muito tendencioso a favor dos interesses da Rússia.

O plano atualizado elimina a exigência de que Kiev renuncie expressamente à aspiração de ingressar na Otan, assim como a possibilidade de que Washington reconheça de fato como russos os territórios ocupados desde 2014, ano da anexação da península da Crimeia.

O plano inclui uma série de acordos bilaterais entre Estados Unidos e Ucrânia sobre garantias de segurança, reconstrução e economia, além de um forte apoio econômico europeu.

Moscou criticou a nova versão e acusou Kiev de tentar “prejudicar” as negociações.

A Rússia considera a pretensão ucraniana de aderir à Otan uma linha vermelha e não aceita o envio de forças de paz internacionais para monitorar um futuro cessar-fogo, um dos pontos previstos no plano.

O presidente americano aguarda seu hóspede. “Ele (Zelensky) não tem nada até que eu aprove”, disse Trump ao site americano Politico sobre as negociações.

“Então, veremos com o que ele chega”, afirmou. “Acho que vai dar certo com ele. Acho que vai dar certo com (o presidente russo Vladimir) Putin”.

Após a viagem de Zelensky para os Estados Unidos, um novo escândalo de corrupção foi revelado na Ucrânia. A Agência Nacional Anticorrupção (NABU) acusou vários deputados de aceitarem subornos em troca de votos no Parlamento.

Os investigadores tentaram entrar nos gabinetes dos comitês parlamentares em Kiev, mas as forças de segurança impediram a operação de busca, informou a NABU.

A Presidência ucraniana foi sacudida por um grande escândalo de corrupção sobre o desvio de quase 100 milhões de dólares (554 milhões de reais) no setor energético.

O chefe de gabinete de Zelensky, Andrii Yermak, até então principal negociador com Washington, foi obrigado a renunciar ao cargo.

© Agence France-Presse

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