Fechamento do Aeroclube acentua crise aérea no Amazonas

O fechamento do Aeroclube do Amazonas, localizado no Aeródromo de Flores, em Manaus, marca mais um capítulo da crise aérea que atinge o estado. A falta de integração e os altos custos dos voos deixam o interior cada vez mais isolado. A decisão judicial que determina a desocupação da área evidencia as fragilidades da mobilidade regional e o impacto direto sobre a população que depende do transporte aéreo para ter acesso a serviços essenciais. O cenário é agravado pela incerteza quanto ao futuro do aeródromo de Flores.

No Amazonas, há cidades onde a viagem até a capital pode levar até dez dias de barco. Atualmente, somente uma companhia aérea comercial, a Azul Linhas Aéreas, que mantém rotas regulares para alguns municípios, como Parintins, Tefé, Tabatinga, Lábrea, Coari, Maués, Manaus, Manicoré, São Gabriel da Cachoeira e Borba.

Apesar da tímida malha aérea, a locomoção para esses municípios via companhias aéreas costuma variar de disponibilidade, além dos altos preços. Uma simulação no site da Azul de um voo saindo de Manaus rumo a Tabatinga, no sábado (01º/11), está custando R$ 4,9 mil, somente ida.

Os outros 52 municípios do estado dependem exclusivamente de voos fretados ou de pequeno porte, muitos deles operando a partir do Aeródromo de Flores, que funciona como base da aviação local e ponto de partida para missões médicas, voos turísticos e transporte de passageiros.

A decisão que obriga a saída do Aeroclube do Amazonas foi firmada após audiência no último dia 22 de outubro, entre a Infraero, gestora da área desde 2023, e a diretoria da instituição. O acordo encerra um impasse judicial de anos e estabelece o pagamento de R$ 460 mil em débitos, além de R$ 15 mil mensais pelo uso temporário do hangar até a entrega definitiva do espaço.

Interior precisa com urgência, aponta AAM

Ao Toda Hora, o presidente da Associação Amazonense dos Municípios (AAM), Anderson Souza, alertou que o fechamento do Aeroclube impactará duramente comunidades e cidades que dependem do transporte aéreo para deslocamentos urgentes.

“O interior precisa com urgência de um aeroclube funcionando. Muitos voos de transporte de pacientes e passageiros partem de lá. São aviões de pequeno porte que atendem municípios como São Gabriel da Cachoeira, Barcelos, Carauari, Autazes, Careiro e Rio Preto da Eva”, destacou.

Segundo ele, a base também era usada em voos turísticos e oficiais. “A região do Rio Negro é forte no turismo, na pesca esportiva e artesanal. Quase todos os voos saem do Aeroclube”, completou.

Conectividade em queda
Durante audiência pública na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), em agosto, autoridades do setor aéreo e de turismo reforçaram o alerta sobre a queda na conectividade aérea do estado.

A coordenadora de Desenvolvimento Turístico da Embratur, Roselene Medeiros, afirmou que “sem conectividade não há turismo”. A questão do Festival Folclórico de Parintins, que também movimenta o setor de táxi aéreo, também foi alvo de preocupação na discussão.

“Parintins é um dos principais destinos turísticos do Estado, mas ainda depende em grande parte do transporte fluvial. O acesso aéreo limitado eleva os custos e afasta turistas”, destacou.

No mesmo mês, o presidente da Comissão de Transportes da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), deputado Adjuto Afonso (União Brasil), anunciou que protocolou a convocação da companhia aérea Azul para prestar explicações sobre os frequentes problemas de cancelamento de voos entre os municípios do estado.

Futuro do Aeroclube
O despejo do Aeroclube do Amazonas se soma a um cenário nacional preocupante: 26 instituições similares enfrentam disputas judiciais ou dificuldades financeiras.

Apesar da ordem de desocupação, o diretor do Aeroclube, Fernando Lúcio, afirma que o Aeroclube não vai encerrar suas atividades. A instituição deve transferir as aulas práticas para uma nova pista localizada em Iranduba, enquanto a parte teórica permanecerá no bairro Flores, em local ainda a ser definido e divulgado.

“O aeroclube em si não vai acabar. Isso posso falar. A gente vai para outra pista e vai fazer a teoria em outro lugar, porque antes era pista e teoria, prático e teórico junto. Hoje, o prático vai ficar numa pista a 58 quilômetros de Manaus e o teórico vai ficar aqui na região da Torquato Tapajós”, disse à reportagem.

Atualmente, a escola de aviação possui 174 alunos ativos de diferentes localidades do país, como São Paulo e Minas Gerais.

Infraero assume, mas planos são incertos
O Aeroporto de Flores, administrado historicamente pelo Aeroclube, passou oficialmente à responsabilidade da Infraero após portaria do Ministério de Portos e Aeroportos publicada em 2023.

Com o novo cenário, a empresa ainda não divulgou publicamente qual será seu papel na nova gestão, nem apresentou planos para o uso da área atualmente ocupada pelo Aeroclube e pelas escolas de aviação e paraquedismo que operam no local.

A reportagem procurou a Infraero pelo menos duas vezes para obter informações sobre o futuro do espaço, mas não recebeu resposta sobre possíveis projetos até o fechamento desta edição.

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