Duas organizações criminosas especializadas em empréstimos com juros extorsivos, além de investigadas por homicídios, tortura, aborto, sequestros e lavagem de dinheiro, foram alvos de operação da Polícia Civil do Amazonas (PC-AM), nesta quarta-feira (20/05). Entre os integrantes dos grupos, que movimentaram cerca de R$ 24 milhões dentro e fora do estado, está dois cabos da Polícia Militar do Amazonas (PMAM), que não estavam exercendo funções ativas na corporação e foram presos em Santa Catarina.

As investigações da Operação “Covil do Mamon”, que mobilizou agentes no Amazonas, Santa Catarina, Paraíba e Roraima, apontam que os grupos operavam desde 2021, com pico de atividade entre 2024 e 2026.

Mapeamento e prisão de lideranças
Em entrevista coletiva, o delegado Fernando Bezerra detalhou como as investigações conseguiram identificar toda a estrutura criminosa dos grupos.

“Mapeamos os os responsáveis por cada atividade, entre núcleos diretivos, operacionais, logísticos e financeiros. As prisões englobaram desde os líderes pensantes e cobradores de rua até os braços responsáveis pelo fornecimento clandestino de armamentos e veículos.

O modus operandi financeiro consistia em asfixiar cidadãos por meio de juros impagáveis, destacou Fernando Bezerra ao explicar as extorsões dos grupos.

“É importante ressaltar que os valores inicialmente emprestados eram submetidos a juros abusivos. Há casos em que um empréstimo de R$ 150,00 se transformou em uma dívida de R$ 45 mil. As dívidas progrediam em uma escala que não se justificava, em seguidas, vinham as ameaças e eventuais sequestros”, contou o delegado.

Segundo a Polícia Civil, mais de 40 vítimas já foram identificadas oficialmente, mas a expectativa é que esse número ultrapasse 100 pessoas conforme o avanço da apuração. “A investigação prosseguirá para identificar outros possíveis envolvidos. Acreditamos que a investigação não se encerra aqui e uma segunda fase será iniciada”, afirmou Fernando Bezerra.

Captura de PMs em Santa Catarina
Entre os presos estão dois policiais militares apontados como integrantes do núcleo financeiro de uma das organizações criminosas. Eles foram localizados em Santa Catarina durante o avanço das diligências.

“O papel deles era central no núcleo financeiro, atuando diretamente nos atos de ocultação e simulação, caracterizando lavagem de dinheiro. A investigação vai muito além da extorsão, ela busca reaver todo o dinheiro retirado das vítimas”, explicou Fernando Bezerra.

O major da PMAM, Andrey Lima, contextualizou a situação administrativa dos envolvidos. Ele revelou que os dois cabos presos em Santa Catarina não estavam exercendo funções ativas na corporação e descumpriram restrições legais ao deixar o território amazonense:

“São policiais militares da atividade, mas já estavam suspensos. Eles se ausentaram do estado sem autorização judicial e foram localizados em Santa Catarina com apoio da polícia daquele estado.”

O major reafirmou que o comando da instituição adotará uma postura rígida de depuração interna para punir os desvios de conduta:

“Reafirmamos o compromisso da Polícia Militar em não compactuar com casos de corrupção policial. Esses militares já respondiam a processos anteriores e aguardaremos o desfecho da investigação da Polícia Civil para aplicar as punições administrativas cabíveis, inclusive a exclusão definitiva”.

Arsenal apreendido e aborto em cárcere

Cabos da PMAM são presos suspeitos de agiotagem e extorsão; esquema movimentou R$ 24 milhões
Itens apreendidos durante a operação – Foto: Rickardo marques

Durante a operação, a polícia apreendeu armas de fogo, munições, espadas, celulares, documentos, equipamentos eletrônicos e outros materiais que agora serão periciados para identificar possíveis vínculos com os crimes investigados. O material foi encaminhado para a sede da Delegacia Geral da PC-AM, no bairro Dom Pedro, zona centro-oeste de Manaus.

Outro ponto que chamou atenção da investigação envolve uma mulher que teria sido sequestrada durante uma cobrança: “Ela permaneceu sequestrada por aproximadamente dois dias. Durante esse período, segundo os autos da investigação, há indicativo de que ela tenha sofrido um aborto pelos danos psicológicos”, revelou o delegado.

Com o encerramento desta primeira fase, as equipes de inteligência se preparam para analisar os dispositivos eletrônicos apreendidos. O delegado Fernando Bezerra confirmou que uma segunda etapa da operação será instaurada nos próximos dias para identificar novos integrantes do esquema de lavagem de dinheiro e localizar outros alvos que ainda possuem mandados de prisão em aberto.

Mandados
Ao todo, o Poder Judiciário expediu 25 mandados de prisão preventiva e 31 ordens de busca e apreensão domiciliar. No Amazonas, 20 já foram cumpridos, sendo 13 prisões foram confirmadas até o momento. Parte das ordens judiciais foi executada simultaneamente nos outros estados.

A ofensiva também determinou o sequestro de 42 veículos, sete imóveis, o bloqueio judicial de contas bancárias e a suspensão das atividades de sete empresas utilizadas como fachada para a ocultação de valores.

👁 20 visualizacoes

PUBLICIDADE